Segundo o cardeal designado, Edoardo Menichelli, as controvérsias suscitadas pelo último Sínodo sobre a família são “mais fruto de uma hipótese jornalística do que uma paixão profunda pelo magistério

 

Roma, 09 de Fevereiro de 2015 (Zenit.org) Luca Marcolivio

Juntamente com Francesco Montenegro, arcebispo de Agrigento, e Luigi De Magistris, Pro-Penitenciário emérito da Santa Romana Igreja, Edoardo Menichelli é um dos três italianos que no próximo sábado vão receber o barrete vermelho do Papa Francisco

Mesmo para o iminente consistório, entre os novos cardeais, o Santo Padre escolheu principalmente pastores “de periferia” ou, pelo menos, não titulares de tradicionais sedes cardinalícias: a nomeação de Menichelli confirma esta linha.

Contatado telefonicamente por ZENIT, o novo cardeal contou a história da sua vocação sacerdotal, fruto de grande sacrifício, e a sua visão “profética” da Igreja Católica, vista mais como uma entidade espiritual, do que como sujeito ‘político’ ou ‘estratégico’.

“A nomeação me pegou de surpresa e sou grato ao Santo Padre”, disse o Arcebispo de Ancona, que no ano passado comemorou 20 anos da sua ordenação episcopal e que, no próximo dia 3 de Julho celebrará meio século de sacerdócio.

Depois de três anos como pároco e professor de religião em sua cidade natal, San Severino Marche, Edoardo Menichelli, passou 26 anos em Roma, onde trabalhou na Cúria do Vaticano, acrescentando o próprio ministério pastoral nas paróquias, especialmente na formação ao sacramento do matrimônio, e como capelão em uma clínica.

Menichelli foi por muito tempo oficial da Signatura Apostólica, e, mais tarde, da Prefeitura das Igrejas Orientais, em ambos os casos, a serviço do cardeal Achille Silvestrini.

Em 1994, São João Paulo II o nomeou arcebispo de Chieti-Vasto, depois, em 2004, o Papa Wojtyla o transferiu para a arquidiocese de Ancona-Osimo, onde ainda é titular.

ZENIT: Eminência, poderia contar-nos um pouco como nasceu a sua vocação sacerdotal?

Menichelli: Meu pai e minha mãe eram muito fervorosos, mas perdi os dois aos dez anos. Nesse ponto, minha história humana mudou de estrada: tive que deixar a escola, e começar a trabalhar cedo, uma coisa muito normal para as crianças pobres naquela época. Dentro desta história dolorosa, está aquela que eu chamo a “mão misericordiosa de Deus”: por meio da obra de um sacerdote, que conhecia bem a minha família, e de uma pessoa de Roma que tinha, também ela, participado nos nossos sofrimentos, abriu-se para mim o caminho da retomada dos estudos. Quando ainda não pensava em nenhuma vocação sacerdotal, por volta dos 14 anos, fui mandado para um seminário, em um lugar mais humano e mais protegido. Começou, portanto, para mim, um caminho de discernimento: gradualmente, com a ajuda dos responsáveis pela minha formação, compreendi que o sacerdócio era o meu caminho, que mais tarde foi aceito pela Igreja, na pessoa do amado bispo que me ordenou, monsenhor Ferdinand Longinotti. Depois de estudar no seminário regional de Fano, fui ordenado no dia 3 de julho de 1965: por isso, nesse ano cumpro 50 anos de sacerdócio!

ZENIT: Há pouco o senhor completou 75 anos: como continuará a sua vida pastoral, após o término do seu mandato como arcebispo de Ancona-Osimo?

Menichelli: O meu futuro imediato será a continuação deste serviço pela minha diocese, pelo tempo que o Santo Padre quiser. Com a idade de 75 anos, todo bispo coloca o próprio ministério nas mãos do Santo Padre, que, na sua bondade, me pediu para continuar ainda por um pouco de tempo. Mais tarde veremos, colocando tudo nas mãos de Deus e do amor pela Santa Madre Igreja, que sempre deve se distinguir por dar sentido ao nosso ser sacerdotes.

