2016-07-11 Rádio Vaticana – Bagdá (RV) – “A intervenção militar ocidental contra Saddam Hussein, em 2003, desencadeou a espiral de inferno em que estamos hoje. Por isso, o ‘Relatório Chilcot’, publicado recente-mente, que tem como objetivo reconstruir os cenários e a origem do envolvimento do Exér-cito de Londres naquela guerra, é um passo positivo, pois é importante reconhecer os erros do passado para não cometê-los novamente.” 

 

Foi o que disse à Agência Fides o Patriarca de Babilônia dos Caldeus, Dom Louis Raphael I Sako, sobre o documento produzido pela Comissão de Inquérito presidida pelo Sr. John Chilcot, que nos últimos dias documentou a inoportuna e ilegítima ação militar contra o regime iraquiano decidida naquela ocasião pelo governo britânico guiado por Tony Blair.

O ex-primeiro-ministro britânico, diante dos resultados da investigação conduzida pela instituição, depois de um trabalho que durou quase sete anos, se defendeu, afirmando que hoje “estaríamos numa posição pior se não tivessem intervindo”.
  Segundo Dom Louis, basta olhar para a realidade sem óculos ideológicos para ver a falta de credibilidade total desta afirmação: “Temos um país destruído, quatro milhões de refugiados somente do Iraque, conflitos que perturbam a Síria e o Iêmen. Os cristãos no Iraque antes da guerra eram um milhão e quinhentos mil e agora são menos de quinhentos mil, e muitos deles vivem como refugiados longe de suas casas. Não há trabalho, as economias de países inteiros estão em pedaços, instituições paralisadas, e patrimônios culturais milenares foram destruídos. Pergunto-me com que cara se possa dizer que aquela guerra foi um bem para Oriente Médio”?

Para o patriarca caldeu, também a patologia jihadista que está fazendo sofrer povos inteiros é de alguma forma um efeito colateral da invasão militar do Iraque de 2003: “No vazio que se criou”, ressalta o Primaz da Igreja Caldeia, “os jihadistas encontraram espaço para fazer enraizar a sua proposta ideológica ainda mais abominável: a do Estado islâmico. Vem também dali a tração sectária que envenena toda a convivência.” 

Segundo Dom Louis, um dos fatores que alimentaram o conflito de 2003 e a gestão desconsiderada do pós-guerra foi a abstração ideológica com a qual se propagou a guerra como parteira da democracia. “O caminho rumo à democracia, os direitos e liberdade é longo e cansativo, como mostra a própria história da Europa e do Ocidente. A pretensão de importar tais valores de forma mecânica, sem respeitar os tempos e as características culturais de nossos povos, contribuiu para alimentar o desastre em que nos encontramos”, frisa.

Em 2003, o Papa João Paulo II e a Santa Sé expressaram com firmeza a própria contrariedade àquela ação militar, considerando-a uma escolha errada, com consequências devastadoras.

  “Os círculos ocidentais”, recorda hoje o Patriarca Louis, “exaltaram o Papa como um seu ‘aliado’ contra o comunismo, mas quando disse que a guerra do Golfo provocaria somente desgraças, ninguém o ouviu. É o destino das vozes proféticas que o poder tenta ocultar quando não as pode usar. De alguma forma, foi a mesma coisa que aconteceu a Jesus. E justamente ouvindo aquelas vozes, podemos reencontrar também hoje o caminho perdido de uma convivência pacífica, que ajude a preservar o bem de todos”. (MJ)

 (from Vatican Radio)