(Artigo de João Alves Dias, publicado em “Voz Portucalense”, 18/03/2015)

 

As avós – Uma avó é uma mulher que não tem filhos: por isso gosta dos filhos dos outros. As avós não têm nada que fazer, é só estarem ali. Quando nos levam a passear, andam devagar e não pisam as folhas nem as lagartas. Nunca dizem despacha-te. Normalmente são gordas, mas mesmo assim conseguem atar-nos os sapatos. Sabem sempre que a gente quer mais uma fatia de bolo, ou uma fatia maior. Uma avó de verdade nunca bate numa criança: zanga-se mas a rir. As avós usam óculos, e às vezes até conseguem tirar os dentes. Quando nos lêem histórias, nunca saltam bocados e não se importam de contar as mesmas histórias várias vezes. As avós são as únicas pessoas grandes que têm sempre tempo. Não são fracas como elas dizem, apesar de morrerem mais vezes do que nós. Toda a gente deve fazer o possível para ter uma avó, sobretudo se não tiver televisão.

Acabava de receber um email com esta redacção de criança, quando ouvi um menino de 4 anos a falar com a avó sobre a prenda que estava a fazer para o “Dia do Pai”.

– Quando é avó?

– É no próximo dia 19.

– Porquê?

– É o dia de S. José.

– O pai de Jesus que eu vi de pé no presépio?

– Esse mesmo.

– E o “Dia da Mãe? – continuou ele.

– É no primeiro domingo de maio, o “Mês de Maria”.

– A mãe de Jesus que estava no presépio?

– Sim, Nossa Senhora.

– E o Dia dos Avós?

– É no dia 26 de julho.

– E porquê?

– Porque é dia de Santa Ana e São Joaquim, os avós de Jesus.

– Engraçado. Mas eles não estavam no presépio, pois não. Porquê?

– Porque viviam muito longe.

– E o “Dia dos Pais”? Perante o silêncio da avó, o neto esclareceu:

– Sim, o dia do pai e da mãe? A avó, surpreendida, lá encontrou uma resposta:

– O Dia dos Pais é o dia de Natal.

– Porquê?

– Porque é quando Jesus nasceu, e o dia dos pais é o dia do nascimento dos filhos.

– Ó avó, conta-me a história dos Reis Magos. A avó respirou de alívio… Mas a pergunta ficou e interpela-nos: e o “Dia dos Pais”?

 

Quão belo é este diálogo! É muito significativo que o Santo Padre tenha escolhido para tema do 49º Dia Mundial das Comunicações Sociais: “Comunicar a família – ambiente privilegiado do encontro na gratuidade do amor”. Diz: “O ventre que nos abriga é a primeira “escola” de comunicação (…) Este encontro entre dois seres simultaneamente tão íntimos e ainda tão alheios um ao outro, um encontro cheio de promessas, é a nossa primeira experiência de comunicação. (…) Mesmo depois de termos chegado ao mundo, em certo sentido permanecemos num “ventre”, que é a família. Um ventre feito de pessoas diferentes, interrelacionando-se: a família é “o espaço onde se aprende a conviver na diferença”.

O diálogo intergeracional, que se faz de afeto e enriquece na diferença, torna a família o paradigma de toda a comunicação. E o “Dia dos Pais”? …