Enquanto o sonho de um velho continente sem fronteiras ameaça morrer sob os golpes da crise migratória, emergem sentimentos, valores, ideais e fatos que mostram que a solidariedade existe e resiste

 

1 fevereiro 2016 – Ministros da Suécia, com seu governo, decidiram expulsar e deportar 80.000 estrangeiros. A medida foi anunciada em 27 de janeiro, o dia em que, há 71 anos, os soldados do Exército Vermelho entravam no campo de Auschwitz e revelavam ao mundo o horror do Holocausto. A decisão veio num momento em que, no mar Egeu, mais um barco se espatifava nas rochas, afogando 24 migrantes, entre os quais 10 crianças. Foi um anúncio que se misturou à vontade da Hungria de levantar um muro na fronteira com a Romênia para bloquear o fluxo de refugiados, ou da Macedônia de fazer o mesmo nas fronteiras com a Grécia. Ao mesmo tempo, a Dinamarca decretou regras para o confisco de bens dos refugiados.

Talvez sejam arriscadas as comparações com os tempos escuros do nazismo, mas fica claro o fracasso da Europa: a União, que, graças a Schengen, tira poder dos funcionários aduaneiros e das polícias locais, tinha de ser algo mais que um mero acordo multilateral focado apenas em criar uma enorme plataforma comercial. Mas foi a isso que ela se reduziu, implodindo não sob o peso dos imigrantes, mas da incapacidade manifesta de lidar, gerir e regulamentar um fenômeno que, em parte, a própria Europa contribuiu para criar quando promoveu o uso de armas em territórios como o Iraque, a Líbia e a Síria.

Paradoxalmente, é essa falta de governo vestida de governo que alimenta a discriminação e a violência, gerando conflitos. Nas palavras de Bauman, “o medo impulsivo estimulado pela visão de pessoas que trazem consigo perigos inescrutáveis compete com o impulso moral causado pela visão da miséria humana”. Palavras que pintam um quadro sombrio, no qual, felizmente, florescem as sementes de esperança plantadas por aqueles que não desistem.

A solidariedade existe e resiste, e brota não na Europa das instituições, mas na dimensão mais concreta da cotidianidade. Seus protagonistas são os jovens que, em Nice, distribuem refeições quentes para os transeuntes que descem das montanhas; os estudantes de Milão, que, na Estação Central, se alternam dia e noite para dar informações aos migrantes em trânsito; seus pares gregos da ilha de Lesbos, que se aventuram em botes de borracha para salvar náufragos lançados às ondas por mercadores de gente. E, com esses jovens, tantos outros que, diferentes dos governos nacionais, fazem surgir sentimentos, valores, ideais e atos concretos.

Morre a Europa dos governos; surge a Europa dos europeus.