O pastor da Comunidade Evangélica Luterana de Roma, na Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos, fala dos mal-entendidos históricos, mas também dos avanços ecumênicos significativos com a Igreja Católica

 

19 janeiro 2016By Federico Cenci – A poucos passos da Via Veneto, uma vez centro da vida social capitolina e hoje local de escritórios e bancos, surge a Igreja da Comunidade Evangélica Luterana de Roma. Austera fuori, porém, é hospitaleira e agradável no seu interior, com belos mosaicos e ricas decorações.

“Estamos aqui há cerca de um século, quando a comunidade construiu o edifício em um terreno comprado com ajuda econômica do rei da Prússia, onde antes estava a Vila Ludovisi”, explicou a ZENIT o pastor Jens-Martins Kruse que fala também que a comunidade remonta a 1817 e que nos primeiros cem anos o culto evangélico acontecia dentro dos muros da Embaixada da Prússia junto à Santa Sé, hoje sede dos Museus capitolinos, no Campidoglio.

Por isso, acrescenta o pastor, “o 2017 será para nós motivo de dupla comemoração: além dos 500 anos da reforma luterana, festejaremos também os 200 anos da nossa presença em Roma”. Uma presença que se consolidou ao longo dos anos.

Parece muito distante o tempo em que o culto protestante era proibido em Roma. Hoje o rev. Kruse, líder de uma comunidade com cerca de 500 membros, que define de “muito viva”, fala que “se sente em casa”. Ele acredita que a presença de outras comunidade cristã faça de Roma a “capital de todas as Igreja do mundo”, o que o torna “orgulhoso de levar a voz luterana neste concerto do ecumenismo”.

Concerto que tocou uma nota particularmente feliz em novembro passado, com a visita do Papa Francisco a esta igreja. “Foi – lembra o rev. Kruse – um encontro lindo, porque toda a comunidade pôde perceber que o Papa Francisco interpreta o espírito do Evangelho. Foi um encontro entre amigos, em nome da confiança e do amor: rezamos juntos e pudemos ouvir uma extraordinária homilia sobre uma passagem do Evangelho”.

Em 2010, o pastor também saudou Bento XVI (“com quem falou em alemão de uma forma muito fraterna”, afirma). O rev. Kruse destaca, portanto, “a importância ecumênica” da sua comunidade, logo depois da visita dos Papas. Mas a recente visita de Francisco tem um valor extremamente histórico, “porque, pela primeira vez, um papa ficou disponível para responder as perguntas das pessoas presentes”.

Foi assim que uma mulher luterana, casada com um católico, levantou a questão da intercomunhão entre protestantes e católicos, ou seja, a possibilidade de receber a Eucaristia nas celebrações comuns. “É um objetivo realista especialmente com este Papa – esclarece o rev. Kruse – , porque ele compreendeu que existe o grave problema daqueles casais mistos que não podem participar juntos da Ceia do Senhor”.

De acordo com o pastor Kruse, “na concepção da Eucaristia não há grande diferença entre católicos, luteranos e anglicanos: todos pensamos que o pão e o vinho sejam o corpo e o sangue de Jesus Cristo”. Respondendo à pergunta daquela senhora, o Pontífice pediu para referir-se ao Batismo e para “tirar as consequências” desde sacramento comum.

O rev. Kruse interpreta estas palavras como um convite a todos os fiéis “para assumir as próprias responsabilidades diante de Deus, para decidir segundo a sua consciência, se é possível a participação juntos, entre católicos e protestantes, na Eucaristia”. Porque, acrescenta o rev. Kruse, “não existem razões teológicas para que isso não ocorra”.

Do que poderia acontecer no futuro ao que já acontece hoje. São tantas as comunidades de católicos e protestantes que rezam juntas, especialmente nesta semana dedicada tradicionalmente à oração pela unidade dos cristãos. Uma das intenções comuns é pelos cristãos perseguidos. “O testemunho destes mártires nos ensina a unidade – afirma o rev. Kruse – , porque eles são assassinados não porque pertençam à Igreja católica ou protestante, mas porque são cristãos”.

Sua coragem para testemunhar a fé, mesmo diante de ameaças de morte é o outro ensinamento chega até nós daquelas terras de perseguição. “Em toda a Europa se difunde um desinteresse com relação à Igreja”, reconhece o rev. Kruse, que convida, portanto, os cristãos “a anunciarem o Evangelho sem medo e a vive-lo na vida cotidiana. Como diz sempre o Papa Francisco, devemos sair das nossas igrejas para dar testemunho à sociedade”.

De acordo com o pastor, uma oportunidade neste sentido serão as celebrações para os 500 anos da reforma luterana, em 2017. Aniversário que suscita, porém, também a recordação de um cisma salpicado de episódios violentos e de rancores não ainda totalmente esquecidos. O percurso da reconciliação se constrói passo a passo.

Um importante foi feito no verão passado pela Evangelischen Kirche in Deutschland (EKD), condenando publicamente a demolição de imagens religiosas que aconteceram há 500 anos, como resultado da turbulência sobre a iconoclastia protestante. “Eu acredito que todas as Igrejas, como primeiro passo rumo à unidade, precisam reconhecer os seus erros históricos e pedir o perdão – diz o rev. Kruse -. Para nós é importante admitir que prejudicamos os nossos irmãos católicos”.

De acordo com o pastor luterano, o exemplo foi dado primeiro, em 1972, pelo card. Johannes Willebrands, presidente emérito do Pontifício Conselho para a Promoção da Unidade dos Cristãos, “quando pediu perdão às igrejas luteranas”. Neste sentido seria possível inserir também o que foi afirmado pelo pregador da Casa pontifícia, pe. Raniero Cantalamessa, em uma sua recente pregação de Advento. Ele disse que muitas vezes nós, entendido como católicos, “contribuímos para fazer Maria inaceitável para os irmãos protestantes, honrando-a de forma, às vezes, exagerada e desconsiderada”.

O rev. Kruse observa, de fato, que “na Igreja católica romana há, às vezes, uma forma que para nós é um pouco exagerada de venerá-la, porque parece que maria seja considerada como mais importante do que Jesus”. E acrescenta: “Respeitamos esta tradição, mas como luteranos recordamos sempre que rezamos a Deus e que não temos necessidades de intermediários na nossa relação com Ele”. Maria permanece, portanto, importante para os protestantes, “em quanto mãe de Jesus Cristo”, disse o Rev. Kruse, que recorda como Lutero honrasse Maria cantando diariamente o Magnificat.

E é justamente sobre a figura do artífice da Reforma que nós colocamos o nosso olhar, no final da entrevista. O rev. Kruse, faltando um ano para o 500º aniversário daquele evento, admite que para muitos dos seus correligionários, será uma ocasião “para exaltar Lutero e a sua Reforma”. Uma abordagem que considera errado. O convite do pastor é, de fato, o de desfrutar esta celebração, além de “dar mais um passo rumo ao ecumenismo”, também para “refletir serenamente sobre a figura de Lutero, reconhecendo na sua mensagem o que é hoje importante para a nossa fé e o que não é”. Afinal, conclui, “a Igreja Luterana não nasce com Lutero, mas com Jesus Cristo no dia de Pentecostes”.