(por Fernando Reis, em Boletim Português – Sociedade de S. Vicente de Paulo, julho 2014)

Consultando textos antigos que escrevi, deparei-me com um, já com quinze anos de idade, que o defini na expressão “hoje como ontem”. As coisas não se alteraram, antes, pelo contrário, até estão mais agravadas numa sociedade desumanizada em que as pessoas mais fragilizadas se encontram desprotegidas e isoladas.

Por definição, solidão é o estado de quem está só e estar só é não ter companhia, encontrar-se isolado.

Há ainda a situação de se ser solitário, aquele que evita a convivência, indivíduo que vive ou gosta de viver só. A solidão é um dos importantes problemas de carência que afecta a sociedade dos nossos dias.

É um problema que tanto pode atingir os mais velhos como até os mais novos. São, na realidade, pessoas que não encontram quem os compreenda e com eles dialogue.

São múltiplos os problemas humanos que existem à nossa volta, problemas que nem sempre se reduzem a carências de ordem material, mas são também de ordem espiritual, social e afectiva, como a perda do gosto pela vida, o abandono, a solidão, a marginalização.

Há quem nasça na miséria, sem conhecer os pais que os geraram, ou que são infelizes ou incapazes.

Para alguns, a vida começa logo a ser um fardo terrivelmente pesado que, por vezes, os esmaga ou fere dolorosamente.

Se uns, pelas suas capacidades e pela sua força de vontade conseguem superar o peso desse fardo e vencer o seu destino, outros, em muito maior número, arrastam pela vida fora uma existência de carências e, em face de se sentirem fracassados, recorrem a situações extremas.

Ainda outros, que tiveram a sorte de nascer no seio de famílias materialmente favorecidas ou até em lares remediados, vivendo uma vida acarinhada e encaminhada, são tantas vezes atingidos por um destino que pelos mais variados motivos, muitas vezes sem culpa própria, de tudo os despojou e os arrasta para caminhos de marginalização, como o alcoolismo e a toxicodependência.

Também o fenómeno do envelhecimento assusta muitas das pessoas por ele atingidas e tem, naturalmente, aspectos negativos que atingem o próprio inconsciente. Tantas vezes os mais velhos sentem-se preteridos, perdem o sentido da vida, chegando à perda da sua própria dignidade.

Talvez atinjam este estado por verem o desabar de uma vida em que tinham sido criados ou em que tinham aplicado as suas capacidades trabalhando com o maior denodo.

Quantos, ainda, podem ter sido vítimas de uma civilização que tinham ajudado a construir e que uma vez destruída ou alterada, os seus destroços os deixaram perdidos e marginalizados.

Se destes todos, alguns tiveram forças para reagir, recomeçando a sua vida a trabalhar, os mais idosos, os mais fracos, os com menos capacidades, os mais desanimados, refugiaram-se na solidão, uma das expressões de pobreza do nosso tempo, naturalmente existente no nosso país, e que se encontra associada ao isolamento e abandono, sobretudo de idosos, de crianças, de doentes crónicos, alguns dos novos rostos da carência que conduzem à solidão.

Pessoas há, adultos, jovens ou crianças, que mesmo no seio de uma família, mesmo no meio de uma multidão, se podem sentir isolados, pela inexistência de uma verdadeira comunicação.

A confusão, o sentido do vazio da nossa época, manifesta-se em muitas pessoas exilando-as de tudo e de todos, levando-as mesmo ao suicídio, como fase mais agravada do desespero, um dos problemas de pobreza moderna que enxameia a nossa sociedade.

Veja-se o que se passa em estabelecimentos prisionais e em actos desesperados de toxicodependentes e outros, para quem a vida já nada tem para lhes dar.

Neste III Milénio da Era Cristã, que o Homem se liberte das grilhetas destas novas formas de escravatura, tão triste e vincadamente implantadas na nossa desumanizada sociedade.

Certamente, todos nós teremos uma palavra a dizer e um coração a actuar.

Que Deus nos ajude!