(Artigo de Jorge Cotovio, escrito em 15 de novembro de 2014 e publicado em “Vida Rural”, março de 2015)

 

I – VER

  1. 1.   A crise societária

Estamos, desde há anos, mergulhados numa profunda crise societária, que tem originado alterações no quotidiano das pessoas, atingindo – e de que maneira! – a estrutura familiar.

Há pouco mais de 10 anos, já os nossos bispos, em Carta Pastoral de 31 de maio de 2004, nos alertavam para isso, e elencavam a série de “culturas” que se instalaram entre nós, causadoras da “crise”: a cultura do provisório, que dá prioridade ao que é efémero sobre as realidades perenes com a marca da eternidade (e neste contexto vemos como é difícil falar aos jovens de relações estáveis e eternas, como deverá ser o vínculo matrimonial); a cultura do prazer, que orienta para a satisfação imediata e egoísta dos próprios anseios e desejos; a cultura do consumo e do bem-estar material, potenciando o reinado do “ter” sobre o “ser”, e relativizando a busca da identidade espiritual; a cultura da facilidade, que ensina a evitar tudo o que exige esforço, sofrimento e luta; a cultura irresponsável, que relativiza os princípios éticos; a cultura de morte, que desvaloriza de forma dramática a vida humana, desde as crianças não nascidas até às pessoas idosas; a cultura mediatizada, subordinada ao poder dos meios de comunicação social; etc. (cf. nº 12).

Também o nosso Papa Francisco nos alerta para o medo e o desespero que se apodera em muitas pessoas e a falta da alegria de viver, mesmo nos países “ricos”, o aumento da falta de respeito, da violência e da desigualdade social (EG 52), a prevalência daquilo que é “exterior, imediato, visível, rápido, superficial, provisório” (62), a economia da exclusão e a cultura do “descartável” (53), a idolatria do dinheiro e do consumo (55), a acentuação do individualismo e do declínio do fervor (78).

Por sua vez, o Instrumentum Laboris (IL): “Os desafios pastorais da família no contexto da evangelização” (Vaticano, 2014), salienta a cultura de morte em relação à vida nascente (65). Triste paradoxo dos tempos modernos: tantos casais que podem ter filhos e não os querem ter; e outros que querem ter filhos sem o conseguir, mesmo depois de esgotarem as técnicas mais modernas, algumas delas pouco éticas; taxas de natalidade baixíssimas, e, por outro lado, apoios políticos ao aborto (para além da pouca protecção à maternidade).

Mas a crise societária também passa pelo forte desemprego e pelo trabalho precário, constituindo-se estas realidades das maiores ameaças à estabilidade familiar.

 

  1. 2.   A crise de fé

O secularismo invadiu as nossas sociedades. O Papa Francisco fala-nos do “declínio do fervor” (EG 78) e da “rejeição da ética e a recusa de Deus” (57). E quando se pedia aos cristãos uma reacção positiva a este “aumento progressivo do relativismo” (64), “desenvolve-se a psicologia do túmulo, que pouco a pouco transforma os cristãos em múmias de museu” (83).

Sem alegria e sem entusiasmo da parte das famílias cristãs, como é possível provar que vale a pena ter fé, que vale a pena seguir os ensinamentos da Igreja? São interpelações que nos devem fazer repensar as nossas atitudes quotidianas, a maioria delas mais próximas do indiferentismo religioso do que da esperança evangélica.

 

  1. 3.   A crise da família

A fortíssima crise societária que vivemos, aliada ao progressivo afastamento do religioso das nossas vidas, só poderia acentuar a crise da instituição familiar, já tão abalada desde o último quartel do século XX.

Mesmo sabendo que a família perfeita não existe, o marido perfeito não existe e a mulher perfeita não existe, e muito menos a sogra perfeita (Papa Francisco, 14/2/2014), há, efectivamente, famílias em “situações especiais” (por exemplo, as famílias monoparentais e as que pelo menos um dos cônjuges é “recasado”) e outras em “situações irregulares” (designadamente as “uniões de facto”, os católicos unidos em casamento civil ou os católicos divorciados e recasados).

A realidade da fragmentação e da desagregação da família assume contornos dramáticos com o divórcio e a separação do casal, por vezes associados a quadros de pobreza material e estende-se, igualmente, à violência psicológica, física e sexual movida, sobretudo, contra as mulheres, e aos maus tratos desencadeados pelos pais aos seus filhos ainda crianças.

Também o incremento desregulado da utilização da Internet e das redes sociais “podem ser um impedimento real do diálogo entre os membros da família, alimentando relações fragmentadas e alienação (IL 68).

 

  1. 4.   A crise do casal

A crise da família assenta, essencialmente, na crise do casal. Numa sociedade marcada pela cultura do efémero, cada vez é mais difícil entender o matrimónio “para toda a vida”. Numa cultura dominada pela superficialidade, não é fácil aos jovens assumirem compromissos estáveis e duradouros. Relações pouco profundas e pouco alimentadas pelo diálogo devido à “falta de tempo” (melhor, ao mau aproveitamento do tempo) em nada ajudam a superar os normais conflitos entre os cônjuges. Se juntarmos a tudo isto a tentação do individualismo e as traições ao amor e à vida, estamos perante um cenário sombrio (FEIMA 17 e 18).

Do exposto, que conclusão poderemos tirar? É a crise da sociedade que provoca a crise da família, ou é a crise da família que provoca a crise societária?

