Francisco conversa com os jornalistas do voo papal de retorno dos Estados Unidos e responde a perguntas sobre pedofilia, crise migratória, sacerdócio feminino e o processo de paz na Colômbia

Roma, 28 de Setembro de 2015 (ZENIT.org) – O papa Francisco, como é costumeiro na volta das viagens apostólicas, conversou com os jornalistas que o acompanhavam no voo de volta dos Estados Unidos. Ele respondeu a perguntas durante mais de 40 minutos. Eis os destaques:

Abusos sexuais contra menores

Os abusos contra menores acontecem por toda parte, no entorno familiar, na vizinhança, nas escolas, nos ginásios… Mas, “quando um sacerdote comete um abuso, é gravíssimo porque a vocação do sacerdote é fazer essa criança crescer no amor de Deus, na maturidade afetiva, no bem. Em vez de fazer isso, ele a impulsionou para o mal e, por isso, é quase um sacrilégio”. Os sacerdotes que abusam de menores traem a vocação. “Também são culpados aqueles que taparam essas coisas”, afirmou Francisco.

Sobre o perdão para as pessoas que cometem tais abusos, o papa respondeu que, “se uma pessoa fez o mal, é consciente do que fez e não pede perdão, eu peço a Deus que o leve em conta. Eu o perdoo, mas ele não recebe o perdão. Está fechado para o perdão”. Quanto às vítimas e suas famílias que não conseguem ou não querem perdoar, o papa disse: “Eu os compreendo, rezo por eles e não os julgo”. E contou que, certa vez, em uma das reuniões com vítimas, uma mulher relatou que a sua mãe, ao saber que tinham abusado dela, “blasfemou contra Deus, perdeu a fé e morreu ateia”. O papa assegurou que compreende essa mulher e que “Deus, mais bondoso do que eu, também a compreende. Estou certo de que essa mulher foi recebida por Deus porque o que foi despedaçado era a sua própria carne, a carne da sua filha. Eu a compreendo”.

Crise migratória

Francisco falou das barreiras de arame farpado que muitos países estão construindo para conter os imigrantes. Em primeiro lugar, declarou que esta crise é “o resultado de um processo de anos, porque as guerras de que aquela gente foge são guerras de anos. A fome é fome de anos”. E acrescentou que “todos os muros caem, hoje, amanhã ou dentro de cem anos, mas todos caem. Não é uma solução. O muro não é uma solução”. Mas, observou, os países devem encontrá-la com o diálogo.

Processo de paz na Colômbia

A propósito do acordo de paz entre as FARC e o governo da Colômbia, o Santo Padre disse que, ao saber que ele será assinado em março, pediu a Deus “que cheguemos a março, que cheguemos com esta bela intenção porque faltam pequenas coisas, mas a vontade existe de ambas as partes”. Francisco afirmou que ficou “contentíssimo”, recordando que falou três vezes com o presidente colombiano sobre a questão. “A Santa Sé está muito aberta a ajudar do jeito que puder”.

China

Sobre as relações da Santa Sé com a China e a situação naquele país, o pontífice assegurou que “é uma grande nação que oferece ao mundo uma grande cultura e muitas coisas boas”. E recordou “gostaria muito de ir à China”: amo “muito o povo chinês”.

Sacerdócio feminino

O papa foi muito claro: “Isto eu não posso fazer”. Francisco recordou que o papa São João Paulo II, depois de longos tempos de reflexão, falou claramente sobre isto. E não é porque as mulheres não tenham a capacidade: na Igreja, as mulheres são mais importantes do que os homens, “porque a Igreja é mulher. A Igreja, não o igreja. A Igreja é a esposa de Jesus Cristo”. E a Virgem Maria é mais importante que os papas, que os bispos, que os padres. No entanto, reconheceu, “nós estamos um pouco atrasados numa elaboração da teologia da mulher; temos que avançar nessa teologia”.

Sucesso de Francisco e viagens papais

Falando de questões mais pessoais, como o fato de ter se transformado em “uma estrela”, o papa disse que “as estrelas são bonitas de ver”, mas “o papa deve ser o servo dos servos de Deus”.

Quanto aos Estados Unidos, o Santo Padre disse que ficou surpreso com “os olhares, o calor das pessoas, tão amáveis, uma coisa bela e diferente”. E se impressionou muito “com a recepção nas cerimônias religiosas e com a piedade, a religiosidade”.

Ele contou ainda que, “quando o avião parte depois de uma visita, me vêm à mente os olhares de tanta gente, me dá vontade de rezar por eles” e dizer a Deus: “Eu vim aqui para fazer algo, para fazer o bem. Talvez fiz mal; perdoa-me, mas guarda toda essa gente que me viu, que pensou nas coisas que eu disse, me escutou, inclusive os que me criticaram, todos”.