O Domingo, prioridade metodológica da pastoral em Portugal (I)

 (Artigo de Arlindo de Magalhães, publicado em Voz Portucalense de 25 de fevereiro 2015)

 

Domingo, dia da Eucaristia, dia da Igreja, dia do Senhor, etc, de muitas coisas, obrigatório ir à missa…

Mas porquê? Porquê ir à missa ao domingo? Porque não ao sábado? Melhor seria à sexta: ficava o fim-de-semana todo livre!

Estou convencido que a maior parte dos portugueses não sabe porque é que se deve ir à missa ao domingo. Faça-se um inquérito.

E não sabe porque ninguém ensina: “Ao romper do primeiro dia da semana, … foram visitar o sepulcro… e o anjo disse:… Ele ressuscitou!” (Mt 28, 1-5).

Havia muitas missas ao domingo; meia dúzia de pessoas em cada uma. Uma vespertina, no sábado à tarde, outra depois da bola, na tarde de domingo, e três pela manhã.

Que vou eu fazer com isto?

O Concílio tinha deixado claro que “O domingo é o principal dia de festa a propor e inculcar no espírito dos fiéis” (SC, 106). Mas dissera também, embora só para as Igrejas orientais católicas: “para que mais facilmente – os fiéis – possam cumprir a obrigação – de, nos domingos participarem na divina liturgia -, estabelece-se que o tempo útil para o cumprimento deste preceito decorre a partir da tarde da vigília até ao fim do domingo” (OE, 15).

Naquela altura nascia na sociedade europeia o fim-de-semana: proletarizado o automóvel, melhoradas as estradas, o baixo custo da gasolina, multiplicadas as visitas aos familiares que não tinham descido às cidades, aumentado o tempo livre, etc.

E quanto ao domingo até aí sagrado – na Inglaterra nem futebol havia ao domingo – começaram aaaa… aparecer alertas.

Recordo bem dois títulos, um deles nesta Voz Portucalense: em 1980. “A missa de Sábado é um problema do Domingo” e, em 1989, a “Missa dominical vespertina estará a matar o Domingo?

 

Que desafios:

  1. I.                   

No Concílio, tinham-se ouvido algumas vozes, tímidas, a sugerir a antecipação para o Sábado da celebração dominical da Eucaristia. E logo, terminado o Vaticano II, veio a permissão, pedida por vários episcopados europeus e africanos, mas sempre com uma condição: que fique gravado na alma dos fiéis que o dia consagrado ao Senhor é o domingo; os bispos franceses diriam mesmo que, a ser assim, até se conseguia um Dia do Senhor ainda mais alargado! As razões invocadas eram sempre as mesmas: a incontornável mobilidade moderna nos fins de semana, o crescente trabalho profissional ao domingo, a prática de algum desporto só nesse dia possível e, já ao tempo, a falta de presbíteros.

A Instrução Eucharisticum Mysterium de 1967 autorizaria a antecipação, mas apenas ad casum, temporariamente e à experiência. E prevenindo: Que não se perca de modo nenhum, o sentido do domingo.

Esta decisão conheceu algumas oposições e reticências de carácter histórico-litúrgico que aqui se não podem referir. E a verdade é que, progressivamente e um pouco por toda a parte, se começou a celebrar a Ressurreição do Senhor a qualquer hora da tarde do Sábado e não como faziam os cristãos primitivos – apenas depois do pôr-do-sol de Sábado -, como dissera o Concílio ao Oriente católico-ortodoxo e recomendavam os episcopados. Na cidade do Porto, por exemplo, rapidamente se celebrou a Vigília Pascal às duas da tarde de Sábado (facilitando a corrida às abandonadas aldeias para o então discutido compasso)!, e multiplicaram de tal modo as missas vespertinas que, em 1997, havia, no mesmo Porto, mais missas no Sábado à tarde que em todo o dia de Domingo!

E, com a introdução desta prática indiscriminada da missa ao sábado, começou o fim do domingo. Se, no passadíssimo séc. IV, os cristãos haviam conseguido juntar ao domingo o dia de descanso semanal, nos finais do séc. XX, era o dia de descanso a puxar para o sábado a celebração da ressurreição do Senhor! E assim se matava a páscoa semanal: “ressuscitado…, no primeiro dia da semana…” (Mc 16, 9), mais ou menos ano 70 do séc. I.

