Tema apresentado no Encontro de Formação de Oficiais e Extensionistas promovido pela Regia do Porto, em 6-9-2014, por Pe. Emanuel Brandão, Dir. Esp. da Curia “Nossa Senhora das Graças” e publicado na Revista da Legião de Maria, Janeiro/Março de 2015.

 

Foi-me proposto apresentar os desafios que a nossa cultura coloca à Pastoral Familiar. Por isso, antes de apresentar os desafios, urge colocar e responder a duas questões prévias: o que é a Pastoral Familiar? Quais as características da nossa cultura?

Comecemos então por responder à primeira questão: o que é a Pastoral Familiar? Toda a pastoral da Igreja tem como objectivo ajudar as pessoas a fazer a experiência de Cristo na situação concreta em que vivem. Por outras palavras, a pastoral é ajudar cada crente a viver de maneira cristã as várias situações que a vida lhe vai proporcionando. Assim, para os doentes temos a pastoral da saúde, para os jovens, a pastoral juvenil, para os universitários, a pastoral universitária, etc. Podemos então dizer que a Pastoral Familiar é a ajuda que se presta aos membros da comunidade familiar, para que possam fazer a experiência de Cristo no seio da vida familiar. E, na verdade, a vida matrimonial e famíliar é, para a maioria dos cristãos, o lugar e o meio onde se concretiza o seguimento de Jesus.

Sabemos todos que toda a vida cristã é inserção no Mistério Pascal e, por isso, tem uma dinâmica pascal. Efectivamente, os esposos vivem o mistério da morte que gera nova vida através da entrega recíproca de um ao outro, que expressa e manifesta a relação entre Cristo e a Igreja.

Por outro lado, a graça do sacramento do Matrimónio, para além de ser uma ajuda para a vida matrimonial, significa também que onde se realiza o sinal de um amor inseparável aí se produz a vida divina, aí este amor se converte em doce ternura e em fidelidade forte que une o homem com o seu Deus, aí se dá o encontro com o Deus que se comunica ao homem. Assim, pode dizer-se que aquele que casa pela Igreja está implicitamente a dizer que para o amor não definhar, mas antes crescer até à perfeição da caridade, precisa da força de Deus.

Como qualquer outro sacramento, «o sacramento do Matrimónio supõe e requer a fé» (Rm 16). Quer dizer, a fé é uma qualificação necessária no sacramento cristão do Matrimónio. É condição que possibilita a realização plena do sacramento. Só quando existe a fé dos esposos é que o Matrimónio pode ser um acontecimento de graça em sentido pleno.

Esta afirmação coloca logo muitas questões, ou melhor, muitos desafios. Na verdade, tem razão o Cardeal Walter Kasper quando afirma que «a vivência da fé é, por conseguinte, o melhor serviço, o conteúdo propriamente dito, o pressuposto e a meta de toda a pastoral matrimonial bem orientada» – “Teologia del matrimónio”, p.16-17.

Passemos agora à segunda questão: quais as principais características da nossa cultura?

Com o iluminismo do século XVIII operou-se um processo de emancipação de cada um em relação à figura do «Outro». Surgiu assim a idade da «razão adulta», dona de si e do destino em que cada um ordena a própria vida, segundo os próprios cálculos e projectos. A «morte do Outro» pareceu condição necessária para a vida e glória do homem. Houve a tentativa de libertação de um Deus entendido como árbitro despótico ou contra-poder indiferente ou inerte. Mas, contrariamente ao pretendido, a morte do Outro conduziu à morte dos outros, pois o outro deixou de ser «próximo» para passar a ser o rival, alguém que não nos deixa ser livre, ou seja, «o inferno» para Sartre. Desta forma, a sociedade ficou reduzida a uma multidão de solidões. Ligada à morte dos outros sucede a ameaça do próprio sujeito «pela sociedade de consumo que nos manipula, ou pela procura de um prazer que nos encerra nas nossas paixões, como era no passado pela submissão à lei de Deus ou da sociedade» – Touraine, Alain – Crítica da Modernidade”. Lisboa: Instituto Piaget, 1994, p. 325 -, nas palavras do sociólogo francês Alain Touraine. Surge assim o chamado «pensamento débil», marcado pela indiferença, pelo relativismo e falta de paixão pela verdade que leva muitos a fechar-se no curto horizonte dos próprios interesses. Se na modernidade, a figura de Deus era um adversário a abater ou um déspota de quem é preciso livrar-se, na chamada «pós-modernidade» torna-se numa figura privada de qualquer interesse ou atracção. Em última análise, Deus torna-se um ornamento, uma figura que se concilia com a fraqueza ética e com a condição de contínua queda no não sentido; é um Deus sem força, espelho de um homem decadente. Convivemos com Ele como um dos tantos fetiches da existência, sem nos deixarmos assinalar ou transformar por Ele.

