(por Abílio Pina Ribeiro, Claretiano – Revista Biblica, maio-junho 2014)

“Um povo que não cuida dos seus jovens e dos seus velhos não tem futuro” – adverte o Papa Francisco

 

Na Igreja, os idosos enchem as nossas Igrejas e fazem muitas coisas que os sacerdotes não podem fazer. Quando se afirma com mordacidade que as igrejas estão povoadas de mulheres e de velhos, pergunto que seria se eles deixassem de participar nas celebrações eucarísticas.

O mesmo se diga do clero, com elevada média de idade. E das fraternidades religiosas, com muitas vidas gastas na evangelização.

O mundo da moda e da publicidade exalta um cânone de beleza juvenil que vai modelando a opinião pública, enquanto a velhice é, com frequência, remetida para um canto, isolada e silenciada. “Um velho só existe pelo que possui – escreveu o romancista Mauriac; se não possuir nada, arruma-se na cave ou no sótão. Na idade avançada só se pode escolher entre o asilo e a fortuna”.

Hoje tende-se a privilegiar de mais e a canonizar a actividade. Mas um Religioso reformado continua no ativo. Não só pela oração e o sacrifício, mas também por meio de acções que antes não tinha ocasião de realizar – junto dos doentes, dos presos, dos imigrantes… Conheço uma Religiosa de 90 anos que leva diariamente a Comunhão a vários acamados.

Estar reformado não equivale a ficar quedo, estéril, arrastando-se pelo sofá com nostalgia do passado.

O idoso pode exercer o ministério da velhice: a sua paternidade ou maternidade espiritual, a sua experiência, o seu estímulo para que os projectos dos mais novos vão por diante. Das suas ideias, ninguém se reforma. Pode uma pessoa reformar-se de alguns trabalhos, mas não se reforma da missão. E, desde logo, não há reforma “teologal”, a nível de fé, esperança e caridade. Quando se fala de envelhecimento, costuma pensar-se no corpo. “A arte de envelhecer é a arte de conservar alguma esperança”. As pessoas envelhecem na razão direta do seu desencanto. Envelhecem quando deixam de acreditar na vida, não aspirando senão a sopas e descanso, perdendo a sua capacidade de entrega.

 

Carismas da idade avançada

As sociedades – entre as quais, a Vida Consagrada – têm muito a ganhar se souberem aproveitar os carismas da velhice, de modo a encararem a vida sob uma ótica mais humana e mais cristã. Salientemos cinco:

  • 1º. A gratuidade que inspira a simplicidade e a contemplação, contrariando a sociedade frenética e sem minutos para nada.
  • 2º. A memória, que impede se risquem do mapa tantas coisas belas e se repitam os erros do passado.
  • 3º. Um saber de experiência feito, como diria Camões.
  • 4º. A interdependência, ou a consciência de que ninguém pode viver sozinho. O protesto contra uma sociedade que deixa os mais fracos abandonados a si próprios. Uma Religiosa que no passado dia 2 de fevereiro fez 100 anos, declarou não querer prendas, só amizade. Todos os dias lê o jornal, com a lupa, “para se manter informada e ver como os partidos ralham uns com os outros”.
  • 5º. Uma visão mais completa da vida. Marcados pela agitação, o stress e a neurose, tendemos a esquecer as interrogações fundamentais sobre a nossa vocação ou o nosso destino eterno. Precisamos do carisma do Natal, o de Simeão e Ana…