Sínodo da Família
(Artigo de D. Francisco Senra Coelho, publicado em Família Cristã, fevereiro 2015)

Porque a vocação à família está inscrita no coração humano, podemos licitamente concluir que a família é a melhor expressão da nossa origem em Deus. É por isso que nunca será possível prescindir da família na construção de um mundo humanizado, nem apagar a força de humanidade que a família contém.

 

De facto, a História regista grandes mudanças civilizacionais, porém o Homem na sua essência e nas suas necessidades permanece o mesmo, e a família não é uma moda, mas parte identitária do ser humano. Enganam-se aqueles que, subscrevendo certas ideologias ditas científicas, apresentam modelos alternativos e supostamente opcionais à família natural, essencialmente heterossexual, monogâmica, fecunda e estável.

Concretizar a realidade da família no nosso quotidiano torna-se uma experiência tão frágil como complexa, por isso mesmo rica de humanidade. É por isso que os pastores da Igreja devem valorizar tudo aquilo que é atrativo na família, prestando assim o seu grande contributo à Humanidade, defendendo o seu primeiro e maior património imaterial.

Por tudo isto, o Papa Francisco abriu um percurso sinodal previsto na realização de dois sínodos, um extraordinário e um ordinário.

A Assembleia Ordinária do Sínodo reunir-se-á de 4 a 25 de outubro deste ano de 2015 e terá como tema “A vocação e a missão da família na Igreja, no mundo contemporâneo”. Esta III Assembleia-Geral do Sínodo dos Bispos, por decisão do Papa, deve assumir a Relação Final do Primeiro Sínodo como Lineamenta, ou seja, o seu documento preparatório. Este texto, para além de uma introdução, desenvolve-se em três partes: “A escuta: o contexto e os desafios sobre a família”, “O olhar para Cristo: o Evangelho da família”, “O confronto: perspectivas pastorais”.

Neste breve artigo vamos deter-nos na primeira parte.

A primeira parte deste documento, “A escuta: o contexto e os desafios sobre a família”, apresenta três assuntos: o contexto sociocultural em que as famílias vivem, a importância da vida afectiva e o desafio para a pastoral da Igreja que são todos os aspectos relacionados com a família.

 

O CONTEXTO SOCIOCULTURAL

Segundo os padres sinodais, as mudanças antropológico-culturais influenciam hoje todos os aspectos da vida positivamente, “a maior liberdade de expressão e o melhor reconhecimento dos direitos da mulher e das crianças, ao menos em algumas regiões”. Relativamente às dificuldades, refere o individualismo exasperado, que desnatura os laços familiares e acaba por considerar cada componente da família como uma ilha, fazendo prevalecer, em certos casos, a ideia de um sujeito que se constrói segundo os próprios desejos, tomados como um absoluto”. O texto refere a crise de fé, “que atingiu tantos católicos e que muitas vezes está na origem das crises do matrimónio e da família”.

Consequência da ausência de Deus na vida é a solidão e a fragilidade das relações. Também a realidade socioeconómica, a pobreza, a precariedade do trabalho e a fiscalidade demasiado pesada em que nos achamos mergulhados esmagam as famílias.

O documento apresenta ainda um conjunto de desafios colocados à pastoral da Igreja: a poligamia, o costume do “matrimónio por etapas”, os “matrimónios combinados”, os “matrimónios mistos”, as crianças nascidas fora do matrimónio que “crescem só com um dos pais ou num contexto familiar alargado ou reconstruído” e transformado muitas vezes em objecto de disputas entre os seus pais.

A discriminação das mulheres, a “mutilação genital da mulher em algumas culturas”, a “exploração sexual da infância”, a violência resultante da guerra, do terrorismo, da criminalidade organizada e a realidade dos meninos da rua são realidades negativas não esquecidas pelo documento.

 

A IMPORTÂNCIA DA VIDA AFETIVA

O documento preparatório para o sínodo considera que “o desafio que se põe à Igreja é ajudar os casais na maturação da dimensão emocional e no desenvolvimento afetivo”, pois “(…) não faltam tendências culturais que parecem impor uma afectividade sem limites, de que se querem explorar todos os meandros, mesmo os mais complexos. De facto, a questão da fragilidade afectiva é de grande actualidade: uma afectividade narcisista, instável e mutável (…) nem sempre ajuda os sujeitos a alcançar uma maior maturidade”.

A queda demográfica, fruto de uma mentalidade antinatalista e de certas políticas mundiais de saúde reprodutiva, dizem os padres sinodais que determinam “uma situação em que o revezar das gerações já não é assegurado” e com o tempo levam a um empobrecimento económico e à perda de esperança no futuro.

 

O DESAFIO PASTORAL

A Igreja lê nestes sinais dos tempos a sua missão “de dizer uma palavra de verdade e de esperança” ao “homem que vem de Deus”. De facto, “os grandes valores do matrimónio e da família cristã correspondem à procura que atravessa a existência humana, mesmo num tempo marcado pelo individualismo e pelo hedonismo”.

Os bispos falam da necessidade de a Igreja “acolher as pessoas com a sua existência concreta”, sabendo apoiar e encorajar o seu desejo de Deus e a sua vontade de se sentirem plenamente membros da Igreja. É nestas situações muito diversificadas que a “mensagem cristã traz sempre em si a realidade e a dinâmica da misericórdia e da verdade, que em Cristo convergem”.

 

PERGUNTAS PARA O ACOLHIMENTO E O APROFUNDAMENTO DA RELAÇÃO FINAL DO SÍNODO

A 19 de Setembro de 2013, o Papa Francisco anunciou, numa entrevista concedida à revista italiana Civilitá Cattolica: “Devemos caminhar juntos: as pessoas, o bispo e o Papa. A sinodalidade deve ser vivida a diversos níveis. Talvez seja tempo de mudar a metodologia do sínodo dos bispos, porque a actual parece-me estática”.

Assim, em novembro de 2013, foi difundido o Documento Preparatório da III Assembleia Extraordinária do Sínodo,  o qual incluía um amplo questionário aos fiéis e às Igrejas locais. O documento, “muito ágil”, substituiu os Lineamenta com o objetivo de envolver todo o Povo de Deus no sínodo.

Todas as questões colocadas são pertinentes e interessantes, ainda que algumas prevejam e se enquadrem em ambientes culturais muito diferentes dos nossos.

Efetivamente, trata-se de um questionário para os católicos de todo o mundo… Parece-me uma excelente ocasião para em grupo, ou pessoalmente, reflectirmos nas questões propostas e enviarmos o nosso contributo para as respectivas paróquias, a fim de colaborarmos com o sínodo dos bispos nesta importante questão que nos interessa a todos, a Família.