Na catedral de São Patrício, o papa recorda a tragédia de Meca, elogia o serviço dos religiosos norte-americanos, compreende a vergonha sofrida por causa dos escândalos e lhes mostra “dois pilares da vida espiritual”

 

NYC, 25 de Setembro de 2015 (ZENIT.org) – As imponentes torres neogóticas da catedral de São Patrício se alçam no coração de Manhattan, entre enormes arranha-céus, como um sinal de fé no meio da indiferença religiosa. Uma fé que é mantida viva nos Estados Unidos pelo compromisso constante de sacerdotes, religiosos e religiosas, com quem o Santo Padre rezou as vésperas na catedral depois de dirigir seus pensamentos ao povo muçulmano, atingido pela tragédia perto de Meca no dia da Festa do Sacrifício.

Em seguida, Francisco destacou que “esta bela catedral foi construída ao longo de muitos anos com o sacrifício de tantos homens e mulheres”, um símbolo “do trabalho de gerações de sacerdotes, religiosos e leigos americanos que contribuíram para a edificação da Igreja nos Estados Unidos, à custa de grande sacrifício e com caridade heroica”. E citou como exemplos Saint Elizabeth Ann Seton, “que fundou a primeira escola católica gratuita meninas no país”, e São João Neumann, “o fundador do primeiro sistema de educação católica nos Estados Unidos”.

A nobre história da Igreja nos EUA foi manchada, porém, por escândalos graves deflagrados “num passado não muito distante”. O papa aborda o assunto espinhoso, reconhece o sofrimento do corpo sacerdotal que suportou “a vergonha devida a tantos irmãos que feriram e escandalizaram a Igreja em seus filhos mais indefesos”, e acrescenta: “Como no Apocalipse, eu lhes digo que sou consciente de que ‘vocês vêm da grande tribulação’ (cf. 7,14). Eu os acompanho neste tempo de dor e dificuldade e agradeço a Deus pelo serviço que vocês realizam acompanhando o povo de Deus”.

Francisco propõe então uma breve catequese em que indica “dois pilares da vida espiritual”.

O primeiro é o “espírito de gratidão”. Ele recorda que “a alegria de homens e mulheres que amam a Deus atrai mais pessoas” e que “a alegria flui do coração agradecido”. Daí o convite a “repassar a vida com a graça da memória”, para sempre relembrar as muitas graças e bênçãos que recebemos e, acima de tudo, recordar o encontro com Jesus “em tantos momentos ao longo do caminho”.

O segundo pilar é o “espírito de laboriosidade”. O papa destaca que “um coração agradecido é espontaneamente levado a servir ao Senhor e a viver uma vida operosa”, porque, quando “notamos tudo o que Deus nos deu, o caminho da abnegação para trabalhar por Ele e pelos outros se torna um meio privilegiado para responder ao seu grande amor”.

No entanto, existe “uma espiritualidade mundana”, alerta Francisco. “Podemos ficar presos na mensuração do valor dos nossos esforços apostólicos pelo critério da eficiência, da funcionalidade e do sucesso externo que governa o mundo dos negócios”. Mesmo reconhecendo que “nos foi confiada uma grande responsabilidade e o povo de Deus espera com razão que prestemos contas”, o Santo Padre recorda que “o verdadeiro valor do nosso apostolado é medido pelo seu valor aos olhos de Deus”.

E é um que pende da cruz. “A cruz nos mostra uma forma diferente de medir o sucesso: cabe a nós semear; Deus vê os frutos do nosso trabalho”, diz o papa, recordando que a vida de Jesus Cristo, quando medida pelos padrões mundanos, terminou num fracasso.

Outro sinal de mundanismo, o conforto, é o próximo perigo abordado por Francisco: ele pode “ofuscar o chamado cotidiano de Deus à conversão, ao encontro com Ele”.

“O descanso é uma necessidade, assim como os momentos de lazer, mas temos que aprender a descansar de uma forma que aprofunde o nosso desejo de servir com generosidade”, incluindo a “proximidade dos pobres, refugiados, migrantes, doentes, explorados, idosos que sofrem a solidão, detentos e muitos outros pobres de Deus”.

Ainda lembrando as atividades e sacrifícios diários da Igreja norte-americana, “muitos deles só conhecidos por Deus”, o papa Francisco expressa um “muito obrigado” às religiosas do país. “O que seria desta Igreja sem vocês? Mulheres fortes, lutadoras; com aquele espírito de coragem que as coloca na linha de frente do anúncio do Evangelho”, declarou, recebendo estrondosos aplausos.

Antes do Magnificat e de “colocar nas mãos de Maria o trabalho que nos foi confiado”, o pontífice exorta de novo a assembleia a resistir às adversidades seguindo o exemplo de Cristo, que “agradeceu ao Pai, tomou a sua cruz e olhou para frente”.