RESCALDO DE UM SÍNODO “MUITO POSITIVO”

(entrevista ao padre espanhol Juan de Dios Larrú, por Ricardo Perna, publicada em Família Cristã, novembro 2014)

 

 

Juan de Dios Larrú fala baixo, mas de forma convicta. Não acredita que o sínodo tenha trazido novidades, mas vai avisando que é preciso falar de forma diferente e compreender a realidade cultural em que a família se insere. Nem todas as realidades são iguais, e se há coisas que já se fazem em alguns sítios, noutros são áreas bastante problemáticas, nas quais o sínodo pode ajudar.

 

Que balanço faz do sínodo da família?

O tema que foi objeto de reflexão, que foram os desafios para a família, põe no centro das preocupações da Igreja a família e a pastoral familiar, e neste sentido faço uma avaliação muito positiva. Foi uma atitude muito acertada do Papa Francisco querer reflectir sobre a família no mundo contemporâneo, porque não é uma preocupação apenas da Igreja, mas do papel decisivo que a família pode desempenhar na Nova Evangelização.

 

Preocupa-o que a exposição pública de tanta opinião diferente dentro da Igreja possa degenerar em cisma?

Bom, o que vimos é que houve um grande debate sobre os temas do matrimónio e da família dentro da Igreja, porque reflecte o que é o debate cultural e social em torno do matrimónio e da família. É evidente que vimos posições diferentes, que podem degenerar num risco de divisão interna, isso é claro, mas em todo o caso foi o Papa quem disse no início que todos deveriam expressar o seu ponto de vista. A comunhão da Igreja é forte e deverão chegar a pontos de vista comuns. Todos podem ter a sua opinião, mas a Igreja deve focar bem no centro da questão, e perceber que o sínodo aponta para o futuro. É importante que a Igreja se antecipe ao futuro e perceba o trabalho que deve fazer com a família nos próximos anos. Em todo o caso, um sínodo é um órgão consultivo, não é um parlamento, onde as pessoas votam e o que sai é lei. O Papa usa este órgão de consulta, escuta-o e depois através do seu Magistério mostra o caminho. O sínodo não é uma assembleia de decisão, é um órgão de consulta onde se fala e se opina, e no final o Papa dirá.

 

Quais os temas debatidos que foram mais significativos?

Para mim, o enfoque mais importante é o enfoque cultural. Creio que a Igreja deve enfrentar este desafio cultural. É preciso ler bem a situação em que estamos, para que o Evangelho do Matrimónio e da Família transforme a cultura que temos à nossa frente. Neste sentido, não há que perder-se em questões acessórias ou particulares, porque não é uma questão de pormenor, mas de enfoque global.

 

A necessidade de mudar a linguagem da Igreja foi algo em que todos pareceram de acordo. Será suficiente para produzir resultados?

Não creio. Não é uma questão de linguagem. Ao longo dos tempos, o Evangelho foi explicado a diferentes pessoas, de diferentes culturas. A Igreja teve sempre de fazer este esforço de olhar para o interlocutor que tem à frente e falar numa linguagem que ele compreenda. Este esforço é permanente e contínuo, não é agora que vai surgir. Mas parece-me que não é uma questão de linguagem, é uma questão de entender que a mensagem do Evangelho não muda, porque a morte e Ressurreição de Jesus foi um evento que aconteceu no tempo e que se passa pelo testemunho, e portanto não pode mudar, porque o evento já aconteceu. Por isso, o Evangelho é único e o que se transmite é sempre isto.

 

Alguns bispos pediram que as conferências episcopais pudessem ter mais autonomia, outros falaram da Lei da Gradualidade, que permitiria também uma aproximação mais individual a cada caso. Concorda com esta visão pastoral?

Creio que a pastoral familiar é sempre personalizada. Mas não é uma questão de estratégia ou de estabelecer práticas particulares. As conferências episcopais ou as dioceses poderem ter autonomia pode ajudar, mas é relativo. Em todo o caso, creio que teremos de sair do tratamento casuístico, pois não é o método adequado para esta pastoral. Não podemos tratar cada família como se fosse um caso diferente, até porque haveria tantos casos como famílias no mundo, e seria impraticável. Há situações que requerem uma atenção especial da Igreja, como as situações irregulares, e que aí se estabeleça um método de acompanhamento maior destas pessoas, parece-me bem. Mas isto é o que a Igreja já faz há muito tempo…

 

Será possível que a doutrina permita que, em alguns casos de abandono ou em que as pessoas são obrigadas a perder o vínculo físico e depois retomam outro vínculo, estas pessoas recasadas possam aceder de novo aos sacramentos?

É um modo de colocar as coisas com o qual eu não concordo. Não podemos deixar a doutrina intacta, mas depois ir ver como a aplicamos em casos específicos. O que está em jogo é a vida das pessoas e da Igreja. O Evangelho não é um método aplicativo. A Igreja viveu assim porque lhe foi assim revelado por Jesus Cristo. Esta afirmação não tem exceções, e isto significa que, no modo de viver e de ajudar as pessoas que têm dificuldades com estas questões, não posso dizer às pessoas “Isto sim, mas isto não”, ou “Isto sim, mas depende e vamos ver de que maneira”. Todos entendem que isto leva exigência à sua vida e não as exclui de nada, é um dom que recebem e que devem viver.

