Não se tornou hábito, ainda, mas já impera a relativa frequência da notícia, à escala coletiva e à dimensão nacional, de que num lugarejo remoto, num bairro citadino ou da periferia, a morte ceifou a vida da mulher ou companheira, sendo autor o marido ou companheiro como agora mais buriladamente se lhes chama.

 

É um fenómeno de máxima dureza, que atordoa e, genericamente, faz doer, interroga e lança tristemente para o porquê do contexto, motivos, razões, se as há, causas e efeitos, juízos apressados de condenação e agita consciências preconceituosas.

A mulher na sociedade portuguesa tem merecido um reconhecimento lento e tardio, ainda muito vazio de sentido, que, a todos, ou sequer a uma maioria não causa espanto sequer reprovação ou refinada censura.

Num passado não muito longínquo, o acesso ao ensino, mesmo básico, liminar, era restrito a um número muito restrito de crianças, mas do sexo feminino ainda mais; a escolaridade nem era obrigatória e nem universal.

Nos meios populacionais mais densos e nas camadas sociais mais bafejadas pelo dinheiro, costumava dizer-se que o saber ler e escrever, e se possível francês, tocar piano e bordar prendavam a jovem, bom partido, que pretendentes não haviam de faltar.

E quando porventura uma ou outra ascendia à universidade, ainda havia um qualquer lente, daqueles de óculos de haste de tartaruga e vidro mais redondo que o sol, que, por entre um sorriso escarninho e amarelo, aconselhava, frequentemente, o retorno à casa paterna, onde a jovem estava melhor a “coser meias”, como, todo-poderoso e abusador, se descaía como um alarve.

E quando fugindo à pobreza e miséria do meio rural ou à exploração fabril, procurava novo rumo de vida nos grandes centros muitas vezes caía na mão do “patrão”, do senhor da casa, que, por entre promessas e de mudança para melhor, acabaria qual abutre por lhe consumir o corpo frágil e bloquear a mente iludida, sobrevindo, então, a gravidez, o filho de “pai incógnito”, que a senhora, a “patroa” repudiava sem tréguas.

E o despedimento, iminente, consumido, atirava para o banco da rua, a pobre, com a criança nos braços, cedendo à entrega a esmo, às doenças associadas, tuberculose e similares, à morte prematura, ao abandono, um espetro miserável, mas que nos anos 50 pairavam, entre nós, nos antros legalizados, em lugar de medidas de proteção à criança, apoio à mãe indefesa, responsabilização por alimentos e assunção de paternidade pelo pai, educação e ensino, fraca insurgência merecendo a não ser, entre poucos mais, do fundador da Obra de Santa Zita, Monsenhor Alves Brás, que corajosamente denunciou, mas indo mais longe, criou casas de acolhimento, ensino, educação e proteção de tais mulheres, para além de lutar arduamente pela adoção de medidas legais, sua criação e alteração.

Seguiram-se, depois, os caminhos da emigração pelo mundo fora e, concomitantemente, os da guerra colonial; agora a sós, por entre um véu negro de angústia, a cobrir-lhes a alma, por entre a esperança de uma já alcançada melhoria de condições e futuro ou, por outro lado, retorno daquele evitável conflito, com vida, ainda que, quantas vezes, dilacerada, incompleta e sem reconhecimento de um inglório derramar de sangue e sacrifício, pela pior razão, de uma juventude em flor.

A confusão ideária, intencional e deliberada a que se seguiu, com a estimulação da máxima liberdade, para uma verdadeira bebedeira de isenção de deveres, num mar de paroxismo e ilusão, homens e mulheres deste país, usando mal o bem que lhes foi outorgado e de há tantos anos privados baralharam-se, amoleceram as consciências, a flacidez do corpo de valores de outrora instalou-se, um tecido mole embebeu-nos a todos, não custando a ofensa, relativizando-se o mal, quase seja ele qual for.

A escola primeira de aprendizagem da distinção entre o bem e o mal quase nem existe; o amor conjugal ascendeu a um capitel temporário, de duração precária e oscilante; os melhores sentimentos que o douravam e exornavam já pouco interesse se acha no seu cultivo, quando não até se ostracizam.

As crianças nascem num mundo de conflitualidade e aquele corpo sólido e uno de outrora que os pais formavam tanto na abastança como na dificuldade ruiu, não vale a pena esconder que assim é.

E como a personalidade da criança se forma e sedimenta com o modelo, pelo exemplo, não se pense que dos nossos jovens venham o respeito, a obediência – que não sabem o que isso é – e a tolerância, daí a pluriofensa entre crianças, aos professores e a vergonhosa agressão que os namorados, eles e elas, praticam em número considerável.

As pessoas perderam o respeito que se auto merecem; se assim não fosse não se concebia o exibir do corpo nu, em pose que ultrapassa o erotismo e se sediar na pornografia, quantas vezes só pelo dinheiro, daí até a nossa tristeza, nem sequer se apercebendo desde logo que, como mulheres, ao oferecerem o corpo aos meios de comunicação para multidões, se estão a aviltar, a empobrecer e, mais gravemente do que isso, a empobrecer os seus destinatários, ávidos de satisfação sem limite e movidos por egoísmo feroz, só interessados em desfrutar da exposição intencional do corpo alheio, qual objeto de negócio em comércio.

E essa relação de causa-efeito potencia uma enorme desagregação da sociedade, atravessando-a transversalmente, começando e desenvolvendo-se pelos mais e menos jovens num emaranhado de sentimentos a todos atingindo e prejudicando o coletivo.

O agudizar da crise económica entre nós, já com uma crise de valores, ou sem eles, enquistada, leva à perda de juízo crítico e de autocensura, isola-as, relega-as para um mundo próprio onde se julgam senhores absolutos, sem contas a prestar, ao descontrole emocional e de auto-hétero-relação, esmorece sentimentos antes menos postos em crise, muito especialmente para com os seres mais indefesos e que são as crianças, os doentes, idosos e as mulheres. Donde o virem a lume um número aterrador de abusos contra crianças, casos de negligência e de dolo funcional nos serviços públicos e quase públicos e de violência doméstica em que a quase sempre vítima é a mulher.

O homem deixa-se enganar de mil e uma maneiras nas palavras do Papa Francisco e uma delas é olhar só para si; o homem do nosso tempo, ainda segundo o Sumo Pontífice, afastou-se da “experiência do perdão”, que “vai rareando cada vez mais” na nossa cultura, e quando assim sucede é que ele se torna mais fraco, julgando-se, erradamente, mais forte, ao atentar quantas vezes contra o mais débil, qualquer que seja a forma.

O homem do nosso tempo perdeu a coragem de olhar o mundo, o seu mundo e o dos que o rodeiam, com esperança, donde a incursão pela violência sobre a mulher, a companheira…

Escrito por Armindo Monteiro e publicado em Jornal da Família, abril de 2016