Em suma, podemos dizer, citando novamente, que a história da modernidade é a história da ruptura lenta mas inevitável, entre o indivíduo, a divindade, a sociedade e a natureza.

Logo aqui poderemos perguntar: a recusa do casamento de muitos dos nossos contemporâneos não significará a recusa da interferência de qualquer entidade exterior na vida privada? Efectivamente, esta recusa do Matrimónio é a afirmação de que a vida matrimonial pertence ao âmbito privado e, por isso, nem o Estado nem qualquer outra instituição têm autoridade para interferir nisso.

Tendo presente a missão da pastoral familiar e o ambiente cultural em que vivemos, vamos apresentar três desafios: o da esperança, o da perseverança e o da dor.

O desafio da esperança diz respeito à fase pré-matrimonial ou fase de preparação remota e próxima do Matrimónio, que agora é confrontada com o fenómeno das uniões de facto, ou seja, com a rejeição da instituição casamento.

As uniões de facto entre cristãos são um sintoma de que muitos dos nossos cristãos já nem sequer reconhecem a necessidade de casar pela Igreja, ou seja, não descobriram a beleza e a riqueza do sacramento cristão. Mas se formas ainda mais fundo, descobrimos que por detrás desta renitência ao Matrimónio está o medo, o medo de falhar, o medo de assumir compromisso definitivo com o outro, em suma, o medo do outro. Medo que é o contrário da esperança. Daí que eu chame a esta fase, a fase da esperança. Assim, urge fazer sentir aos jovens que o amor sem a ajuda de Deus definha e que a verdadeira liberdade é um dom dos outros. A relação com os outros não é uma prisão, mas sim uma libertação.

O segundo grande desafio é o da perseverança, tendo como pano de fundo o grande número de divórcios na nossa sociedade. Urge então ajudar os esposos a perseverar. Neste ponto é fundamental o papel dos pequenos grupos de casais, como já o fazem muitos movimentos. Os grupos são um apoio fundamental para os casais nos momentos mais difíceis, onde podem descobrir que os outros casais também passam por dificuldades e que foram capazes de as superar. Por outro lado, estes grupos eclesiais são um espaço único para a formação cristã dos casais cristãos. E como se notam muitas lacunas na formação e na vivência do fundamental cristão dos casais, parece-nos que esta formação deve ter uma dimensão catecumenal, ou seja, de iniciação cristã, onde se cimente a coerência entre o pensar e o viver. Faça-se uma formação na acção. A pastoral familiar não pode ficar apenas pela apresentação de técnicas para ajudar a superar os problemas e os conflitos.

Por fim, o desafio da dor que tem presente o grande número de pessoas que falharam no primeiro Matrimónio e voltaram a casar e que continuam a bater à porta da Igreja. Que fazer com eles? Se é verdade que a Igreja coloca reticências à sua participação nos sacramentos, convida-os a participarem na vida da Igreja.

Pensamos que aqui os movimentos também poderão ter um papel fundamental. Na verdade, só o amor recebido dos outros nos converte e nos faz encetar o caminho da conversão. Por isso, os movimentos podem ter aqui o papel preponderante de concretizar uma Igreja próxima, uma Igreja que ensina e adverte, mas também uma igreja que acolhe e perdoa. Ou seja, uma Igreja que serve a verdade com caridade. E, na verdade, já há um ou outro movimento que estão atentos a esta problemática. Porque não aparecem mais?

Por outro lado, convém não esquecer que as mudanças constantes na vida matrimonial (= os divórcios) revelam insatisfação e levam à descoberta que o outro não satisfaz plenamente o nosso coração. Este fenómeno revela no fundo que ambos os esposos anseiam sequiosamente por algo diferente do prazer amoroso. Na verdade, não há nada nem ninguém deste mundo que sacie totalmente o nosso coração. Assim, os esposos não devem caminhar apenas um para o outro, mas sim os dois de mãos dadas para Deus. Ou seja, o objecto da nossa saudade tem um rosto: Cristo. Pensemos no episódio da samaritana do Evangelho de João. Só ao fim de seis maridos é que ela encontrou o verdadeiro esposo, o sétimo: Jesus.

Para terminar, uma palavra final sobre a linguagem a usar na pastoral. Numa época como a nossa, pouco dada a acolher uma verdade que chegue pela via intelectual e explicativa, urge enveredar pela via da beleza e da narração. Na verdade, o melhor e maior testemunho da verdade do amor são as experiências narrativas dos casais cristãos que, apesar das dificuldades e insucessos, conseguem fazer do Matrimónio um lugar de sentido e de esperança. E, de facto estas coisas do amor não se explicam, narram-se.