 

Uma das estratégias poderia ser uma preparação do matrimónio mais exigente?

É necessário evangelizar em profundidade. Temos de regenerar o sujeito cristão. A preparação remota, próxima e imediata, o casamento, a vida depois do casamento, tudo isto tem de ser vivido de forma mais profunda.

 

E isto consegue-se tendo os sacerdotes a dizer “não” a casais que lhe surjam mal preparados?

Um sacerdote nessa situação tem uma oportunidade de evangelização, de os fazer crescer, melhorar e preparar melhor. Um pai tem de saber dizer ao seu filho, para que ele aprenda, para o bem dele, que não está bem. Também um sacerdote o deve fazer…

 

E está a Igreja preparada para uma quebra de casamentos que advirá dessa exigência?

Por trás de um não vem um grande sim. Um pai que diz não ao filho fá-lo com dor no coração, mas é porque sabe que aquilo é o melhor para o seu filho. Neste sentido, a mensagem da Igreja é positiva, e não há que ter medo de exigir ao homem, porque é uma exigência que vem do amor, e é extremamente positiva. Quando quero amar bem e de verdade, entendo que neste amor há exigências, que não vale tudo na verdade do amor.

 

E acredita que se houvesse maior exigência e os processos de nulidade fossem mais eficientes, estas situações de divorciados e recasados iriam desaparecer?

Acho que o mais importante é perceber que é preciso evangelizar com profundidade o Evangelho da Família. Desta perspectiva, muitas situações que hoje se consideram irregulares poderiam ser resolvidas. É muito mais importante que as pessoas que vivem as suas vidas familiares em plenitude possam auxiliar as famílias em dificuldade, pois um enfermeiro doente o que precisa é de um enfermeiro com saúde para o ajudar, mas se não tiver um enfermeiro bom, ficamos todos doentes e isto vai de mal a pior. O trabalho da Igreja é formar famílias santas, que com o seu testemunho possam ajudar as que estão em dificuldades ou feridas, e vamos ajudá-las. Não as estamos a ajudar deixando-nos contagiar com a sua doença.

 

Quanto ao planeamento familiar, num tempo em que os métodos naturais são tão eficientes como os artificiais, faz sentido que sejam proibidos, desde que haja mentalidade aberta à vida no casal? Não faria mais sentido falar sim em abertura à vida?

A questão da Humanae Vitae não gira à volta dos métodos naturais. A questão essencial é que é diferente um ato de amor e um ato contraceptivo. Não é possível um ato de amor conjugal com método contraceptivo. São dois atos diferentes, como é distinto roubar e ajudar o próximo.

 

Mas os métodos naturais podem usar-se com mentalidade contraceptiva…

Sim, podem, mas a questão não é a eficácia, mas o ato de amor verdadeiro. E como ato de amor verdadeiro deve ser vivido bem e definir o que é um ato conjugal.

 

E isso não é possível com um preservativo ou uma pílula?

Não, não é possível. O ato de amor tem dois significados, unitivo e procriativo. A inseparabilidade dos dois significados, é o que distingue o ato de amor verdadeiro. O ato contraceptivo separa os dois significados, e separa porque procuro unir-me a outra pessoa e evitar os filhos.

 

Mas se eu tiver relações com a minha esposa naquele momento porque sei que ela está infértil, também estou a ter o mesmo pensamento…

Entendo que não é fácil perceber que quando um matrimónio considera que não é bom que venha um filho, recorre ao regulamento da fertilidade para regular as suas relações, pode dizer-se que querem o mesmo. Mas não é o mesmo realizar um ato conjugal de abertura à vida, considerando que não vem um filho.

 

Mas o ato não é aberto à vida porque sei que ela está infértil…

Nunca o sabes verdadeiramente. A questão não é a eficácia. Se busco a eficácia, então estou a ter uma mentalidade contraceptiva, mesmo com os métodos naturais. Mas se estou aberto à vida, se considero que, por um motivo grave, agora não é bom que venha outro filho, recorro à regulação da maternidade para evitar isso, mas sempre sabendo que pode vir, porque o filho não o peço, recebo-o, e com a contraceção encarrego-me que não venha, porque ponho todos os meios à disposição para que não venha.

 

O que devem as pessoas fazer com este Relatio Synodi?

A Igreja vai continuar a trabalhar e a aprofundar quais são os desafios que a Igreja tem de enfrentar na pastoral familiar contemporânea, para perceber quais são as chaves de tudo.

 

E quem deve fazer esse aprofundamento?

Os bispos com o Papa, mas também os sacerdotes e as famílias. É um tema que pertence a toda a Igreja, cada um no seu nível. A Igreja quer escutar as famílias, e as famílias também precisam de reflectir estes temas e dar as suas sugestões, não tenho dúvidas.