Não tenho dúvidas: é a crise da família a provocar a crise societária, porque a família é a célula base da sociedade!

 

II – JULGAR

  1. 5.   Um olhar ao que nos diz a Igreja

Iluminados pelos dons do Espírito, olhemos a família. O “Evangelho da Família” cabe todo na Sagrada Família: Que Nazaré nos ensine o que é a família, a sua comunhão de amor, a sua beleza austera e simples, o seu carácter sagrado e inviolável; aprendamos de Nazaré como é preciosa e insubstituível a educação familiar e como é fundamental e incomparável a sua função no plano social. Enfim, aprendamos uma lição de trabalho. (Paulo VI, Discurso em Nazaré, 5/1/1964).

São muitos os textos da Igreja que nos falam do valor sublime da família. Numa época em que poucos conhecem essa doutrina, vale a pena recordar algumas definições de família: Comunidade de vida e de amor (GS 48); Célula primeira e vital da sociedade (FC 42); célula originária da sociedade. (…) [onde] os filhos aprendem os valores humanos e cristãos que permitem uma convivência construtiva e pacífica (Bento XVI); Célula básica da sociedade, o espaço onde se aprende a conviver na diferença e a pertencer aos outros (EG 66); Motor do mundo e da história (Papa Francisco).

Não há dúvida! O futuro da sociedade depende da solidez da família: do amor entre os esposos, que supera os amuos e as fragilidades de cada um; do amor entre pais e filhos e entre os irmãos, estendido aos avós e outros familiares (porque quanto mais alargada for a família, menos probabilidades há de ela sucumbir à monotonia e aos conflitos).

Perante um quadro pouco animador, o Papa Francisco dá-nos mais este conselho: «É habitual os casais zangarem-se… Às vezes voa um prato! Mas, por favor, lembrem-se disto: não acabem o dia sem fazer as pazes! Nunca, nunca. Este é um segredo para conservar o amor» (14/2/2014).

E como está carregado de esperança este “olhar” de mais uma voz autorizada da Igreja: «Ver passear, nas nossas cidades ou aldeias, pais e mães com os seus filhos pequenos é algo encantador que enche de ternura, comove e nos abre o sorriso. São um sinal de alegria e de felicidade, promissor de esperança para o mundo» (D. António Marto, Carta Pastoral, set/2013).

 

III – AGIR

  1. 6.   O que fazer a nível pessoal

O pressuposto imprescindível para a acção é este: rezar. Diz D. António Marto a este respeito: «A oração presente na vida do casal e da família (por exemplo, no início e no fim do dia, antes das refeições, ou noutros momentos e modos) e a fidelidade à Eucaristia dominical são caminho para manter viva e fazer brilhar na sua vida a intensidade e a beleza do amor que os habita» (Carta Pastoral de D. António Marto, set/2013, nº 8).

Sustentados na oração, deixo algumas pistas de atuação:

   – Perdoar;

   – Reconhecer que somos muito frágeis, incompletos, imperfeitos (o que exige conversão permanente);

   – Aceitar o outro tal como é (um ser bem diferente de mim!);

   – Aceitar o sacrifício, as adversidades, como caminho de felicidade;

   – Investir, em casal, no diálogo, na aceitação mútua, na fidelidade, na capacidade de sacrifício, na abertura aos outros, na educação responsável dos filhos;

   – Dar testemunho de alegria e entusiasmo no meio das dificuldades…

 

 

  1. 7.   O que fazer a nível pastoral/comunitário

   – Ajudar os outros casais e as famílias em crise;

   – Organizar a pastoral familiar;

   – Cuidar da preparação dos noivos para o matrimónio, do acompanhamento dos casais novos, do acolhimento aos novos residentes, do apoio às famílias em situação (particularmente) difícil, do acolhimento às famílias em situações irregulares (que exigem muita compreensão da Igreja);

   – Ajudar a promover políticas públicas a favor da família, em diálogo com o Estado e as entidades públicas.

 

 

  1. 8.   Por fim, nunca esquecer que …

… «O amor é paciente, o amor é prestável, não é invejoso, não é arrogante nem orgulhoso, nada faz de inconveniente, não procura o seu o próprio interesse, não se irrita nem guarda ressentimento. Não se alegra com a injustiça, mas rejubila com a verdade. Tudo desculpa, tudo crê, tudo espera, tudo suporta» (cf. 1Cor 13, 4-7).

   (E também nunca esquecer de dizer “Obrigado”, “Por favor” e “Desculpe”).

 

Textos de referência:

Díblia

GS – ConstituiçãoPastoral Gaudium et Spes.

FC – Exortação Apostólica Familiaris Consortio (João Paulo II, 1981).

EG – Exortação Apostólica Evangelii Gaudium (Papa Francisco, 2013).

IL – Instrumentum Laboris, Os desafios pastorais da família no contexto da evangelização (Vaticano, 2014).

Paulo VI, Discurso em Nazaré, 5/1/1964.

Bento Bento XVI, Mensagem para a celebração do XIV Dia mundial da paz, 1/1/2012.

Papa Francisco, Discurso de 24/2/2014.

CEP – Família, esperança da Igreja e do mundo (FEIM). Carta Pastoral de 31/5/2004.

D. António Marto, Carta Pastoral “A beleza e a alegria de viver em família”, de 8/9/2013.