(Artigo de Fátima e Luís Reis Lopes, Dep. Nacional da Pastoral Familiar, publicado em Família Cristã, setembro 2014)

 

Os responsáveis da pastoral familiar apresentam-nos um traço geral da realidade da família com vista à sua análise no próximo sínodo. Expõem as principais dificuldades e desafios e desejam que esta assembleia extraordinária possa trazer mais respostas às famílias.

 

Estamos a viver momentos muito especiais em todo o mundo. O processo de globalização, com trocas comerciais e culturais, facilitadas pelos novos meios de comunicação, com particular destaque para o advento da internet, coloca-nos hoje desafios que não podemos nem devemos ignorar.

A evolução das sociedades motivou dentro da Igreja a necessidade de um permanente esforço de adaptação e de adequação da Boa Nova do Evangelho às novas realidades que vivemos. O Concílio Vaticano II procurou preparar a Igreja para os novos tempos e dar respostas às necessidades dos crentes, das famílias e das suas comunidades.

Os sínodos como assembleia de pastores são um instrumento precioso de construção da comunhão e de preparação de respostas evangélicas aos novos desafios. O próximo sínodo sobre a família, com duas assembleias, uma extraordinária em outubro deste ano e uma ordinária em outubro do próximo ano, constitui um momento muito importante de afirmação da família como a tradição bíblica nos propõe.

Temos consciência que o modelo bíblico ou a família cristã como é definida pela Igreja tem hoje, nas sociedades ocidentalizadas, novos problemas. Desde logo a constituição da família com muitos jovens a enfrentar o flagelo do desemprego ou falta de meios para “deixar pai e mãe e serem uma só carne”. Depois a estabilidade e segurança necessárias à sustentabilidade e continuidade da família parecem ameaçadas por uma crescente mobilidade, precariedade e a erosão da sociedade do descartável, como tão bem tem alertado o Papa Francisco. A educação dos filhos segundo os princípios e valores do Evangelho é outro grande desafio para todas as famílias cristãs. Talvez o grande debate deste sínodo seja à volta do diálogo entre o artificial e o natural.

Deve o artificial estar ao serviço da vida e promover um equilíbrio ecológico favorável à defesa da vida? Ou como em alguns casos o artificial é posto ao serviço de interesses contrários à vida e à família?

Serão estes e muitos outros os motivos para a urgência de toda a comunidade cristã se interessar e participar ativamente neste processo sinodal.

Muitos, sobretudo fora da Igreja, esperam grandes novidades. Haverá algumas mas, a nível da doutrina e da antropologia cristã, que saiu do último sínodo sobre a família, realizado em 1980, poucas devem ser as alterações. Onde haverá possivelmente mais novidades será a nível pastoral.

É urgente reformular e dinamizar a Pastoral Familiar para esta corresponder às novas realidades e sobretudo valorizar o papel da família e dos leigos na preparação das novas gerações para viverem plenamente a beleza e a alegria de ser família.

Os tempos que vivemos exigem uma maior e melhor preparação dos jovens nas suas fases de crescimento no seio de uma família estável, com uma fé viva e missionária. Um melhor acompanhamento na adolescência através de uma preparação remota que em muitas dioceses não é feita. Depois, repensar a preparação próxima e imediata para celebrar o sacramento do Matrimónio católico. Todos temos consciência que uma boa preparação dá maiores garantias de um casamento fecundo. E a fecundidade, quer em número de filhos, quer no apostolado junto das paróquias e movimentos, quer na criação de riqueza na sociedade é fonte de muitas alegrias.

A vida das famílias cristãs está cheia de alegrias mas também de dor e sofrimentos. Naturalmente que muitos motivos de sofrimento, como as separações, os divórcios, os casais recasados, serão analisados e deverão sair orientações pastorais para acudir, com muita misericórdia, a estas situações.

Estamos confiantes de que a Igreja, assistida pelo Espírito Santo, irá encontrar as formas mais adequadas para lidar com estas situações. Jesus bem nos avisou que o Caminho é estreito e larga a porta da perdição. Por isso, a par da atenção que devemos dar a este sínodo nos seus conteúdos, devemos também dar atenção à sua forma e ao que se vai passar entre as duas assembleias, extraordinária e ordinária. Como é hábito, na sequência de um sínodo, surgirão orientações em forma de exortação apostólica. Esperamos que surjam também propostas concretas de pastoral para levar à prática, nas famílias e nas comunidades, a força e a inspiração deste sínodo.

A exemplo do que aconteceu com a Exortação Apostólica Familiaris consortio, de 22 de novembro de 1981, todos somos chamados a valorizar o papel da família e ajudar a que todas consigam viver em conformidade com a doutrina e ensinamentos da Igreja. Nas décadas de 80 e de 90, a seguir ao sínodo, foram os movimentos que melhor souberam incorporar nas suas práticas e estruturas a força do sínodo. Rezemos para que também deste sínodo os movimentos, as estruturas diocesanas, vicariais e paroquiais, bem como muitas associações e federações católicas trabalhem em conjunto para levar o sínodo às famílias, sobretudo as que mais sofrem e se encontram nas periferias.

Todos reconhecemos que só haverá um futuro melhor se as famílias se sentirem mais valorizadas, protegidas e incentivadas a darem o melhor de si.

Terminamos com um apelo a todas as famílias para que mantenham bem viva a mensagem da Semana da Vida deste ano, que teve como lema “Gerar Vida, Construir Futuro”.