Artigo escrito por Jean-Louis Tauran e publicado em L’Osservatore Romano, 3 de março de 2016

 

O livro Loado seas, mi señor. Comentario a la encíclica del Papa Francisco Laudato si’, de Fernando Chica Arellano e Carlos Granados García, (Madrid, Biblioteca de Autores Cristianos, 2015, 368 páginas) mostra-nos a riqueza da encíclica do Papa. Folheando as páginas da obra, persuadi-me de que a encíclica propõe uma nova civilização.

Laudato si’ não é uma encíclica sobre a mudança climática. Ela é social. O Papa inicia com um olhar amplo, compreendendo que tudo está interligado: os seres humanos, a natureza, o meio ambiente, a criação e a sociedade. Eis a grande afirmação: «ecologia humana e ecologia ambiental caminham juntas». Somos chamados a contemplar o mundo com o olhar do Criador: a Terra é o ambiente que precisamos de conservar e o jardim que deve ser cultivado. A relação homem-natureza não deve ser sustentada pela avidez, pela manipulação e exploração. Deve conservar a harmonia da criação, a fim de que tudo esteja ao serviço dois homens de hoje e de amanhã. Portanto, encontramo-nos diante de uma ecologia global. Para o crente, o meio ambiente é «divino», porque pode ser interpretado como espaço de união com Deus.

Laudato si’ denuncia uma forma de divinização da técnica e do mercado. Não existe um crescimento infinito nem ilimitado (cf. n. 139). Além disso, é um apelo a mudar o nosso modo de pensar e viver. Por conseguinte, somos convidados a abandonar a lógica do domínio, da exploração, do desperdício e da depredação.

Para o Santo Padre a crise ecológica e a crise social são duas faces da mesma medalha. Por este motivo é necessário uma colaboração integral para combater a pobreza, dar de novo dignidade aos excluídos e, contemporaneamente, salvaguardar a natureza.

O texto é construído sobre linhas fundamentais que lhe conferem unidade. O próprio Papa as menciona no início da sua obra. Trata-se da «relação íntima entre os pobres e a fragilidade do planeta, a convicção de que tudo está estreitamente interligado no mundo, a crítica do novo paradigma e das formas de poder que derivam da tecnologia, o convite a procurar outras maneiras de entender a economia e o progresso, o valor próprio de cada criatura, o sentido humano da ecologia, a necessidade de debates sinceros e honestos, a grave responsabilidade da política internacional e local, a cultura do descarte e a proposta dum novo estilo de vida» (n. 16).

À luz destas considerações, segundo quanto escreveu o conhecido jornalista francês Henri Tinco, poder-se-iam formular dez mandamentos do Papa Francisco para tutelar o planeta.

Primeiro: sairás do mundo da indiferença. A terra é a nossa casa comum.

Segundo: lutarás contra o aquecimento do sistema climático. É preciso promover fontes de energia alternativa e renováveis, mudar o estilo de vida, de produção e de consumo.

Terceiro: fornecerás água a toda a Terra. O acesso à água potável é um direito humano fundamental.

Quarto: colocarás os pobres no centro. Lutar pela salvaguarda do planeta pressupõe também a eliminação das desigualdades sociais. E no entanto os excluídos hoje são ainda a imensa maioria.

Quinto: combaterás o mito do progresso indefinido. O crescimento permanente e os progressos técnicos não são neutros. Tendem à acumulação de lucros que permitem que os países ricos experimentem o superdesenvolvimento, nos quais consumo e desperdício vão de mãos dadas, enquanto as nações pobres permanecem na pobreza.

Sexto: resistirás à omnipotência. Existe um nexo entre a degradação do meio ambiente e a degradação humana e ética. É necessário que haja uma colaboração integral para combater a pobreza, conferir dignidade aos excluídos e, ao mesmo tempo, preservar a natureza.

Sétimo: entrarás na lógica do dom gratuito. A Terra foi-nos doada. Portanto, não a podemos considerar segundo critérios utilitaristas. Ela pertence a quantos vierem depois de nós.

Oitavo: favorecerás a transição energética. É preciso desenvolver gradualmente formas de energia pouco poluidoras, promover a agricultura diversificada, garantir o acesso à água potável. Neste contexto, é necessário pensar em instituições internacionais dotadas de poder de sancionar.

Nono: aceitarás que a marcha diminua. É preciso parar e pensar que «quando somos capazes de superar o individualismo, pode-se realmente desenvolver um estilo de vida alternativo e torna-se possível uma mudança relevante na sociedade» (n. 208).

Décimo: procurarás uma feliz sobriedade. Trata-se de apreciar as pequenas coisas, de agradecer pelas possibilidades que a vida oferece.

Concluindo, o grito da natureza maltratada e dos pobres abandonados chegam até ao céu. É importante saber que mundo queremos deixar às gerações futuras (cf. n. 160). O Papa Francisco faz-nos compreender melhor a complexidade dois problemas, sem hesitar em utilizar o método do diálogo com a filosofia e as ciências humanas. Convida-nos a reconsiderar o nosso mundo e a agir. Em conclusão, Francisco propõe às sociedades materialistas sedentas de «bem-estar» o «bom viver».