Integrar os dois eventos pode ser um exemplo de civilização e aceitação social das pessoas com deficiência.

 

Roma, 21 de Maio de 2015 (ZENIT.org)

A revista Sport Ethics and Phylosophy, da Sociedade Britânica de Filosofia do Desporto, acaba de publicar um estimulante artigo sobre os direitos das pessoas com deficiência. O título é significativo: “As Paraolimpíadas devem ser integradas às Olimpíadas”. Tendo em vista os próximos Jogos Olímpicos e Paraolímpicos no Rio de Janeiro em 2016, o artigo assume uma importância muito concreta.

O autor, o pediatra Carlo Bellieni, vai ao coração da questão: “Os Jogos Paraolímpicos, em sua forma atual, poderiam paradoxalmente gerar preconceito social contra as pessoas com deficiência”. Estranho, porque os Jogos Paraolímpicos são um passo importante, como reconhece o próprio Bellieni, para a visibilidade e aceitação das pessoas com deficiência. No entanto, “os Jogos Paraolímpicos e os Jogos Olímpicos de hoje são dois eventos separados” e esta separação “parece ressaltar uma distância entre pessoas com e sem deficiências”.

O risco, de fato, existe. O autor explica que o esporte praticado por mulheres nos anos trinta foi integrado aos grandes eventos esportivos mundiais para mostrar a integração e a igualdade: as competições permanecem separadas para homens e mulheres por razões óbvias de diferentes massas musculares, mas os Jogos Olímpicos modernos não têm uma “edição masculina” e uma “edição feminina”. São um só evento. É exatamente o que Bellieni propõe para integrar também os portadores de deficiências: Jogos Olímpicos únicos, sem uma edição separada, em nome da igualdade de oportunidades e da cultura do acesso e da integração. Até o nome “Paraolímpicos” precisa ser revisto, explica ele, porque o sufixo “para-“, na sua etimologia, indica algo de colateral, secundário.

Além disso, as disputas envolvendo as pessoas com deficiências são exemplos de alto espírito competitivo e têm grande impacto sobre as pessoas. Os Jogos Paraolímpicos de Londres, Sochi e Pequim tiveram elevada participação do público.

A questão se aprofunda também da perspectiva filosófica. Bellieni explica duas coisas importantes: primeiro, que o esporte das pessoas com deficiências não é exibição nem uma forma de fisioterapia mais elaborada, e sim esporte verdadeiro, com busca de excelência e de vitória. Isto leva a uma reanálise, aliás, do que realmente é o esporte.

Pode-se também falar de saúde das pessoas com deficiência, porque a saúde não é um estado utópico de perfeição, como se desprenderia da definição insuficiente dada em 1946 pela Organização Mundial da Saúde, mas sim o estado de satisfação que deriva das próprias atividades. E as pessoas com deficiências podem sem dúvida ter plena satisfação com o seu trabalho se dispuserem das condições adequadas. Este conceito já tinha sido ilustrado por Bellieni no livro ABC da Bioética (2014) e em vários artigos publicados por revistas internacionais.

O artigo termina dizendo: “Os Jogos Paraolímpicos ajudam a identificar e superar três erros morais: 1) a discriminação, entendida como exclusão social; 2) a ideia de que só pessoas com talentos especiais podem ser verdadeiros atletas; 3) a miopia moral de quem limita as pessoas com deficiência à resignação diante das recompensas limitadas que elas podem obter sozinhas, isentando os países das suas responsabilidades sociais”.

“As pessoas com deficiências merecem um cuidado especial porque têm necessidades especiais, mas também merecem a normalidade, incluindo o acesso a escolas normais, hospitais normais, jogos normais, com especificidades óbvias. Enfatizar a dupla necessidade de cuidados especiais e acesso normal é o legado dos Jogos Paraolímpicos”.