Recordando o encontro mundial de Filadélfia e o Sínodos dos bispos, o Papa concluiu – na audiência geral de quarta-feira 16 de Setembro, na praça de São Pedro – as reflexões sobre o matrimónio e a família.

 

 

Caros irmãos e irmãs, bom dia!

Esta é a nossa reflexão conclusiva sobre o tema do matrimónio e da família. Estamos na vigília de eventos bons e exigentes, que estão directamente ligados a este grande tema: o encontro mundial das famílias em Filadélfia e o Sínodo dos Bispos aqui em Roma. Ambos têm uma importância mundial, que corresponde à dimensão universal do cristianismo, mas também ao alcance universal desta comunidade humana fundamental e insubstituível, que é a família.

Esta passagem de civilização está marcada pelos efeitos a longo prazo de uma sociedade administrada pela tecnocracia económica. A subordinação da ética à lógica do lucro dispõe de meios consideráveis e de um enorme apoio mediático. Neste cenário, uma nova aliança do homem e da mulher torna-se não apenas necessária, mas estratégica para a emancipação dos povos da colonização do dinheiro. Esta aliança deve voltar a orientar a política, a economia e a convivência civil! Ela decide a habitabilidade da terra, a transmissão do sentimento da vida, os vínculos da memória e da esperança.

Desta aliança, a comunidade conjugal-familiar do homem e da mulher é a gramática generativa, o «nó de ouro», poderíamos dizer. A fé obtém-na da sabedoria da criação de Deus, que confiou à família não o cuidado de uma intimidade com o fim em si mesma, mas o emocionante desígnio de tornar o mundo «doméstico». A família está no início, na base desta cultura mundial que nos salva; ela salva-nos de muitos ataques, destruições e colonizações, como a do dinheiro ou das ideologias que ameaçam em grande medida o mundo. A família é a base para se defender!

Da Palavra bíblica da criação tiramos a nossa inspiração essencial, nas breves meditações de quarta-feira sobre a família. Desta Palavra podemos e devemos haurir novamente com amplitude e profundidade. É um grande trabalho que nos espera, mas também muito entusiasmante. A criação de Deus não é uma simples premissa filosófica: é o horizonte universal da vida e da fé! Não existe um desígnio divino diferente da criação e da sua salvação. Foi para a salvação da criatura – de cada criatura – que Deus se fez homem: «Para nós, homens, e para a nossa salvação», como reza o Credo. E Jesus ressuscitado é «o primogénito de toda a criação» (Cl 1, 15).

O mundo criado foi confiado ao homem e à mulher: o que acontece entre eles marca tudo. A rejeição da bênção de Deus chega fatalmente a um delírio de omnipotência que arruína tudo. A isto chamamos «pecado original». E todos vimos ao mundo na herança desta doença.

Não obstante isto, não somos malditos, nem estamos abandonados a nós mesmos. A este propósito, a antiga narração do primeiro amor de Deus pelo homem e pela mulher já continha páginas escritas com o fogo! «Porei ódio entre ti e a mulher, entre a tua descendência e a dela» (Gn 3, 15ª). Sãs as palavras que Deus dirige à serpente enganadora, encantadora. Mediante estas palavras, Deus marca a mulher com uma barreira protectora contra o mal, à qual ela pode recorrer – se quiser – em cada geração. Quer dizer que a mulher traz consigo uma bênção secreta e especial, para a defesa da sua criatura do Maligno! Assim como a Mulher do Apocalipse, que se apressa a esconder do Dragão o próprio filho. E Deus protege-a (cf. Ap 12, 6).

Pensai na profundidade que aqui se abre! Existem muitos lugares-comuns, às vezes até ofensivos, sobre a mulher tentadora que inspira o mal. Mas há espaço para uma teologia da mulher, à altura desta bênção de Deus, para ela e para a geração!

Contudo, a misericordiosa tutela de Deus em relação ao homem e à mulher nunca falta a ambos. Não nos esqueçamos disto! A linguagem simbólica da Bíblia diz-nos que antes de os afastar do jardim do Éden, Deus fez vestes de pele para o homem e para a mulher, e cobriu-os (cf. Gn 3, 21). Este gesto de ternura significa que até nas dolorosas consequências do nosso pecado Deus não quer que permaneçamos nus e abandonados ao nosso destino de pecadores. Esta ternura divina, este esmero por nós, vemo-lo encarnado em Jesus de Nazaré, Filho de Deus «nascido de mulher» (Gl 4, 4). E são Paulo diz ainda: «Quando ainda eramos pecadores, Cristo morreu por nós» (Rm 5, 8). Cristo, nascido de mulher, de uma mulher! É a carícia de Deus sobre as nossas feridas, erros e pecados. Mas Deus ama-nos tal como somos e quer fazer-nos progredir neste projecto; a mulher é mais forte e leva em frente este projecto.

A promessa que Deus faz ao homem e à mulher, na origem da história, inclui todos os seres humanos, até ao fim da história. Se tivermos fé suficiente, as famílias dos povos da terra reconhecer-se-ão nesta bênção. Contudo, quem se deixar comover por esta visão, independentemente do povo, nação ou religião de pertença, que se ponha a caminho connosco. Será nosso irmão e irmã, sem fazer proselitismo. Caminhemos juntos com esta bênção e com esta finalidade de Deus, de nos tornarmos todos irmãos na vida, num mundo que caminha em frente e que nasce precisamente da família, da união entre o homem e a mulher. Deus vos abençoe, famílias de todos os cantos da terra! Deus abençoe todos vós!

No final, Francisco saudou, entre outros, os fiéis de língua portuguesa.

 

Saúdo os peregrinos de língua portuguesa presentes nesta audiência, e através de cada um de vós, saúdo todas as famílias dos vossos países. Dirijo uma saudação particular aos membros da Fundação Fé e Cooperação de Portugal e aos grupos de brasileiros. Deixai-vos guiar pela ternura divina, para que possais transformar o mundo com a vossa fé. Deus vos abençoe!