A exortação pós-sinodal “A alegria do Amor” esteve no centro das Jornadas Nacionais da Pastoral Familiar, que nos dias 22 e 23 de outubro, partiu deste documento papal para abordar os desafios que se colocam à Pastoral Familiar numa sociedade em constante transformação. 

 

Um dos temas abordados constitui um verdadeiro desafio à Pastoral Familiar e às comunidades cristãs: a preparação do matrimónio e o acompanhamento de novos casais. A temática é abordada no capítulo VI da “A Alegria do Amor” e foi trazida a estas Jornadas por Carlos Carneiro, sacerdote jesuíta.  Como é que a Igreja ajuda aqueles, que na caminhada de discernimento, decidem pelo caminho do matrimónio?  Como se preparam os jovens casais para abraçarem esta vida de imensas responsabilidades mas ao memo tempo imensa beleza?

Para Carlos Carneiro antes da preparação dos jovens para o casamento há que fazer uma reflexão sobre “o que é que a Igreja entende por Matrimónio, o que entende por Igreja, o que entende por Vocação e qual o papel do amor que consolida e dá sentido a todas estas realidades”. O Papa Francisco deixa duas propostas em dois dos capítulos mais desafiantes da “A alegria do Amor”: no Capítulo III ( O olhar  fixo em Jesus: A Vocação da Família) e no Capítulo  IV (O amor no matrimónio).

Carlos Carneiro defende que “talvez seja necessário reinventar a forma como todos nós acompanhamos, integramos e vivemos o casamento daqueles que, através de nós se preparam para viver a conjugalidade em Deus”.  E o primeiro módulo será conhecer a Igreja. A preparação para o matrimónio é mais do que a preparação do dia do matrimónio, é a preparação para a vida de casados. “Quanto tempo deverá durar esta preparação?”, pergunta Carlos Carneiro. Poderá ser um fim de semana ou um ano, responde, para logo de seguida dar o exemplo do Crisma e do Batismo de adultos  em que as pessoas fazem reflexões ao longo de mais de um ano. Carlos Carneiro deixa a pergunta “Será que basta um fim de semana ou dois de preparação para o casamento? “

Hoje, em Portugal, a maioria das pessoas que procura a Igreja para casar, são católicos não praticantes que vivem afastados da Igreja. “Há que reintegrar estas pessoas  na vida da Igreja”, defende Carlos Carneiro.  Se as pessoas não forem reintegradas, tendo uma função na comunidade (estar no grupo coral, ser acolito, dar catequese, fazer voluntariado, etc.) serão sempre espetadores e não membros participantes.

“Depois vem um segundo módulo”, defende Carlos Carneiro, que “consiste na preparação mais imediata e mais próxima para a vida de casados”.  É um módulo onde se  explica o que é o Sacramento do Matrimónio para que as pessoas tenham mais consciência das implicações desta decisão na vida de cada um.  Aqui é necessário uma “conversão”, defende o sacerdote jesuíta. É essencial “o testemunho de quem está casado”.  O documento Papal defende que as famílias deixam apenas de ser recetoras e passam a ser transmissoras, passam a ser agentes, passam a ser  apostolas. “É a conversão da passagem de discípulas a apostolas”.

A Igreja tem de dizer às pessoas que casar é difícil, dá trabalho, é um processo dinâmico. Mas é isto que “é a conjugalidade, a sacramentalidade”, afirma Carlos Carneiro. 

Este sacerdote reconhece que muitas vezes a Igreja “abandona as pessoas no dia do casamento”. “Onde estão e como estão as pessoas a quem fizemos o matrimónio?”, pergunta. Este é um “divórcio” que não é compreensível, diz o sacerdote.   

E o negócio do casamento? Que posição tem a Igreja?” Há pessoas que não se casam pela Igreja porque se criou o mito social que o casamento custa uma fortuna”.

Para o sacerdote jesuíta a Igreja tem de estar presente, no antes, no durante e no depois para ajudar as pessoas reais. “Temos de trabalhar para que aqueles que querem casar pela Igreja vivam este compromisso como definitivo”.  O amor não pode ser reduzido a um sentimento. “O Amor é muito mais que um sentimento. É uma opção. É uma opção que eu faço por ti”, diz Carlos Carneiro.

Também ao nível da pastoral das vocações a Igreja poderia falar mais do matrimónio como vocação, defende o sacerdote. Não há apenas a vocação para a vida religiosa. Há vocações para cada batizado e uma delas é o matrimónio.  É um processo de discernimento que a Igreja devia oferecer.

O casamento está em transformação, a Igreja está em transformação. As famílias vivem tempos de desestruturação e Carlos Carneiro continua a colocar questões sobre as famílias recasadas, sobre as famílias que vivem juntas antes de casar. “Que igreja é esta?  Estão fora? Estão na periferia? Como é que podem estar dentro? Como é que se estrutura esta Igreja?”

A missão da Igreja, diz Carlos Carneiro, “é ajudar todos os casais a serem Igreja na sua conjugalidade”.  O “SIM” do dia do casamento não significa mais do que “Sim, eu creio. Eu creio no casamento, eu creio na família, eu creio que o amor pode viver assim na conjugalidade”.  Uma missão que é feita por cada casal mas que se torna mais fácil com a ajuda da Igreja.

Texto: IM/Jornal da Família, novembro 2016