ZENIT: No próximo sábado, você vai se tornar um dos dez cardeais italianos titulares ou vigários de dioceses: quais são, na sua opinião, os pontos fortes e fracos da Igreja italiana?

Menichelli: Muito resumidamente, eu acho que nós temos que lembrar que os pontos fortes nascem do Alto, da força de Deus, da nossa fé Nele, do nosso serviço, da nossa palavra e da graça de Deus. As fraquezas pertencem ao humano e, portanto, também à Igreja que é feita de pessoas concretas, também essas pecadoras; nascem do que não conseguimos viver em plenitude. A todos nós, por vezes, nos falta a paixão pelo homem e pela comunidade e, especialmente, pelo Evangelho. Então, dentro desta leitura, que espelha o sentido da Igreja, sobrenatural e humana, eterna e histórica, estão, tanto os pontos fortes como os pontos fracos. Temos que ser capazes de viver o ministério de Cristo na sua Encarnação, estar no tempo da Sua Morte e Ressurreição que nos habitua a olhar para o Alto e ter esta Esperança que nasce no coração de Deus.

ZENIT: Em outubro passado, o Senhor era um dos padres sinodais da última assembleia extraordinária sobre a família. Poderia nos dizer algo sobre essa experiência?

Menichelli: Ter sido escolhido pelo Santo Padre para o último Sínodo foi uma graça para mim e uma experiência muito enriquecedora, principalmente pelos testemunhos que tenho recebido, especialmente dos padres sinodais mais peritos. Foi uma experiência eclesiasticamente significativa, durante a qual aprofundamos alguns temas relativos a família, a sua identidade e a sua subjetividade pastoral, a sua sacramentalidade e, naturalmente, as suas feridas. O que fizemos se tornará tema introdutório para o próximo Sínodo e, claro, cabe a nós para orar, para que Deus abra os corações e mentes de todos nós, em um serviço completo e verdadeiro pela família.

ZENIT: No último Sínodo surgiram, no mundo católico, fortes polêmicas sobre as supostas inovações em matéria matrimonial, da comunhão aos divorciados e recasados à abertura aos casais homossexuais. Qual é a sua opinião?

Menichelli: Quando falamos sobre coisas eclesiásticas que tratam de Deus, Jesus Cristo, o Espírito Santo e nós, temos que colocar-nos em outra perspectiva: aquela de ser fiel a Cristo Senhor. Jesus Cristo nos deu a Si Mesmo e nos revelou o Pai sob dois ângulos: o ângulo da Verdade e o ângulo da Misericórdia. No tempo, a Igreja sempre teve a tarefa de conjugar Verdade e Misericórdia para a humanidade que encontra: esta é a “fadiga” e a “graça” da Igreja e de uma pastoral, que não diz respeito só à família, mas também à cotidianidade de todos nós, ou seja, de quem quiser acolher a verdade de Deus, que é imutável, e a Sua misericórdia, que passa no caminho da Igreja e que se dirige a todos. As polêmicas são, portanto, mais fruto de uma hipótese jornalística do que de uma paixão profunda pelo magistério.

ZENIT: O Papa Francisco está realizando uma importante reforma na Cúria Romana e insiste sobre a vocação da Igreja “para os pobres”…

Menichelli: Também nesse ponto, temos sempre que lembrar uma regra: Ecclesia semper reformanda. Isto significa que a Igreja à que pertencemos é sempre colocada no interior de uma “reforma” que verifica se, como Igreja, somos fiéis à Palavra de Deus e do ministério que nos foi confiado. Não houve, portanto, um tempo em que a Igreja fosse santíssima e um tempo em que estava cheia de pecados; estamos simultaneamente cheios de pobreza e de magnificência. Hoje, o Papa chama certamente a Igreja para percorrer caminhos de maior atenção com o sofrimento do homem, a ser capaz de mergulhar, como fez Deus, nas feridas da história. E, assim, a Igreja é chamada a ser profética. Uma Igreja muda não serve para ninguém, uma Igreja ‘guerreira’ não é evangélica. É necessário, antes, uma Igreja profética para levar adiante a Palavra do Senhor, uma palavra que às vezes é amarga, mas que dá a felicidade se for ouvida e, se for vivida.