«É necessária uma aliança entre família e paróquia para contrastar «os centros de poder ideológicos, financeiros e políticos» que hoje influenciam a vida social, disse o Papa na audiência geral de quarta-feira 9 de Setembro, na praça de São Pedro. Prosseguindo o ciclo de catequeses dedicadas à família, o Pontífice reflectiu sobre o «vínculo natural» desta última com a comunidade cristã

 

 

Prezados irmãos e irmãs, bom dia!

Hoje gostaria de chamar a nossa atenção para o vínculo entre a família e a comunidade cristã. É um vínculo, por assim dizer, «natural» porque a Igreja é uma família espiritual e a família é uma pequena Igreja (cf. Lumen gentium, 9).

A comunidade cristã é a casa daqueles que acreditam em Jesus como a fonte da fraternidade entre todos os homens. A Igreja caminha no meio dos povos, na história dos homens e das mulheres, dos pais e das mães, dos filhos e das filhas: esta é a história que conta para o Senhor. Os grandes acontecimentos dos poderes mundanos escrevem-se nos livros de história, e ali permanecem. Mas a história dos afetos humanos inscreve-se directamente no Coração de Deus; e é a história que permanece para sempre. Este é o lugar da vida e da fé. A família é o lugar da nossa iniciação – insubstituível, indelével – nesta história. Nesta história de vida plena, que acabará na contemplação de Deus por toda a eternidade no Céu, mas começa na família! Por isso a família é tão importante.

O Filho de Deus aprendeu a história humana nesta via, e percorreu-a até ao fim (cf. Hb 2, 18; 5, 8). É bom voltar a contemplar Jesus e os sinais deste vínculo! Ele nasceu numa família e ali «aprendeu o mundo»: uma oficina, quatro casas, uma aldeia insignificante. No entanto, vivendo por trinta anos esta experiência, Jesus assimilou a condição humana, acolhendo-a na sua comunhão com o Pai e na sua própria missão apostólica. Depois, quando deixou Nazaré e começou a vida pública, Jesus formou ao seu redor uma comunidade, uma «assembleia», uma com-vocação de pessoas. Eis o significado da palavra «igreja».

Nos Evangelhos, a assembleia de Jesus tem a forma de uma família, e de uma família hospitaleira, não de uma seita exclusiva, fechada: nela encontramos Pedro e João, mas também o faminto e o sedento, o estrangeiro e o perseguido, a pecadora e o publicano, os fariseus e as multidões. E Jesus não cessa de acolher e falar com todos, até com quantos já não esperam encontrar Deus na sua vida. É uma lição forte para a Igreja! Os próprios discípulos são eleitos para cuidar desta assembleia, desta família dos hóspedes de Deus.

Para que seja viva no hoje desta realidade da assembleia de Jesus, é indispensável reavivar a aliança entre a família e a comunidade cristã. Poderíamos dizer que a família e a paróquia são os dois lugares onde se realiza aquela comunhão de amor que encontra a sua derradeira fonte no próprio Deus. Uma Igreja verdadeiramente segundo o Evangelho não pode deixar de ter a forma de uma casa hospitaleira, sempre de portas abertas. As igrejas, as paróquias e as instituições, com as portas fechadas, não devem chamar-se igrejas, mas museus!

E hoje esta é uma aliança crucial. «Contra os “centros de poder” ideológicos, financeiros e políticos, voltemos a pôr as nossas esperanças nestes centros do amor evangelizador, ricos de calor humano, assentes na solidariedade, na participação» (Pont. Cons. para a Família, Gli insegnamenti di J.M.Bergoglio – Papa Francesco sulla famiglia e sulla vita 1999-2014, LEV 2014, 189), e também no perdão entre nós.

Hoje é indispensável e urgente fortalecer o vínculo entre família e comunidade cristã. Sem dúvida, é necessária uma fé generosa para ter a inteligência e a coragem de renovar esta aliança. Às vezes, as famílias hesitam, dizendo que não estão à altura: «Padre, somos uma família pobre e até um pouco arruinada», «Não estamos à altura», «Já temos tantos problemas em casa», «Não temos força». Isto é verdade; mas ninguém é digno, ninguém está à altura, ninguém tem força! Sem a graça de Deus, nada poderíamos fazer. Tudo nos é dado gratuitamente! E o Senhor nunca chega a uma nova família sem fazer algum milagre. Recordemos aquilo que Ele fez nas bodas de Caná! Sim, quando nos pomos nas suas mãos, o Senhor leva-nos a fazer milagres – aqueles milagres de todos os dias! – quando o Senhor está ali naquela família.

Naturalmente, também a comunidade cristã deve fazer a sua parte. Por exemplo, procurar superar atitudes demasiado directivas e funcionais, favorecendo o diálogo interpessoal, o conhecimento e a estima recíproca. As famílias tomem a iniciativa e sintam a responsabilidade de oferecer os seus dons preciosos em prol da comunidade. Todos nós devemos estar conscientes de que a fé cristã se vive no campo aberto da vida partilhada com todos; a família e a paróquia devem realizar o milagre de uma vida mais comunitária para a sociedade inteira.

Em Caná estava presente a Mãe de Jesus, a «Mãe do bom conselho». Ouçamos as suas palavras: «Fazei o que Ele vos disser» (cf. Jo 2, 5). Amadas famílias, estimadas comunidades paroquiais, deixemo-nos inspirar por esta Mãe, façamos tudo o que Jesus nos disser e encontrar-nos-emos diante do milagre, do milagre de cada dia. Obrigado!

No final da audiência, Francisco saudou os fiéis presentes, proferindo entre outras as seguintes palavras.

 

Amados peregrinos de língua portuguesa, saúdo-vos cordialmente a todos, de modo especial aos Bispos de Portugal que fazem a sua visita ad Limina: obrigado por terem vindo à Audiência. E com uma menção ainda dos fiéis das paróquias de Santo André, São Caetano do Sul, Pontinha e Mafamude. Nas Bodas de Caná, estava presente a Mãe de Jesus, que deu este conselho aos serventes: «Fazei aquilo que Ele vos disser». Irmãos e irmãs, deixai-vos inspirar por esta Mãe e encontrar-vos-eis perante o milagre. Assim Deus vos abençoe!

 

     Dirijo um pensamento especial aos jovens, aos doentes e aos recém-casados. Hoje celebramos a memória litúrgica do jesuíta São Pedro Claver, padroeiro das missões da África. Caros jovens, o seu serviço incansável aos últimos vos anime a opções de solidariedade aos necessitados; o seu vigor espiritual vos ajude, amados doentes, a enfrentar a cruz com coragem; o seu amor a Cristo vos sirva de modelo, queridos recém-casados, a fim de que o amor seja o centro da vossa nova família.