Segundo o doutor Franco Balzaretti, vice-presidente da Associação dos Médicos Católicos Italianos, a fé nunca é um obstáculo, mas um valor agregado na profissão médica

 

11 fevereiro 2016 – A festa de hoje, da Virgem de Lourdes, é o ponto de partida para uma reflexão sobre as curas definidas como “milagrosas”. Como vice-presidente da Associação dos Médicos Católicos Italianos (AMCI) e, mais importante ainda, como membro da Comissão Médica Internacional de Lourdes (CMIL), o professor Franco Balzaretti explicou a ZENIT as peculiaridades de seu cargo, explicando como a aliança entre ciência e fé pode levar a resultados verdadeiramente admiráveis.

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ZENIT: Prof. Balzaretti, vamos partir de uma premissa metodológica: para um crente que trabalha na Comissão Médica Internacional de Lourdes, onde termina a fé e onde começa a ciência?

Franco Balzaretti: Quanto ao nosso compromisso na Comissão Médica, que tem de verificar as curas cientificamente inexplicáveis, a fé nunca é um limite, mas sim um valor agregado, porque ela nos leva a julgar, se possível, com mais rigor e intransigência ainda; mas, ao mesmo tempo, ela nos ajuda a ficar abertos ao transcendente em todos os casos em que a ciência não pode dar explicações lógicas e credíveis.

É por isso que os médicos sempre foram muito importantes para as curas em Lourdes, uma vez que eles devem sempre saber conciliar as exigências da razão com as da fé; e o seu papel e função, portanto, é o de não cair nunca num positivismo excessivo nem excluir toda possível explicação científica ou natural. E é a justamente a seriedade da medicina, a lealdade e o rigor demonstrados por ela, que constituem um dos fundamentos essenciais para a credibilidade do santuário.

Na CMIL de Lourdes, a metodologia é exatamente a mesma que é usada para a investigação científica; os médicos estão sempre motivados pelos requisitos científicos peculiares da sua profissão e seguem o princípio de Jean Bernard: “quem não é científico não é ético”. Então, mesmo sendo crentes (e… eles o são com mais razão ainda), nunca falta o rigor científico nos seus debates.

Podemos afirmar que o homem da Igreja e o homem da ciência, no caso médico, têm dois papéis importantes e complementares, em dois âmbitos diferentes, mas com o mesmo objetivo: a busca da verdade. E assim a história de Lourdes e da comisão científico, de certa forma, antecipou a encíclica Fides et Ratio, que, entre outras coisas, afirma que “a fé e a razão são como as duas asas pelas quais o espírito humano se eleva para a contemplação da verdade”.

ZENIT: Quais são os critérios de uma cura “milagrosa”?

Franco Balzaretti: Devemos ao cardeal Prospero Lambertini, mais tarde papa Bento XIV, o mérito de precisar as características do milagre também do ponto de vista médico-científico. Na “De servorum beatificatione et beatorum canonizatione” (livro IV, capítulo VIII, 2-1734), ele fixou sete critérios para o reconhecimento de uma cura extraordinária ou inexplicável:

A doença deve ter características de gravidade, com prognóstico negativo.
O diagnóstico real da doença deve ser seguro e preciso.
A doença deve ser apenas orgânica.
Uma eventual terapia não pode ter favorecido o processo de cura.
A cura deve ser repentina, inesperada, instantânea.
A retomada da normalidade deve ser completa, sem convalescência.
A cura deve ser duradoura (sem recaída).

Esses critérios de Lambertini ainda são válidos e estão em uso até hoje, de tão lógicos, precisos e pertinentes que são; eles fixam, de maneira inquestionável, o perfil específico da cura inexplicável e têm evitado qualquer possível objeção ou contestação contra os médicos do CMIL. Mesmo hoje, representam a referência certa para o julgamento de não-explicabilidade, porque captam, na sua essência, o inexplicável do fenômeno, definindo plenamente a cura “não explicável cientificamente”.

E devemos reconhecer que foi o cumprimento constante destes critérios o que corroborou a seriedade e a objetividade da Comissão Médica Internacional de Lourdes, cujas conclusões representam sempre o “feedback” especialista indispensável para todos os outros julgamentos canônicos, necessários para reconhecer os verdadeiros milagres entre as muitas curas relatadas.

ZENIT: É possível quantificar, mesmo que seja aproximadamente, os milagres que ocorreram em Lourdes desde 1858 até hoje? Quantos são oficialmente reconhecidos?

Franco Balzaretti: Muitas pessoas perguntam se ainda acontecem milagres em Lourdes. Bom, apesar do crescente ceticismo da medicina moderna, os membros da CMIL se reúnem anualmente para testificar curas realmente extraordinárias, para as quais nem os especialistas internacionais mais autorizados conseguem encontrar explicação científica. Atualmente, a CMIL está seguindo alguns casos muito interessantes, que podem ter desenvolvimentos importantes.