Em 1980, alguém preveniu: “a missa de Sábado é um problema do Domingo”.

Enquanto se multiplicavam os documentos papais e episcopais de muitos países a acudir ao que começava a suceder, os bispos portugueses reconheciam, em 1977, que “O Domingo, como dia de descanso, alargando-se gradualmente ao fim-de-semana, é geralmente apreciado como significativa conquista social. Se isso é um bem, já o mesmo não se poderá dizer da progressiva diluição do clima espiritual e religioso próprio do dia do Senhor. Também entre nós se assiste a uma certa dessacralização ou profanização do Domingo”. E terminavam: “A pastoral do domingo tem de assentar numa sólida base teológica”, pois que, di-lo-iam em 1994, “a fragilidade do catolicismo português provém, em grande parte, do analfabetismo religioso. É uma fé sentimental e pouco esclarecida. Para superar esta insuficiência, é necessário cuidar dos conteúdos da fé, de modo a fundamentar convicções seguras que criem uma prática coerente”.

Alguns pastores e pastoralistas afirmaram até que, sobretudo nos grandes centros urbanos, nada justificava que praticamente todas as igrejas tivessem a(s) sua(s) missa(s) vespertina(s): e sugeriam que apenas em algumas igrejas se pudesse antecipar a celebração dominical, o que – só por si – bastava para marcar o carácter excepcional dessa prática. Que o espírito da concessão era para facilitar a vida dos fiéis, normal ou ocasionalmente impedidos de celebrar a Eucaristia no próprio domingo, mas não para introduzir um costume que, sem mais, acabaria por matar o próprio domingo.

Assim se defendia o autêntico primeiro dia da semana: “o domingo é uma das características mais importantes da identidade cristã e constitui a primeira criação pastoral da comunidade nascente. Ele é ainda um sinal da visibilidade da Igreja” (Bispos Vascos, 1993). Já o Livro dos Actos noticiava claramente que “Os baptizados, no primeiro dia da semana, se reuniam para partir o pão” (Act 20, 7). E a teologia do domingo soltou-se a recordar todas as dimensões do domingo dizendo:

  • “Convém fomentar o sentido da comunidade eclesial, que se alimenta e expressa de um modo especial na celebração comunitária da missa dominical” (Eucaristicum Mysterium, 1967, 26): “Não há domingo sem assembleia cristã!” (Bispos Portugueses – Instrução Pastoral… Domingo. 1978, 12);
  • Uma boa celebração eucarística supõe uma assembleia bem estruturada, iniciada e preparada, sinal vivo da Igreja no exercício do seu ministério sacerdotal” (Id, 1978, 28): “Ó Episcopo! Ordena e persuade o povo a ser fiel em reunir-se, a fim de que ninguém diminua a Igreja por deixar de frequentá-la e assim o Corpo de Cristo não fique privado de nenhum dos seus membros” (Didascália, séc III).
  • O descanso dominical é uma libertação daquilo que prende o homem à terra; é uma oblação sacrificial de um dia em cada sete, que o homem santifica ou consagra a Deus, renunciando ao que de útil e lucrativo nele faria; é um transpor as barreiras dum pequeno mundo dos interesses imediatos e muito terra a terra, para se alegrar ao grande mundo dos outros, com as exaltantes experiências do diálogo, da partilha e da convivência fraterna; é um ir à descoberta das maravilhas saídas das mãos de Deus ou das mãos dos homens feitos à sua semelhança, para uma contemplação que eleva até Ele; é um convite a entrar no santuário interior, para aí ouvir a voz da consciência e os apelos divinos aos grandes ideais e projectos de vida; é, por fim, uma preparação para o escatológico “oitavo dia”, o dia sem fim do Senhor, no qual o cristão entra envolvido pelo piedoso voto da comunidade: Dai-lhe, Senhor, o eterno descanso, entre os esplendores da luz perpétua” (Bispos Portugueses – Instrução Pastoral… Domingo, 1978, 9).

 

(Continua)

 

 

 

 

 

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