Vaticano, 28 Out. 15 / 10:29 am (ACI).- “O Senhor deseja que todos os homens se reconheçam irmãos e vivam como tais, formando a grande família humana na harmonia da diversidade”. Foram as palavras do Papa Francisco na Audiência Geral desta quarta-feira na Praça de São Pedro, dedicada aos 50 anos da histórica Declaração Nostra aetate, documento do Concílio Vaticano II que supôs um antes e um depois na relação às demais confissões religiosas, sobretudo, o judaísmo. Tratou-se, portanto, de uma Audiência inter-religiosa.

 

O Santo Padre, depois de escutar as saudações do Presidente do Pontifício Conselho para o Diálogo Inter-religioso, o Cardeal Jean Louis Tauran, e do Presidente do Pontifício Conselho para a Promoção da Unidade dos Cristãos, o Cardeal Kurt Koch, falou da necessidade de convivência pacífica em nossos dias.

“O conhecimento, o respeito e a estima recíprocas constituem a via que, se vale de maneira peculiar para a relação com os hebreus, vale analogamente também para as relações com as outras religiões”, assegurou o Pontífice.

“Penso em particular nos muçulmanos, que – como recorda o Concílio – adoram ao Deus único, vivente e subsistente, misericordioso e onipotente, criador do céu e da terra, que falou aos homens”, disse parafraseando a própria Nostra aetate.

“O diálogo de que temos necessidade tem que ser aberto e respeitoso” porque “então se revelará frutuoso”.

Assim, “o respeito recíproco é condição e, ao mesmo tempo, fim do diálogo inter-religioso: respeitar o direito de todos à vida, à integridade física, às liberdades fundamentais, quer dizer, à liberdade de consciência, de pensamento, de expressão e de religiões”.

Francisco afirmou que “o mundo olha os não crentes, exorta-nos a colaborar entre nós, e com os homens e mulheres de boa vontade que não professam nenhuma religião, pede-nos respostas efetivas sobre numerosos temas: a paz, a fome, a miséria que aflige milhões de pessoas, a crise ambiental, a violência, em particular aquela que se comete em nome da religião, a corrupção, o degrado moral, a crise da família, da economia, e sobretudo da esperança”.

“Nós, os crentes, não temos receitas para estes problemas, mas temos um grande recurso: a oração”, acrescentou.

“A oração é o nosso grande tesouro, ao qual nos dirigimos segundo as respectivas tradições, para pedir os dons aos quais a humanidade anseia”.

O Santo Padre manifestou que “por causa da violência e do terrorismo, se difundiu uma atitude de suspeita ou até mesmo de condenação das religiões”. Mas, “na verdade, nenhuma religião permanece imune ao risco de separações fundamentalistas ou extremistas em indivíduos ou grupos” pelo que “se precisa observar os valores positivos que eles vivem e propõem, e que são fonte de esperança”.

Em concreto, “trata-se de elevar o olhar para ir mais à frente” uma vez que “o diálogo sobre o respeito confiante pode levar sementes de bem que, às vezes, se convertem em brotos de amizade e de colaboração em muitos campos e, sobretudo, no serviço aos pobres, aos pequenos, aos anciões, na acolhida aos migrantes, na atenção a quem é excluído”.

“Podemos caminhar juntos cuidando uns dos outros”, sublinhou.

No transcurso de seu discurso, Francisco saudou as numerosas pessoas que participaram do encontro e que pertenciam a outras confissões religiosas. “O Concílio Vaticano II foi um tempo extraordinário de reflexão, diálogo e oração para renovar o olhar da Igreja Católica sobre si mesmo e sobre o mundo”, explicou.

Em particular, “a mensagem da Declaração Nostra aetate é sempre atual”. O documento expõe “a crescente independência dos povos; a busca humana de um sentido da vida, do sofrimento, da morte, questões que sempre acompanham nosso caminho; a origem comum e o destino comum da humanidade; a religião como busca de Deus ou do Absoluto; a Igreja aberta ao diálogo com todos e ao mesmo tempo fiel à verdade em que crê, começando por essa salvação oferecida a todos que têm sua origem em Jesus”.

O Papa recordou o encontro inter-religioso celebrado em 27 de outubro de 1986 na cidade italiana de Assis, onde nasceu São Francisco. “Foi querido e promovido por São João Paulo II, o qual um ano antes, há trinta anos, dirigindo-se aos jovens muçulmanos em Casablanca (Marrocos), desejou que todos os crentes em Deus favoreçam a amizade e a união entre os homens e os povos”.

“A chama acesa em Assis se estendeu em todo mundo e constitui um sinal permanente de esperança”, destacou.

Uma das mudanças produzidas na relação entre as religiões neste tempo é que “indiferença e oposição tornaram-se colaboração e benevolência. De inimigos e estranhos, nos tornamos amigos e irmãos”.

“O Concílio traçou o caminho: ‘sim’ ao redescobrimento das raízes hebraicas do Cristianismo; ‘não’ a toda forma de antissemitismo e condenação de toda injúria, discriminação e perseguição que derivam”.

O Papa terminou sua intervenção recordando o próximo Jubileu da Misericórdia que começará em 8 de dezembro, Solenidade da Imaculada Conceição. “É uma ocasião propícia para trabalhar juntos no campo das obras de caridade. E neste campo, podem se unir a nós tantas pessoas que não se sentem fiéis ou que estão em busca de Deus e da verdade”.

“Devemos nos propor sempre deixar um mundo melhor do que o encontramos” através de “pequenos gestos de nossa vida diária”, adicionou.

“Quanto ao futuro do diálogo inter-religioso, a primeira coisa que devemos fazer é rezar” porque “sem o Senhor nada é possível; om Ele, tudo se torna possível!”.

Ao final, o Papa convidou os pressente a rezar em silencio segundo a religião que professasse cada um.

Francisco recordou – como já havia feito na terça-feira por meio de um telegrama – as vítimas do terremoto que causou ao menos 300 mortos no Afeganistão e Paquistão. “Estamos próximos à população do Paquistão e Afeganistão golpeadas por um forte terremoto, que causou numerosas vítimas e danos enormes”.

“Rezemos pelos mortos e por seus familiares, por todos os feridos e os desabrigados, implorando de Deus alívio no sofrimento e coragem na adversidade. Não falte a esses irmãos a nossa concreta solidariedade”.