Arcebispo de Nairóbi fala da experiência como padre sinodal e descreve a expectativa pela visita do papa Francisco ao Quênia

Turim, 20 de Outubro de 2015 (ZENIT.org) – O cardeal John Njue, presidente da Conferência Episcopal do Quênia e arcebispo de Nairóbi, celebrou a Santa Missa deste domingo na paróquia de Santo Inácio de Loyola, em Turim. Ele aproveitou uma pausa do sínodo sobre a família para participar da Vigília Missionária com o arcebispo da cidade, dom Nosiglia. ZENIT teve a oportunidade de entrevistá-lo.

Eminência, em pouco mais de um mês o papa Francisco fará a sua tão esperada primeira visita à África. Quais são as expectativas?

O Quênia já foi visitado três vezes por São João Paulo II e agora estamos ansiosos pela chegada do papa Francisco. Ele vai chegar a Nairóbi no dia 25 de novembro para ficar dois dias. Uma visita curta, infelizmente, mas estou convencido de que dará muita “energia” para o nosso povo. A visita do Santo Padre não é apenas pastoral, mas também de Estado: ele vai se reunir com o presidente Kenyatta, além de visitar o escritório local das Nações Unidas. Vai celebrar a Missa no campus universitário de Nairóbi e ter o encontro com os religiosos.

Pensando no Quênia, ainda vemos as imagens terríveis do massacre no campus de Garissa por fundamentalistas da Al-Shabaab. O senhor viveu de perto esse episódio e convidou corajosamente todos os fiéis a rezarem pelos envolvidos. Qual é o clima agora?

Obviamente, não se pode esquecer uma tragédia dessas proporções, mas eu devo dizer que o clima neste momento é muito mais ameno. Esclareço que no Quênia não há nenhum confronto acontecendo entre cristãos e muçulmanos. O problema do terrorismo existe, mas as relações entre as duas religiões são tranquilas. Foram os próprios muçulmanos os primeiros a declarar que no Quênia não há conflitos com os cristãos. Infelizmente, há pessoas más que, por motivos que não têm nada a ver com a religião, não hesitam em perpetrar massacres fingindo agir em nome de Deus. São instrumentalizações feíssimas.

Eminência, o senhor conversou com os cidadãos quenianos que emigraram para os Estados Unidos em Delaware e fez uma homilia apaixonada em defesa da família, dos valores cristãos e da tradição africana. Os desafios que a família enfrenta hoje no Quênia são diferentes dos desafios das famílias italianas?

O conceito de família pode parecer diferente, mas os valores são os mesmos. Quando se fala de família na África, não se trata só da união de duas pessoas, mas da relação entre todos os membros da família. Isto é evidente quando se fala de matrimônio. Nós temos o chamado “dote”, que, realmente, é uma ligação entre as duas famílias. O que eu disse aos meus compatriotas que emigraram para os Estados Unidos é o seguinte: “Agora vocês estão em outro país. É seu direito criar relacionamentos com outras pessoas, mas não reneguem as suas origens. Lembrem-se de que, como africanos, vocês têm uma cultura sua. Preservem a sua identidade”. O que poderia ser dito às famílias italianas é isto: “Não se esqueçam dos valores fundamentais da família. Cultivem-nos. Eles representam um tesouro para passar como herança aos seus filhos”.

Sua Eminência pode nos contar algo sobre esses dias no sínodo da família?

O sínodo é muito importante. Eu acabo de falar de herança: a Igreja é chamada a tomar decisões que vão se tornar parte da tradição cristã, nossa herança para as gerações futuras. Temos que ser cautelosos e abordar cada ponto com muita atenção. Um dos temas centrais do sínodo é a comunhão para os divorciados recasados. Eu acredito que a Igreja tem, já, todas as ferramentas para gerir esta situação: se um casamento não funciona mais, pode-se recorrer ao tribunal eclesiástico. Se o tribunal verifica a existência de uma causa de nulidade, o vínculo do casamento é dissolvido. Se não, os cônjuges têm de ser acolhidos, pois eles têm um papel e uma posição na Igreja. Mas não podem ter acesso ao sacramento da Eucaristia.

A Igreja africana é uma realidade muito dinâmica, com muito entusiasmo e participação dos fiéis. O que a Igreja africana pode fazer pela Igreja ocidental e vice-versa?

Falamos agora há pouco sobre os desafios da família. As famílias são compostas de homens, mulheres, crianças. Eles são pessoas, não anjos. Eles têm as suas dificuldades e podem enfrentar desafios. Cada um deles, nas diferentes idades, precisa ser acompanhado. No Quênia, nós temos a PMC, uma organização pontifícia voltada às crianças. As mesmas crianças que são cuidadas por pessoas que amam a Deus, quando crescerem, vão transmitir por sua vez esse amor aos seus filhos. Precisamos de pessoas formadas que estejam ao lado de mães, pais, crianças, adultos. Em qualquer idade precisamos de acompanhamento, de guia. Na África e na Europa, a Igreja pode fazer muito. É importante criar a consciência de que não somos só pessoas, mas pessoas com responsabilidade. Não apenas indivíduos, mas membros de uma sociedade. Quando cheguei pela primeira vez a Embu, tive várias dificuldades, mas, com a ajuda das organizações religiosas Missio e Misereor, conseguimos juntos fazer uma enorme diferença: agora os jovens não pensam mais “isso é meu”, e sim “eu também posso contribuir para o bem desta família”.

Sua Eminência convidou recentemente as mulheres africanas a serem “protagonistas da paz”, “instrumentos de Deus para a harmonia na sociedade”. Qual é o papel da mulher no Quênia?

A mulher tem a capacidade de criar uma atmosfera que facilita o diálogo. As pessoas podem se encontrar. Do confronto pode sair a solução. No Quênia, eram frequentes as divisões e a discórdia, mesmo dentro do mesmo clã. Agora as coisas melhoraram. Ao falar com uma pessoa, você tem que aprender a não ver nela um inimigo a priori. Ele é uma pessoa como você. Através do diálogo, podemos aprender muito. Neste processo de diálogo, a figura feminina pode ser de grande ajuda.