Regressamos ao passado, mais precisamente a novembro de 1981, e recordamos a Exortação Apostólica Familiaris consortio, do Papa João Paulo II, a qual é dirigida ao episcopado, clero e fiéis de toda a Igreja Católica sobre a função da família cristã no mundo de hoje (de há 33 anos e da actualidade).

 

 A propósito da preparação para o Matrimónio, refere-se no nº 66: «A preparação para o Matrimónio deve ver-se e actuar-se como um processo gradual e contínuo. Compreende, de facto, três momentos principais: uma preparação remota, outra próxima e uma outra imediata.

A preparação remota tem início desde a infância, naquela sábia pedagogia familiar, orientada a conduzir as crianças a descobrirem-se a si mesmas como seres dotados de uma rica e complexa psicologia e de uma personalidade particular com as forças e fragilidades próprias. É o período em que é infundida a estima por todo o valor humano autêntico, quer nas relações interpessoais, quer nas sociais, com tudo o que significa para a formação do carácter, para o domínio e recto uso das inclinações próprias, para o modo de considerar e encontrar as pessoas do outro sexo, etc. É pedida, além disso, especialmente aos cristãos, uma sólida formação espiritual e catequética, que saiba mostrar o Matrimónio como verdadeira vocação e missão sem excluir a possibilidade do dom total de si a Deus na vocação à vida sacerdotal ou religiosa.

É nesta base que, em seguida e mais amplamente, se porá o problema da preparação próxima, que – desde a idade oportuna e com adequada catequese, como em forma de caminho catecumenal – compreende uma preparação mais específica, quase uma nova descoberta dos sacramentos. Esta catequese renovada de todos os que se preparam para o Matrimónio cristão é absolutamente necessária, para que o sacramento seja celebrado e vivido com rectas disposições morais e espirituais. A formação religiosa dos jovens deverá ser integrada, no momento conveniente e segundo as várias exigências concretas, numa preparação para a vida a dois que, apresentando o Matrimónio como uma relação interpessoal do homem e da mulher em contínuo desenvolvimento, estimule a aprofundar os problemas da sexualidade conjugal e da paternidade responsável, com os conhecimentos médico-biológicos essenciais que lhe estão anexos, e os leve à familiaridade com métodos adequados de educação dos filhos, favorecendo a aquisição dos elementos de base para uma condução ordenada da família (por exemplo, trabalho estável, disponibilidade financeira suficiente, administração sábia, noções de economia doméstica).

A preparação imediata para a celebração do sacramento do Matrimónio deve ter lugar nos últimos meses e semanas que precedem as núpcias, quase a dar um novo significado, um novo conteúdo e forma nova ao chamado exame pré-matrimonial exigido pelo direito canónico. Sempre necessária em todos os casos, tal preparação impõe-se com maior urgência para aqueles noivos que apresentam carências e dificuldades na doutrina e na prática cristã.

Entre os elementos a comunicar neste caminho de fé, análogo ao do catecumenato, deve incluir-se uma profunda consciência do mistério de Cristo e da Igreja, dos significados de graça e de responsabilidade do Matrimónio cristão, assim como a preparação para tomar parte activa e consciente nos ritos da liturgia nupcial». (Familiaris consortio [FC], nº 66).

O campo de actuação do CPM (enquanto associação de fiéis que tem por objectivo dedicar-se à preparação de noivos para o matrimónio) enquadra-se apenas e só no momento da preparação imediata, que por vezes é isso mesmo, imediata por ser poucos dias ou semanas antes do grande dia do Matrimónio.

Estamos em fase de preparação para a XIV Assembleia-Geral Ordinária do Sínodo dos Bispos em que será abordada «A vocação e a missão da família na Igreja e no mundo contemporâneo». Existem duas questões concretas relacionadas com a temática da preparação para o Matrimónio que apontam especificamente para a chamada preparação próxima, assentando no referido por João Paulo II no nº 66 da FC, «se porá o problema da preparação próxima, que – desde a idade oportuna e com adequada catequese, como em forma de caminho catecumenal – compreende uma preparação mais específica, quase uma nova descoberta dos sacramentos».

Estas questões são-nos colocadas como grandes desafios pastorais. Especialmente em Portugal, esta fase de preparação foi esquecida, ou pelo menos não está a ser feita de modo estruturado e organizado. Salvo raras excepções, a única formação que a Igreja oferece aos noivos é a preparação imediata (CPM e outros movimentos), não havendo nesse momento condições de tempo nem disposição espiritual dos noivos para abordar questões de índole catequética mais profundas. Abordam-se temas que embora sejam muito importantes para o futuro da vida a dois (os noivos reconhecem essa importância) não são suficientes para um caminho que se pretende que seja a três, com Deus presente. É necessário e urgente colocar Deus no meio da união entre aqueles que contraem Matrimónio. Confiando em Deus, cada casal tem oportunidade de crescer e de ver fortalecer o seu amor numa verdadeira história de amizade com Cristo.

A solução terá de passar por implementar e estruturar a preparação próxima, feita por leigos e por sacerdotes, fazendo a ligação entre os sacramentos (Batismo, Eucaristia e Matrimónio), inserindo os pares de noivos lentamente na dinâmica eclesial, podendo assentar numa ótica de testemunho pessoal ou de casal. Poderá ser aproveitado o primeiro contacto noivos/pároco para marcação do Matrimónio, para apresentar uma proposta de caminhada até ao grande dia em que terão uma etapa final em forma de preparação imediata (CPM ou outra forma de preparação). Como suporte humano, poderemos criar novas equipas de trabalho a partir por exemplo das equipas de pastoral familiar ou de outros movimentos familiares.

Não temos de ter receio de sermos exigentes connosco e especialmente com os noivos que se propõem contrair Matrimónio.

Chamo, no entanto, a atenção para um perigo estrutural que poderá advir da implementação desta ou de outra forma de preparação próxima. Com a nossa habitual queda para o facilitismo, poderá acontecer que fiquemos pela ideia que a preparação próxima é suficiente e deixemos de lado a preparação imediata, e não foi de forma alguma isto que o Papa João Paulo II preconizou. Todas as formas de preparação para o Matrimónio são complementares e sequenciais.

É importante também realçar que toda e qualquer proposta de preparação deve ser entendida como uma proposta, como uma oferta aos noivos, que não sendo de carácter obrigatório não seja dispensável de qualquer forma.

Texto de Paulo Henriques, responsável pelos Centros de Preparação para o Matrimónio, publicado em Família Cristã, maio de 2015