(Artigo de Sílvia Júlio, publicado em Família Cristã, fevereiro 2015)

Nem todas as histórias de amor são para a vida. Há namoros violentos que esmigalham sonhos, quebram o peito, vergam o desejo e a vontade de construir um projecto a dois.

Carina, 22 anos, viveu o primeiro grande amor com medo. De peito apertado, receava manifestar alguma palavra, atitude ou emoção, inapropriadas aos olhos dele, que pudessem gerar mal-entendidos. Tudo e nada eram motivos para “ataques de ciúmes”.

Quando a jovem foi para a universidade, longe da família e do namorado, ele perseguia-a, escondia-se atrás das árvores para ver com quem estava e a fazer o quê. Diariamente, o rapaz fazia 100 quilómetros para a “espiar”. Tocava à campainha da casa que partilhava com outra estudante por volta das sete da manhã. Queria estar com a namorada, quando ela se preparava para ir às primeiras aulas da manhã. À noite, também aparecia vindo do nada: “Num jantar com colegas, ainda no início do 1º ano da licenciatura, ele sabia que eu estava com outros rapazes e ia sair à noite, e deslocou-se novamente para a cidade onde estudava… Ainda hoje não sei como me encontrou, mas a verdade é que estava num bar com os meus colegas e ele apareceu… Permaneceu algum tempo lá comigo, mas não tardou até implicar com um rapaz”, recorda. Para evitar confrontos, Carina arrastou-o para fora do bar: “Foi nessa noite que ele mexeu no meu telemóvel”, conta. Cego de ciúmes, via traições que não existiam. “Tenho outro episódio que aconteceu em minha casa, no dia do meu aniversário, uma data em que é normal receber montes de mensagens. Recebi um SMS de um ex-namorado e ele fez uma cena…” Também a conta na rede social Hi5 teve de ser desactivada “porque era vigiada a toda a hora”. Sei que entrava no Hi5, ele tinha formação na área de informática… Ele sabia tudo…”, lembra.

Quando viajavam de carro, entre discussões, “ele acelerava, fazia peões só para intimidar”. Pela estrada fora, Carina temia pela vida de ambos. O rapaz chamava-lhe nomes, humilhava-a em privado e em público. Uma vez, dirigiu-se ao trabalho dela, onde estava a estagiar, e à frente de outras pessoas começou a discutir. Parecia que lhe ia bater. Valeu-lhe uma colega que impediu que ele passasse para o lado de lá do balcão de atendimento ao público.

A Carina quis terminar a relação. Ele devolveu-lhe todas as prendas que acumularam ao longo de três anos de namoro e voltou a discutir com ela. Desesperada, tomou muitos comprimidos de uma só vez. Já não aguentava viver assim. Lembra-se apenas de ter acordado no hospital, depois de lhe ter sido feita uma lavagem ao estômago. A história da Carina terminou bem, mas muitas outras não têm o mesmo fim.

Quando acabou com o ex-namorado, sentiu-se a pior pessoa do mundo. Todos lhe diziam que “não percebiam porque é que terminava aquela relação, quando ele fazia tantos quilómetros só para ver”. Ninguém sabia o que se passava, porque ela, entretanto, já tinha perdido as amizades. A estudante universitária, com o apoio da mãe, decidiu que deveria ser acompanhada por uma psicóloga para ultrapassar a dor que estava a viver. “Ela ajudou-me a focar nas prioridades, que eram os estudos e a família”. A Carina centrou-se no essencial e seguiu em frente. Já terminou a licenciatura, é mestranda em Educação Especial e namora um rapaz “que não tem nada a ver com o outro”. Mas ainda hoje tem pesadelos com o ex-namorado. O que também a desassossega é não conseguir perceber como é que o ex, que sempre criticou o pai por maltratar a mãe, fez o mesmo com ela. É-lhe difícil compreender o paradoxo.

