(Artigo de Sílvia Júlio, publicado em Família Cristã, setembro 2014)

Envelhecer para quê e para quem? Que vida é esta em que ora nos sentimos fortes, ora fracos? Ficar aqui ou ali? Em casa ou num lar? E a crise? E o dinheiro? E a família? E os afetos? O idoso que cada um de nós tem dentro de si tem mais interrogações do que certezas na idade da sabedoria.

 

O tempo não pára. Mais um dia que passa que é igual ao somatório de todos os outros dias. Do alto das décadas vividas parece que já não se vislumbra esperança. Nem ânimo para persistir pela vida que resta com um brilho no olhar. O tempo fica espesso. Vislumbram-se horas opacas que não deixam ver uma nesga de futuro. Uma pequena brecha que ilumine os que já não acreditam num sentido para tudo isto. O peso dos anos carrega um fardo que se arrasta por um caminho que aparenta ser sem saída. Os ponteiros do relógio continuam a girar, as folhas do calendário a passar e tudo parece ficar igual. Sem mais nem menos. É tudo assim-assim. Morno. Tanto faz que seja assim, tanto faz que seja assado.

Por detrás de uns olhos cansados, de uma expressão longínqua, de uns passos demorados e dolorosos, para onde se dirigem como se houvesse todo o tempo do mundo até lá chegarem?

Tiquetaque, tiquetaque … o tempo não vai parar. E muitos há, que continuam a caminhar sem destino, à deriva nos pensamentos, enredados nas saudades do que viveram e do que não viveram. O sol volta todas as manhãs, mas não lhes traz a vida que viveram. Já nada lhes aquece nem arrefece. Esperam apenas que o sol se ponha todos os dias para ver a noite chegar. E adormecerem como que anestesiados.

Todos os dias são bons para se iniciar qualquer coisa. Para ver. Ouvir. Ler. Sem ignorar que há uma vida ainda para viver. Com gente dentro. Mesmo que seja apenas por uns dias ou parcos anos. A isto se chama viver com um brilhozinho nos olhos. E isso não sabe a pouco. Sabe a tanto. “Quando se conversa, quando se dá tempo, acreditamos que todos temos uma função na vida dos outros. Isto não é uma coisa dos idosos nem das crianças – é de todas as idades”, comenta Rita Valadas, administradora da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa (SCML) com a área da Ação Social.

Todos somos responsáveis pelas vidas uns dos outros. E é aqui que está o cerne da questão. Quando os nossos idosos mais precisam de ajuda, qual a resposta mais adequada? “Honra o teu pai e a tua mãe”, diz o quarto mandamento, que apela à nossa capacidade de amar quem nos gerou a vida. O amor implica exigência e cuidado em avaliar o que é melhor para aquela situação em concreto. Sem sentimentos de culpa. Porque o melhor, não são respostas únicas mas somadas. O que fazer quando os idosos já não têm condições para estar sozinhos: ficar com a família ou ir para um lar (designação que foi alterada para Estrutura Residencial para Idosos, segundo se lê na Carta Social)? A resposta tem várias nuances, porque a vida não é a preto e branco: “No mais perfeito dos mundos, a pessoa não devia ter de sair de sua casa; no mais perfeito dos mundos, as famílias estariam juntas, haveria disponibilidade de um dos membros olhar os mais vulneráveis da sua família – crianças e idosos – e isso seria possível do ponto de vista financeiro. Na grande maioria das famílias, por questões de organização familiar e financeira, não há um elemento cuidador. Hoje as pessoas vivem mais tempo e, sendo muitas vezes um tempo de qualidade, é também muitas vezes um tempo de doenças. Mais do que precisarem das famílias, também precisam de cuidados médicos e de enfermagem – cuidados que as pessoas não podem ter em casa. Por isso, não há uma resposta universal e isto depende do desejo da pessoa, da sua situação e da família”, analisa Rita Valadas, que está também ligada à Associação Portuguesa de Psicogerontologia (APP) desde a sua fundação.

