A Jornada da Família deste domingo foi o maior evento popular italiano desde a Resistência ao nazi-fascismo na Segunda Guerra Mundial

 

1 fevereiro 2016 – Existe uma imagem memorável na história do cinema de animação da Disney. Em “Os 101 Dálmatas”, quando se espalha a notícia do rapto dos cãezinhos por uma megera fanática por peles, toda a comunidade canina de Londres começa a emitir insistentes e peculiares uivos que, no coração da noite, se transformam num verdadeiro grito coletivo de emergência.

Tem início então uma corrida de solidariedade para salvar a nutrida ninhada de filhotes indefesos, que, graças a uma improvisada, mas feroz força-tarefa, consegue levar a história rocambolesca a um final feliz, devolvendo aos pequenos o direito de ser criados pela mamãe e pelo papai.

Essa animação, que encantou os filhos de três gerações, tem um forte valor pedagógico: quando está em perigo a segurança e a dignidade das crianças, dispara o alarme vermelho, a comunidade se move, cada indivíduo para de pensar somente em si e entende que, ao lado do “eu”, existe um “nós”, que representa o bem comum.

Nos últimos 2 ou 3 anos, na Itália, foi posto em marcha um mecanismo parecido. Ideologias muito questionáveis, em nome do alegado direito de uma restritíssima elite, vêm questionando dois direitos fundamentais das crianças: o de ser criadas e educadas por um casal formado por homem e mulher, sem se tornarem objeto de comércio e de lucro.

Muitas famílias em todo o país criaram uma rede de solidariedade entre si, dissipando o estereótipo da família italiana como um “ente autorreferencial”, ou pior ainda, como um “clã” amoral, portador de valores e princípios em concorrência com os da sociedade civil.

Utilizando a grande caixa de ressonância das redes sociais, milhares de mães italianas trabalharam em equipe, levando a sério o destino não só de seus filhos, mas de centenas de milhares de outras crianças. Um fenômeno que envolveu a todos, inclusive pessoas com filhos já crescidos ou sem filhos; inclusive jovens que ainda acreditam num futuro melhor para si e para os filhos que terão; inclusive homossexuais, que talvez nunca tenham filhos e que, em todo caso, rejeitam as técnicas de procriação que a ciência torna disponíveis hoje.

Após uma fase inicial, marcada pelo pânico e pela apreensão de muitos, veio o momento da decisão e da ação: nasceram a Manif Pour Tous Itália (mais tarde rebatizada de Geração Família), as Sentinelas em Pé e outras comissões dispostas a conter os avanços da teoria de gênero. E o sucesso não faltou: projetos de lei contra uma alegada homofobia genérica foram arquivados e várias administrações regionais (Lombardia, Vêneto, Ligúria, Abruzzo, Basilicata) deixaram de lado a ideologia de gênero nos currículos escolares.

Longe de continuar sendo vozes isoladas e sem coordenação entre si, as várias associações conseguiram milagrosamente criar sinergias e evitar protagonismos. Juristas, psicólogos e educadores começaram a percorrer as paróquias e escolas da Itália para sensibilizar os menos informados. A maioria dos meios de comunicação esnobou o fenômeno, mas não faltaram órgãos da imprensa (Zenit é um deles) que prestaram atenção e deram voz aos líderes do movimento nascente.

De poucos milhares de participantes nos primeiros eventos em 2013, chegou-se a dois milhões neste domingo no Circo Massimo, em Roma. Um evento popular que não teve a intervenção de nenhuma grande potência, nem da política, nem da Igreja. Nem os partidos, nem os bispos, nem os movimentos de leigos (exceto o Caminho Neocatecumenal) desempenharam papel-chave na mobilização; aliás, em alguns casos, o ceticismo prevaleceu até recentemente.

Os primeiros gestos de apoio episcopal e parlamentar em oposição ao projeto de lei sobre uniões civis homossexuais só começaram após as manifestações de 20 de junho de 2015 na Piazza San Giovanni, em Roma, quando os números começaram a se tornar “oceânicos”.

Agora que começa a discussão no parlamento, a responsabilidade está inteiramente nas mãos da política. Alguns senadores de centro-esquerda, provavelmente indecisos, serão os fiéis da balança: em suas mãos não está simplesmente a aprovação de um projeto, mas o destino de um país que ainda pode ser salvo de perigosos desvios antropológicos e educacionais, cujas verdadeiras consequências são muito difíceis de prever.

O movimento que está ganhando terreno é anti-ideológico, apolítico, aconfessional e intergeracional, mas a presença dos muito jovens e das famílias “sub 40” é significativa e predominante. No entanto, não se trata de um “novo 68” ou um “’68 ao contrário”.

O protesto estudantil de meio século atrás era o resultado de uma mudança originada de doutrinação mais ou menos sutil, operada por elites intelectuais da época sobre as gerações mais jovens. O fenômeno encheu as praças, mas seus números nunca foram comparáveis aos do Circo Massimo nem aos da Champs-Elysées, em Paris, preenchida pelos franceses em oposição à lei Taubira, equivalente em seu país ao projeto italiano pró-agenda de gênero e aborto.

Estamos, portanto, diante do maior evento popular já registrado na Itália desde os tempos da Resistência ao nazi-fascismo. Setenta anos atrás, lutava-se pela liberdade do país; hoje, luta-se pela própria identidade do país, pelas bases naturais sem as quais uma sociedade se torna suscetível de uma implosão pavorosa.

O fato é que a política está enfrentando hoje um divisor de águas: ouvir ou não ouvir o povo? Como em 1943-1945, estão em jogo a democracia e a liberdade de um país. Acima de tudo, porém, está em jogo a sua humanidade.