Em seu primeiro discurso oficial, no Palácio Presidencial de Seul, o Papa recordou que “Um povo grande e sábio não se limita a amar as suas tradições ancestrais, mas valoriza também os seus jovens”

Por Federico Cenci

 

CIDADE DO VATICANO, 14 de Agosto de 2014 (Zenit.org) – Jovem e antepassados. Em uma linha que corre ao longo do tempo acontece a visita apostólica do Papa Francisco na Coreia. Durante o seu primeiro discurso oficial – que começou às 4:45 da manhã, horário brasileiro, 16:45 no horário local – no Palácio Presidencial de Seul, o Santo Padre explicou que a sua presença no País asiático ” tem lugar por ocasião da VI Jornada Asiática da Juventude, que reúne jovens católicos” de todo o continente “para uma jubilosa celebração da fé comum”. E, no entanto, disse o Papa, durante a visita ele vai proclamar beatos “alguns coreanos que morreram como mártires da fé cristã: Paul Yunji-chung e os seus 123 companheiros”.

Duas celebrações que – para usar as mesmas palavras usadas pelo Papa na manhã de hoje – “se completam mutuamente”. Para os católicos, de fato, é bem viva a importância que, em primeiro lugar, se deve à honra dos antepassados que sofreram o martírio por causa da fé, “porque – disse Francisco – se prontificaram a dar a vida pela verdade em que acreditaram e de acordo com a qual procuraram viver “. Eles são, para nós hoje, um modelo de vida plenamente vivida “por Deus e para o bem dos demais”.

No entanto, “um povo grande e sábio – disse o Papa – não se limita a amar suas antigas tradições, mas valoriza também os jovens”, a quem transmite “a herança do passado que aplica aos desafios do presente”. Um evento como a Jornada da Juventude é uma “oportunidade valiosa” para ouvir “as esperanças e as preocupações” dos jovens. E, dado o contexto histórico atual – acrescentou o bispo de Roma – é “muito importante” refletir sobre a necessidade de “transmitir aos nossos jovens o dom da paz.”

Uma chamada de paz que “tem um significado todo especial aqui na Coreia”, terra que “sofreu por muito tempo por causa da falta de paz”. O Papa Francisco aproveitou assim a ocasião para manifestar o apreço “pelos esforços em favor da reconciliação e da estabilidade na península coreana”; esforços considerados “o único caminho seguro para uma paz duradoura”. A qual teria implicações que transcenderiam as fronteiras Coreanas, uma vez que iria influenciar toda a área do Sudeste da Ásia e – disse o Papa – “todo o mundo cansado da guerra.”

O coração do Papa está, neste momento, por causa dos muitos e graves conflitos em várias partes do mundo, “carregado e angustiado”, como ele mesmo escreveu na carta enviada ao secretário geral da ONU, Ban Ki-moon. É por isso que insiste no tema da paz, que ele chama de “um desafio para cada um de nós e, especialmente, para aqueles de vocês que têm a missão de ir atrás do bem comum da família humana através do paciente trabalho da diplomacia”. Só através de seus esforços é possível “derrubar as paredes da desconfiança e do ódio” e promover “uma cultura da reconciliação e da solidariedade”. Esforços que devem ser baseados em “escuta atenta e discreta” mais que em “críticas inúteis e demonstrações de força”.

É significativo que, algumas horas antes destas palavras, juntamente com a chegada do Papa a Seul, a Coreia do Norte lançou alguns mísseis que caíram no mar. Gestos que não confortam, mas como o Papa afirmou citando Isaías – “a paz não é simplesmente ausência de guerra, mas obra da justiça” (cf. Isaías 32, 17). E “a justiça, como virtude, apela para a tenacidade da paciência”. Justiça que se alimenta da capacidade de exercitar o “perdão”, e também a “tolerância e a cooperação”. É só assim que podem construir-se “os fundamentos do respeito mútuo, da compreensão e da reconciliação”.

O Papa dirigiu-se, portanto, às autoridades coreanas presentes na sala: “Queridos amigos, os vossos esforços como líderes políticos e civis visam, em última análise, construir um mundo melhor, mais pacífico, mais justo e próspero para os nossos filhos”. A Coreia, no centro do discurso do Santo Padre: “A Coreia, como a maioria das nações desenvolvidas, enfrenta relevantes problemáticas sociais, divisões políticas, desigualdades económicas e preocupações na gestão responsável do meio ambiente”. A admoestação do Papa é que seja ouvida “a voz de todos os membros da sociedade”. Igualmente importante, também, é dar “especial atenção aos pobres, àqueles que são vulneráveis e a quantos não têm voz, não somente indo ao encontro das suas necessidades imediatas mas também promovendo-os no seu crescimento humano e espiritual”. A esperança do Papa é de que “a democracia coreana se há de fortalecer cada vez mais e que esta nação demonstrará primar também na «globalização da solidariedade» que é hoje particularmente necessária “

Finalmente, antes de cumprimentar a presidente da Coreia do Sul, Park Geun-hye, o Santo Padre rebobinou os fios do passado, traçando uma linha de continuidade com a visita do Papa João Paulo II na Coreia, em outubro de 1989, “O futuro da Coreia – afirmou o Papa Wojtyla – vai depender da presença em seu povo de muitos homens e mulheres sábios, virtuosos e profundamente espirituais”. Francisco quis fazer eco destas palavras, garantindo aos coreanos o “constante desejo da comunidade católica coreana de participar plenamente na vida da nação”.

Voltando, portanto, às duas questões mencionadas no início do seu discurso – jovens e anciãos – o Bispo de Roma disse que “A Igreja deseja contribuir para a educação dos jovens e para o crescimento de um espírito de solidariedade para com os pobres e desfavorecidos, contribuir para a formação de jovens gerações de cidadãos prontos a oferecer a sabedoria e clarividência herdadas dos seus antepassados e nascidas da sua fé a fim de se enfrentarem as grandes questões políticas e sociais da nação”. No final, o Papa invocou a bênção para “o querido povo coreano”, e para “os idosos e os jovens que, preservando a memória e inspirando coragem, são o nosso maior tesouro e a nossa esperança para o futuro”.