3. Ação de Graças

Partilho hoje convosco uma experiência de beleza e de bondade, com a qual quero igualmente dirigir a minha voz ao Senhor da vida para lhe dar graças. No passado dia 13 de março vivi uma jornada muito especial ao ter a oportunidade de celebrar o cinquentenário da morte de Monsenhor Alves Brás com a comunidade das Cooperadoras em Madrid. Não pude permanecer muito tempo junto destas minhas queridas amigas, foi pois uma jornada rápida mas muito intensa, que me fez reviver momentos importantes da minha vida e aprofundar a relação e amizade que a elas me une.

 

Todos os que partilhamos este espaço sabemos bem que as Cooperadoras, na fidelidade ao seguimento de Jesus concretizado no carisma que o Espírito através do seu Fundador lhes incutiu, são um grupo de mulheres consagradas, que aceitaram viver as suas vidas como resposta ao desafio de transformar o mundo numa casa habitável por todos, onde não haja lugar para ‘descartados’ nem ‘sobrantes’, palavras que tomo do papa Francisco e que têm a força impressionante de deixar bem vincado o que querem significar.

Esta missão parece-me hoje estar em plena sintonia com aquele que é um dos grandes desafios das Igreja no mundo atual: apoiar, dignificar e promover a família como célula vital não só da sociedade, mas da própria humanidade. Nessa linha parece-me que o horizonte de trabalho definido pelo Instituto para os próximos anos, e tão bem expresso no lema «no coração do mundo com o coração de Deus ao serviço da família», não poderia ter sido mais acertado e profético. Sinceramente estou convencido de que a urgente renovação do mundo, que está a exigir a não menos urgente e constante renovação das nossas comunidades cristãs, passa pela família.

Para muitos isto será uma utopia inalcançável, para nós que temos a sorte de conhecê-las, e seguimos o mesmo Jesus, sabemos bem que se trata de um horizonte não só possível, mas querido pelo próprio Deus e por isso por Ele suportado e, com Ele, já começado. Foi isso mesmo que pude, mais uma vez, (re)viver em Madrid.

Tenho bem presente o testemunho que foi dado por aquela idosa que já está na residência das Cooperadoras há largos anos. Ela leu um texto onde falou da sua experiência e da sua vida. Ficou claro que não se tratava de alguém que se sentia a habitar uma casa estranha. Aquela era a sua casa, a casa onde ela já se sentia em família.

De igual modo tenho bem presente o grupo de pequenas crianças que, em palco, fizeram uma representação, durante a qual foram colocando várias ofertas sob a fotografia de Monsenhor Alves Brás. A felicidade irradiava dos seus olhos e contagiava toda a gente, sinal de que se sentiam muito bem naquele ambiente. E o mesmo posso dizer daquilo que presenciei da parte dos pais. Pareciam ainda mais agitados que os seus filhos, tal foi a correria para registar o momento nos telemóveis e câmaras fotográficas, mas também eles me testemunharam a serenidade e tranquilidade com que veem os seus filhos, certamente o tesouro mais precioso que têm, serem ajudados a crescer naquela casa.

Tudo isto me fez lembrar o que eu próprio pude experimentar durante o tempo que vivi em Madrid. Também eu me senti em casa e em família. E não fosse isso, as saudades da minha família e da minha casa, em Lisboa, teriam sido muitíssimo mais difíceis de suportar.

E afinal nada disto nos pode estranhar, pois quem tem como horizonte da missão a família, também a tem como fundamento do seu agir e presença constante no caminhar.

Foi verdadeiramente uma jornada de beleza e de bondade junto daquelas que, 50 anos depois, continuam a celebrar e a promover a vida em família.

 

Escrito por Juan Ambrósio e publicado em Jornal da Família, abril de 2016