Quando a melhor opção é o idoso ficar em casa com a família, há aspectos para os quais a sociedade tem de estar mais atenta para prover uma vida de qualidade para os mais velhos e também para os mais novos: “Temos de dar condições às pessoas. Se a solução para todos é que o idoso fique com a família, temos de providenciar os serviços que faltam. O apoio domiciliário é a grande resposta – mas não o apoio domiciliário da tradição antiga. Há muitos serviços que se podem prestar a um idoso que vão desde as coisas mais básicas como a higiene à companhia e à socialização. Isso pode ser dado no apoio domiciliário e faz a diferença”. A administradora da SCML salienta ainda a necessidade de se ajudar os cuidadores dos idosos a descansar: “Têm de existir programas que servem as famílias e as crianças, para que não se castigue o idoso por isso não acontecer. O descanso do cuidador pode ser quase uma versão pseudo-hoteleira em que a pessoa se sinta como que a ir de férias mas no seu programa. No fundo, são programas para todos, é a possibilidade de os mais novos irem fazer o seu programa e os mais velhos terem direito ao seu. E esta resposta é muito mais barata para o país. Se nós garantirmos o apoio domiciliário, a manutenção do idoso em casa e o direito ao descanso do cuidador, o somatório disso tudo é muito mais barato e positivo para todos”.

As respostas existentes têm de se “reconfigurar”, preconiza Rita Valadas, e o pensamento sobre as estruturas residenciais pode ir muito mais longe: “Tem de se preparar uma resposta que preveja algumas camas para as altas hospitalares, porque os familiares não sabem como cuidar dos idosos. Para essas situações de altas hospitalares ou de pequenas doenças ou ainda de descanso, devia haver sempre algumas camas que pudessem ser consideradas para utilização pontual”.

Uma visão de futuro que ajuda a sossegar o idoso que todos temos dentro de nós, mesmo que agora tenhamos 20, 30, 40 ou 50 anos. Se nos lembrarmos que, segundo os últimos censos, o número de idosos cresceu em dez anos cerca de 19 %, conseguimos transportar-nos para um médio/longo prazo que importa ter em conta.

Quando se começou a sentir os efeitos desta crise, pelo país fora ouviu-se falar de famílias que estavam a retirar os idosos dos lares particulares. Se alguns, ingenuamente, viam com bons olhos o regresso dos mais velhos para junto dos seus, quem estava no terreno alertava para os riscos. Essas situações parecem agora estar ligeiramente a diminuir: “Isso acontecia pela situação económica das pessoas e pelo desemprego. Houve muitas senhoras que ao ficarem, infelizmente, desempregadas, passaram a ter condições de tratar do familiar em casa com a ajuda da sua reforma para ajudar ao orçamento familiar”, contou à FAMÍLIA CRISTÃ João Ferreira de Almeida, presidente da ALI – Associação de Apoio Domiciliário de Lares e Casas de Repouso de Idosos. Quando o idoso regressa ao seio da família por situações de desemprego dos filhos, ninguém sabe em que condições é que essa pessoa está. Ninguém sabe se os familiares que lhe estão a dar assistência estão preparados para isso”, acrescentou o responsável da ALI.

Rita Valadas recorda que “as famílias que têm idosos em lares não estão preparadas para os ter em casa. Mesmo numa situação de desemprego não é aconselhável que um emprego seja substituído por um idoso em casa. Se as pessoas não são naturalmente cuidadoras, não vão ser a melhor solução. Alerto para o facto que, nesta situação de crise em que as pessoas têm como prioridade retirar o idoso do lar para o uso da sua pensão, acontecem muitas situações de isolamento. Foram aumentando as situações de risco por solidão de idosos”.

A reboque da crise houve também famílias que retiraram idosos das estruturas residenciais que exigiam uma mensalidade mais elevada para lares não-licenciados em que o valor a pagar é mais reduzido: “Se antes era muito difícil obter vaga em alguns lares privados, agora é mais fácil. Há lares que conhecemos como estando sempre com lotação completa que começam a ter duas, três, quatro vagas. Houve retirada de idosos de lares licenciados para casas ilegais ou clandestinas por um preço mais em conta. Ninguém sabe se as pessoas que lhe estão a dar assistência estão preparadas para isso, porque não há controlo nenhum sobre essa situação. A Segurança Social raramente faz inspecções em lares clandestinos”, lamenta João Ferreira de Almeida.

Os idosos estão a chegar às estruturas residenciais cada vez mais tarde e mais incapacitados do que no passado. Pessoas acamadas, com Alzheimer e muitas outras doenças exigem cuidados específicos e uma assistência qualificada. Viver até mais tarde acarreta grandes desafios para todos. Novos e velhos.

Vale a pena lembrar as palavras de João Paulo II na Carta aos Anciãos em que ele pedia: “Senhor da vida, fazei-nos tomar plena consciência e saborear como um dom, rico de futuras promessas, cada período da nossa vida”.