Juan Daniel Macías Villegas expirou entre o afeto de seus entes queridos. Com apenas 13 anos alistou-se para defender a fé católica da violência de um Estado maçônica e anticlerical

 

11 março 2016 – “Enquanto estou vivo, não paro de lutar”. Este foi o rugido extremo de Juan Daniel Macías Villegas, no último 18 de Fevereiro, antes de morrer com a idade de 103 anos. Nascido e criado em San Julián, no coração do México, este velho homem com o temperamento de um jovem guerreiro foi o último lutador ainda vivo da Guerra dos Cristeros. A última testemunha de um catolicismo militante, capaz de pegar em armas na primeira metade do século passado, para defender a fé ameaçada por um Estado maçônica e violentamente anti-clerical.

Juan Daniel Macías Villegas nasceu no dia 21 de julho de 1912, em um ambiente rural e dentro de uma família de profunda fé em Deus. Com somente 13 anos de idade, em 1926, empunhou as armas para unir-se aos “cristeros” e recebeu a bênção do próprio sacerdote que o batizou. Apesar da sua tenra idade, participou de várias campanhas militares sob ordens do general Victoriano Ramirez, entre as fileiras da divisão chamada “Los dragones del 14”.

Como um Cincinato moderno, voltou para a vida no campo depois da assinatura do cessar-fogo entre o exército regular e os rebeldes, em 1929. Mas, anos mais tarde, em 1934, não voltou atrás quando os seus velhos companheiros sentiram a necessidade de reocupar as barricadas para começar La Segunda, ou seja, a nova revolução causada pelo recrudescimento das violências do Estado contra a religião e a pretensão de arrancar os jovens das famílias para impor-lhes uma “educação socialista”.

Esses anos das revoluções “cristeras”, onde a perseguição religiosa – começada já desde o final da colonização espanhola em meados do século XIX – teve um crescimento vertiginoso no país latino-americano. Os católicos eram presos e executados, fuzilados e desaparecidos. Esta situação começou quando o governo guiado pelo general Plutarco Elías Calles aprovou uma emenda do Código Penal para restringir a liberdade religiosa até o ponto de sufoca-la.

Como narrado pelo escritor jesuíta Brian Van Hove em seu Blood-Drenched Altars (altares ensanguentados), as novas medidas previam o fechamento dos seminários e escolas católicas, a dissolução de todas as ordens religiosas, a expulsão de sacerdotes estrangeiros e um “número limitado” para os mexicanos, obrigados a obedecer as autoridades civis, a proibição de usar a batina, a obrigação – para alguns sacerdotes – de se casarem e a proibição de expressões como “se Deus quer” ou “Se Deus quiser”. Os funcionários do governo foram também obrigados a abjurar da fé.

Na sequência da promulgação desta emenda ao Código Penal, vários ataques perpetrados pelas autoridades civis começaram a ocorrer quando os fieis saíam das missas ou quando participavam das procissões religiosas. Em um primeiro momento, de acordo com o Vaticano, a resposta dos católicos se manifestou através de protestos pacíficos. Posteriormente, porém, dada a gravidade da perseguição, que obrigou os católicos a voltar, praticamente, para as catacumbas, focos de revoltas sucederam-se em todo o País até acender o México com uma guerra civil. Em 1927 formou-se um verdadeiro exército de rebeldes que conseguiu neutralizar a ação repressora das autoridades.

Com a ajuda essencial de Deus e da Virgem de Guadalupe, os “Cristeros” salvaram a fé no México. A Igreja elevou aos altares muitos mártires mexicanos, no último 22 de janeiro o Papa Francisco assinou o decreto para a canonização do Beato José Sanchez. Anos deste conflito brutal, no entanto, deixaram feridas profundas. Estima-se que entre 75 a 80 mil pessoas perderam a vida. Diante de 4500 padres presentes no País no começo da rebelião, só restaram 334 no final das hostilidades. Todos os outros foram expulsos do país ou mortos.

Os olhos de Juan Daniel Macías Villegas conheceram aqueles anos de tormento e também de manifesto de amor por Cristo e pela sua Igreja. E puderam assistir, décadas mais tarde, também os efeitos concretos daquela tarefa corajosa: em 1988 uma reforma constitucional reconheceu personalidade jurídica à Igreja católica, restabeleceu relações diplomáticas entre o México e a Santa Sé e marcou o início de uma nova fase de diálogo e de paz.

Os autores deste resultado foram as pessoas simples, como Juan Daniel Macías Villegas. Guerreiros no coração, que mantiveram uma fé ardente nos campos de batalha, bem como nas atividades da vida diária, entre mulher e filhos, dedicar-se à produção de leite e de carne na própria fazenda. Precisamente a família deste ancião “cristero” – relata a agência AciPrensa – acompanhou o corpo em uma procissão pelas ruas do país que precedeu o funeral. Junto com os seus, os membros da Guarda Nacional Cristea, organização católica dedicada a defender a memória dos mártires daquela perseguição religiosa. Defender a memória que consiste em recolher os seus testemunhos.