(Artigo Do Cón. Jorge Teixeira da Cunha, publicado em Família Cristã, abril 2015)

Este mês reflectimos sobre mais um tema abordado nos Lineamenta. «A Família no Plano Salvífico de Deus». «A vocação da criatura ao amor entre homem e mulher recebe a sua forma completa do acontecimento pascal de Cristo Senhor, que se entrega sem reservas, fazendo da Igreja o seu Corpo místico. Deste modo, haurindo da graça de Cristo, o matrimónio cristão torna-se a vereda pela qual quantos são chamados caminham rumo à perfeição do amor, que é a santidade».

 

A família é uma realidade muito sólida e muito frágil. Muito sólida, pois todos os seres humanos nascem no seio de uma família. É impossível que seja de outro modo: todos somos filhos de alguém e parentes de alguém. É muito frágil também, pois a natureza deixa muitos aspectos ao arbítrio da nossa liberdade. Podemos pensar de muitas formas o matrimónio e as outras relações familiares. Por isso, todas as sociedades regulam a instituição familiar. Isso é necessário, pois há um excedente não regulado pela natureza que pode seguir caminhos de violência e de opressão de uns membros sobre os outros.

A Igreja sente-se responsável por difundir à sua volta a luz da fé sobre a família. É esse o propósito do sínodo dos bispos que vai ter lugar no próximo outono. Vejamos alguns aspectos desse contributo, na linha do texto preparatório dessa reunião mundial.

 

UMA LUZ ANTIGA E NOVA SOBRE A FAMÍLIA

Existe na Escritura uma antiga tradição que nos fala da família, num contexto personalista. Essa tradição é preciosa, pois mostra um projecto que a razão crente discerne desde os começos do mundo. Os comentadores cristãos mais perspicazes observam como o ser humano é imagem de Deus, não de forma individual, mas integrada na relação familiar. A imagem de Deus no mundo é constituída por Adão, Eva e Seth, o filho de ambos. Desse modo, ganham sentido pleno as definições iniciais do ser humano como homem e como mulher, o seu destino à vida matrimonial e à fecundidade.

Essa bela tradição personalista está nos primeiros capítulos do Livro do Génesis, às vezes esconde-se, mas vai emergindo aqui e além, como é o caso da bela narrativa do matrimónio de Tobias e de Sara, no epitalâmio do Cântico dos Cânticos e em alguns passos dos livros sapienciais.

Quando, nas suas palavras e nos seus gestos, Jesus explicita o evangelho da família, é por um regresso inovador a essa memória. Mas Jesus vai mais além. Ele inclui as crianças no universo de valor e faz delas não um ser humano em miniatura, mas pessoas dignas e valorizadas. E vai mais longe quando atribui às crianças uma capacidade modelar de abertura ao Reino. Aí radica um elemento fundamental em que assenta a nossa civilização.

A tradição cristã opera, pois, a reunião de natureza e de graça para pensar a realidade da família. Esta começa continuamente no matrimónio, um lugar sacramental em que o divino aflora à relação humana. O amor matrimonial floresce na pessoa dos filhos que são criaturas da bondade divina que vêm
à luz mediante o ministério da paternidade e da maternidade. A família é uma realidade originária que antecede a sociedade política e tem precedência valorativa sobre ela.

 

UMA HISTÓRIA DE LUZ E DE SOMBRA

Este propósito luminoso que o olhar da fé descobre na origem da família passa paulatinamente para o terreno da história humana. Sabemos como a família evoluiu muito lentamente. A própria Bíblia, com o seu realismo, narra episódios de incesto, refere instituições imperfeitas como a poligamia e o respeito da esposa, conhece relações de poder inaceitáveis do homem sobre a mulher e sobre a criança, lamenta diversos tipos de violência doméstica. Relata até sacrifícios humanos em que os adultos matam crianças em nome de uma religião primitiva. A teologia, em conformidade com a Escritura, fala de uma ameaça contínua da relação familiar a que chama pecado. Por isso, a família necessita continuamente da redenção e da graça.

Porém, a fermentação da história pela fé é um dado comprovável. A instituição familiar conhece uma melhoria desde a antiguidade até aos nossos dias. Entre os factores dessa melhoria podemos encontrar a afirmação do matrimónio personalista e monogâmico, a fundação do matrimónio no amor dos esposos, o cuidado dos filhos pelos pais. Estes valores remontam, sem dúvida, à tradição judaico-cristã.

Mas há ainda muito a fazer, e as preocupações da Igreja são fundamentais para esta evolução positiva. Entre as coisas que seria necessário melhorar, podemos lembrar a qualidade da relação conjugal, pois corre o risco de ser pensada de uma forma funcionalista, apenas como um suporte afectivo em que o valor sacramental parece rasurado. A fecundidade parece ocupar um lugar secundário na vida dos casais, pelo menos no mundo desenvolvido da Europa e da América do Norte. A solidariedade das gerações sobretudo no que toca ao cuidado das pessoas anciãs, deixa também muito a desejar nos dias que correm. O porvir da família tem ainda muito caminho a fazer para realizar os valores do Reino.

 

ALGUMAS NORMAS MORAIS EM REVISÃO

Para encontrar as justas preocupações dos nossos contemporâneos e de muitos crentes, parece conveniente que a moral cristã encontre uma formulação mais conforme com os verdadeiros valores da sua tradição. O próximo sínodo certamente irá actualizar algumas normas. Entre essas, damos os exemplos que nos parecem mais urgentes.

O primeiro exemplo seria a necessidade de encontrar uma forma de admitir à plenitude da comunhão sacramental as pessoas recasadas, que são em grande número nos nossos dias. Sem lançar mão da indissolubilidade do matrimónio, que é um valor irrenunciável do sacramento do Matrimónio, poderia encontrar uma solução casuística para pessoas que fracassaram, vivem agora uma relação estável e sofrem por não poderem celebrar os sacramentos.

O segundo e o terceiro exemplos dizem respeito à fecundidade. Parece oportuno também encontrar uma norma que permita aos casais inférteis poderem beneficiar das ajudas médicas, sem o medo causado pela desconfiança que há na moral a respeito dessas ajudas. Aspecto urgente seria, a nosso ver, formular de outro modo a norma da regulação da fecundidade, de modo que uma velha norma quase esquecida (Humanae vitae, nº 14) pudesse simultaneamente mostrar a importância da abertura dos casais à vida dos filhos e a responsabilidade de usar um método conforme com a moral, no caso de terem de diminuir temporariamente a fecundidade.

No próximo sínodo, a Igreja deseja muito robustecer a vontade da humanidade de hoje para não esmorecer na sua tarefa de configurar a família à luz dos princípios personalistas do Evangelho e de uma razão humana aberta aos valores da transcendência.