Das mais de 7.200 alegações de cura, apenas 69 casos foram declarados milagrosos desde 1858 até hoje: da cura de Catherine Latapie, que ocorreu poucos dias após a primeira aparição em Massabielle, até o último caso, o da Sra. Danila Castelli, curada em 1989 e cujo caso foi reconhecido em 2013.

ZENIT: Qual foi o caso de cura mais clamoroso com que o senhor já lidou?

Franco Balzaretti: Sem dúvida, o da irmã Luigina Traverso, curada em 23 de julho de 1965 de uma lombociática incapacitante de meningocele. Depois de anos de terapia e várias cirurgias, a irmã Luigina tinha vindo a Lourdes em 20 de julho de 1965 em estado muito grave, a ponto de os médicos terem recomendado que ela não fizesse a peregrinação a Lourdes porque temiam pela sua vida.

Mas em 23 de julho de 1965, durante a celebração eucarística, a irmã Luigina Traverso experimentou na passagem do Santíssimo Sacramento uma sensação súbita e forte de calor e bem-estar, com o “desejo de ficar de pé”, o que lhe era impossível já fazia meses, e retomou de repente os movimentos dos pés e o sumiço da dor.

No dia seguinte, em plena saúde, acompanhada pela Madre Superiora, a religiosa se dirigiu caminhando sem qualquer ajuda até a Gruta para agradecer à Virgem. Mais tarde, ela participou da Via Crúcis dos Peregrinos e subiu, rezando, até a quarta estação, por uma subida íngreme. Nos dias seguintes, ela se dedicou ao cuidado e serviço dos doentes.

O milagre foi reconhecido apenas em 2012, com a documentação indispensável, depois do meu relatório sobre o dossiê clínico da cura, na reunião da CMIL de 2011, com a votação (quase unânime) e o parecer positivo da comissão médica. A irmã Luigina atualmente vive em um convento perto de Casale Monferrato, onde, recentemente, foi realizado um novo exame médico que confirmou o bom estado do paciente, tanto física quanto psicologicamente.

ZENIT: Na sua opinião, o que leva tantos pacientes a viajar para Lourdes? O desespero, a desconfiança na medicina ou a fé?

Franco Balzaretti: Em primeiro lugar, é preciso considerar que em Lourdes se vive em outra dimensão, em uma atmosfera de autêntica espiritualidade; é suficiente aproximar-se dos doentes para ler na expressão dos seus rostos uma serenidade quase irreal; muitos deles não seriam capazes de suportar os sofrimentos pesados e as viagens longas se não houvesse fé e esperança para se apoiarem. E é no sofrimento que acontece o encontro do homem consigo mesmo. Determinam-se relações humanas extraordinárias, nas quais ocorre uma redescoberta autêntica da própria humanidade.

E assim, os mesmos doentes que, por causa da doença e das muitas dificuldades, muitas vezes se sentem marginalizados pela sociedade, se veem, em Lourdes, de repente, no centro das atenções; eles encontram uma razão para a sua vida marcada pela dor e o seu sofrimento ganha um valor salvífico insubstituível; na prática, eles reencontram a vontade de viver. É por isso que as várias pesquisas mostram que a busca da cura física nunca é a principal razão da presença deles em Lourdes.

ZENIT: Dizem que os milagres mais significativos, em Lourdes e em outros lugares de peregrinação, são as pessoas que, mesmo permanecendo doentes, encontram a fé: como médico e como católico, qual é o seu pensamento sobre esta afirmação?

Franco Balzaretti: O escritor laico Ennio Flaiano (1910-1972) tinha uma filha que sofria de uma forma grave de encefalopatia. Em uma de suas histórias, ele imaginava o retorno de Jesus à Terra sempre perto dos doentes. Um homem levava até Jesus a sua filha doente e dizia: “Eu não quero que a cures, mas que a ames”. Jesus beijava a menina e dizia: “Verdadeiramente, este homem pediu o que eu posso dar”. Assim nós também não sabemos e nunca vamos saber se aqueles que vão até a gruta recebem a graça da cura, mas eles eu estou certo de que, imediatamente, eles recebem o amor da Virgem Maria e de todos aqueles que sabem partilhar a sua dor, o seu desespero e, acima de tudo, a sua fé!

Como médico e, especialmente, como católico, eu me encontro nesta bela e paradigmática expressão de um jovem da ambulância, que, na sua simplicidade, dizia: “Tenho certeza de que cada um em Lourdes recebe o seu milagre. Talvez não seja um braço que se levanta ou uma perna amputada que se recupere, mas um coração que se transforma”.