“O testemunho de violência na família é um fator de risco para a ocorrência de violência no futuro. Existem algumas teorias que reforçam a questão da transmissão intergeracional da violência. Sublinho que é um fator de risco, mas não é por si só uma situação causal, ou seja, nem todas as crianças e jovens que assistem a situações de violência na sua família vão reproduzir esses comportamentos na sua vivência de adultos”, realça Rosa Saavedra, assessora técnica da direcção da Associação Portuguesa de Apoio à Vítima (APAV).

Fátima Duarte, presidente da Comissão para a Cidadania e Igualdade de Género (CIG), frisa também a mensagem a reter: não é linear que uma criança ou adolescente que tenha assistido, na sua família nuclear, a episódios, mais ou menos frequentes, de violência doméstica, venha a ser vítima ou agressor. “O que se assiste é, de facto, a uma aprendizagem de papéis sociais de género (do que é ser mulher e do que é ser homem), que, inevitavelmente, vai ter repercussões no modo como rapazes e raparigas se vão posicionar, no futuro, nas suas relações de intimidade e nas expectativas que têm face a essas mesmas relações”. No entanto – salienta -, a socialização não se faz apenas na família: “A influência de outros contextos – da escola, dos grupos de pares, entre outros – pode influir e mediar essa aprendizagem feita, na maioria das vezes, por observação e modelagem, no núcleo familiar mais restrito”.

Daí a relevância da escola e outras instituições para a promoção da cultura da não-violência. A informação, a sensibilização e a educação ajudam a prevenir e a combater a violência.

A prevenção primária – família, escola e outros contextos de socialização – é fulcral: “A promoção de relações igualitárias, assentes na simetria e no respeito mútuo, na aprendizagem da resolução, construtiva, de conflitos e na valorização do outro, independente do seu sexo, são, nesta fase, dimensões fundamentais na desconstrução dos estereótipos e das relações de poder versus submissão, que enformam as relações violentas, desde as denominadas microviolências – como a tentativa de controlo das chamadas telefónicas, da “escolha” do grupo de amigo – até às formas mais claramente violentas, como a injúria, a ameaça, o isolamento social, a violência física ou a violência sexual”, acrescenta Fátima Duarte.

Os estudos evidenciam que as relações pautadas pela violência na conjugalidade já o eram, na sua grande maioria, durante o namoro. De sublinhar que, nas relações entre adultos há uma assimetria entre quem agride e quem é agredido (nos casos de violência conjugal, há um maior número de mulheres vítimas de violência), nos namoros existe uma simetria relativamente ao sexo que agride e ao sexo agressor.

As agressões físicas mais recorrentes são as bofetadas, pontapés, empurrões e puxões de cabelo. Mas a violência não é apenas aquela que deixa marcas físicas. Há também a psicológica, onde os insultos e as ameaças nem sempre são percecionados pelos mais jovens (nem mesmo pelos adultos), como sendo formas de violência. Há a violência sexual em alguns relacionamentos íntimos. Há a violência social, onde se minam os relacionamentos da vítima com os amigos, de forma a mantê-la afastada da sua rede de suporte. Há ainda quem use as novas tecnologias para controlar o acesso às redes sociais ou ao correio electrónico da vítima. “É muito comum os jovens confundirem atos de controlo com atos de amor ou de ciúme. É importante a sensibilização e informação, para que percebam que alguns comportamentos ultrapassam claramente os limites razoáveis para demonstrações de afeto e ciúme”, alerta Rosa Saavedra.

Recorde-se que em 2013 foram introduzidas alterações ao Código Penal, que incluíram as relações de namoro no âmbito do preceito que penaliza a violência doméstica (art. 152º). A técnica da APAV aconselha: “Procurar ajuda junto de um adulto responsável ou um profissional que possa apoiar”.

Por fim, mas não menos importante, releva-se uma mensagem positiva que vale a pena fixar: se um em cada quatro jovens já terá sido vítima de violência nos relacionamentos íntimos, “três em cada quatro não o foram”. O que significa – diz Rosa Saavedra – que “a maioria dos jovens estabelece relacionamentos positivos com os seus namorados(as)”.