4. A alegria do amor

“A alegria do amor que se vive na família é também o júbilo da Igreja”. É com estas palavras que se inicia o texto da Exortação Apostólica Pós-Sinodal Amoris Laetitia (A Alegria do amor), assinada pelo papa Francisco a 19 de março e publicada a 8 de abril de 2016.

Trata-se de um texto com 325 parágrafos, resultante da riqueza que os dois anos do caminho sinodal ofereceram, o que explica, como o próprio Papa afirma, a sua inevitável extensão. Devido à riqueza e complexidade dos temas abordados, os leitores são aconselhados a não fazerem uma leitura geral apressada, já que poderá ser de maior proveito aprofundarem pacientemente cada um dos nove capítulos, de modo a não ficarem pela ‘espuma’ do que é escrito e a sentirem-se chamados a cuidar com amor das vidas das famílias, porque elas não são um problema, mas, sobretudo, uma oportunidade para o futuro da própria humanidade (Cf nº 7).

O texto começa por uma abertura inspirada na Sagrada Escritura, com a qual se quer dar o tom que estará presente em todo o seu desenvolvimento. A partir desse enquadramento olha-se, depois, para a situação atual das famílias, de modo a manter os pés bem assentes na terra. O anúncio do Evangelho da Família, como lembra o Papa, tem de ser feito às famílias reais e não àquelas que gostaríamos que existissem. Só partindo da realidade poderemos caminhar em direção ao horizonte proposto por Deus. Este olhar a realidade tem, em todo o documento, a marca da misericórdia. De facto, o convite é olhar para as famílias, e em especial para aquelas que estão feridas e em situação de fragilidade, a partir do próprio olhar de Deus. O Papa explica a razão desta atitude:

“Esta Exortação adquire um significado especial no contexto deste Ano Jubilar da Misericórdia, em primeiro lugar, porque a vejo como uma proposta para as famílias cristãs, que as estimule a apreciar os dons do matrimónio e da família e a manter um amor forte e cheio de valores como a generosidade, o compromisso, a fidelidade e a paciência; em segundo lugar, porque se propõe encorajar todos a serem sinais de misericórdia e proximidade para a vida familiar, onde esta não se realize perfeitamente ou não se desenrole em paz e alegria.” (nº 5)

A partir deste olhar, o Papa relembra elementos essenciais do pensamento da Igreja sobre o matrimónio e a família, seguindo-se uma reflexão sobre a beleza do amor como núcleo central dessas realidades. São, depois, apresentados alguns caminhos pastorais para ajudar a construir famílias sólidas e fecundas segundo o plano de Deus. À educação dos filhos é também dada uma atenção especial, bem como se faz um convite a acompanhar, discernir e integrar a fragilidade. Finalmente são traçadas breves linhas de uma espiritualidade familiar.

De um modo geral, julgo que é possível dizer que, neste texto, o papa Francisco parte da realidade, sem a mascarar; propõe o projeto de Deus, sem o reduzir; incentiva a procurar caminhos de discernimento que ajudem, sem condenar, a aproximar a realidade do horizonte oferecido por Deus. Em todo este caminho destaca-se, de um modo inequívoco, a beleza do amor e da proposta cristã sobre a família, afirmando-se explicitamente que “o bem da família é decisivo para o futuro do mundo e da Igreja” (nº 31)

A nota final é de esperança e encorajamento:

 “[…]. Avancemos, famílias; continuemos a caminhar! Aquilo que se nos promete é sempre mais. Não percamos a esperança por causa dos nossos limites, mas também não renunciemos a procurar a plenitude de amor e comunhão que nos foi prometida.” (325)

Ousemos percorrer este caminho sem medo e com alegria.

 

 

Escrito por Juan Ambrósio e publicado em Jornal da Família, maio de 2016