(Comentário de Joaquim R. Bicho, publicado em “Porta do Sol”, 29/03/2015)

 

Deixámo-nos seduzir pelos valores contemporâneos. Dos Direitos do Homem, da liberdade de expressão, da cidadania, da igualdade de sexo, que acrescentaram valor à vida e fizeram despertar no homem a grandeza da sua dignidade. E também por pseudovalores que luzem e enganam. Alguns a confundir-se com os primeiros e a ofuscar a sua essência.

Quando se instala a convicção, que temos visto frequentemente testemunhada em órgãos de comunicação social, de que agora, com a liberdade, já se pode dizer e fazer tudo, está a denegrir-se o valor da liberdade tão bela e tão enraizada no coração humano.

Estranho é que essa conceção de liberdade absoluta e sem peias de consciência afete, precisamente, estrénuos defensores da dignidade humana, que não se coíbem de atentar contra o bom nome e a dignidade alheia, a julgar, a injuriar, a condenar. Na verdade, parece ter-se perdido a noção do mal que se faz, a divulgar suspeitas, a dar crédito a murmurações, a alimentar a corrosiva tendência da má-língua. Em que andam envolvidos tantos que não se cansam de exigir respeito pela dignidade humana.

Por outro lado, apercebemo-nos que se desvalorizaram valores do passado – a honestidade, o cumprimento da palavra, a verdade sem artifícios, a discrição, o equilíbrio, a lealdade, a contenção da língua, o respeito.

Começa já a sentir-se aqui e acolá uma certa frustração e desencanto por pseudovalores ou por adulteração de valores muito respeitáveis que a prática não foi capaz de manter dentro de um equilíbrio exigível por simples bom senso. Porque quem está atento ao rodar do tempo não ignora que o equilíbrio não se mantém com o aumento de polícia, a melhoria de funcionamento dos tribunais, a disponibilidade de estabelecimentos prisionais.

Não há leis que ponham cobro ao desequilíbrio, nem sanções que o evitem. Os males do nosso tempo radicam, fundamentalmente, no desrespeito da pessoa humana e na tentação do ter e do poder. Que a lassidão deixou instalar.

Não vamos, naturalmente, pensar que o problema se resolve com o retorno ao passado e a aplicação de práticas do tempo dos nossos avós. Cada época tem os seus valores. E dela se deve extrair o que de melhor oferece, sem voltar a experiências falhadas.

É preciso escolher entre o valor e a utopia, entre a dignidade proclamada respeito pela dignidade de todos os homens.