Entrevista com Dom Orani João Tempesta, arcebispo do Rio de Janeiro, sobre a III Assembleia do sínodo dos bispos que começa próximo domingo.

Por Thácio Siqueira

 

BRASíLIA, 30 de Setembro de 2014 (Zenit.org) – No próximo domingo, 5 de outubro, às 10h da manhã (horário de Roma) o santo Padre Francisco celebrará a santa missa na basílica de São Pedro por ocasião da abertura da III Assembleia Extraordinária do Sínodo dos Bispos. Assim confirmou hoje o porta-voz da Santa Sé, Pe. Federico Lombardi.

No sínodo participarão 253 pessoas, dentre as quais 14 casais de esposos convidados pelo Papa. Representando o Brasil estarão os cardeais Dom Odilo Pedro Scherer, SP, Dom Orani João Tempesta, RJ, e o Cardeal Dom Raymundo Damasceno, presidente da Conferência episcopal do Brasil, além do casal Hermelinda e Arturo Zamperlini que desde o 1º de setembro são os responsáveis pela Super-região Brasil do Movimento das Equipes de Nossa Senhora.

ZENIT entrevistou o Cardeal Dom Orani João Tempesta, arcebispo do Rio de Janeiro, com o fim de esclarecer mais o contexto desse sínodo, levantando algumas questões do próprio documento preparatório. Acompanhe abaixo e fique por dentro dessa Assembleia que está a ponto de começar:

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ZENIT: Dom Dimas Lara, arcebispo de Campo Grande, MS, e ex-secretário geral da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), disse na reunião do CELAM em preparação ao sínodo dos bispos que é importante “a mudança de metodologia do sínodo”, para poder refletir “uma participação e escuta mútua e a colegialidade dos bispos com o magistério do Santo Padre”. E disse que “Não será uma coleta de sugestões” e que “o leque será aberto para que muitas outras ideias e enfoques sejam encarados”. Poderia dar-nos algum exemplo concreto de como essa mudança de metodologia afeta o presente sínodo?

Card. Orani Tempesta: A metodologia ficou clara. O Papa Francisco divulgou um documento com perguntas sobre o tema para o mundo inteiro, o que demonstrou sua importância devido a quantidade de respostas. Depois realizou um consistório sobre a família. Esse foi mais um passo. Em terceiro, é o que acontece agora: a assembleia extraordinária. O sínodo mesmo acontece em 2015. Esses passos visam encontrar os caminhos para a família e os problemas de hoje. Os passos do sínodo mostram uma metodologia que busca aprofundar o tema pouco a pouco.

ZENIT: Infelizmente, hoje, a família é terrivelmente ameaçada, especialmente pela Ideologia do gênero que, se aplicada, levará à morte da família e da sociedade. Há uma clara consciência do perigo dessa ideologia no seio da Igreja?

Card. Orani Tempesta: Creio que os estudiosos têm advertido, aprofundado, respondido a questão da ideologia do gênero, mas em geral o povo não tem consciência do perigo, não vê com clareza sobre isso no dia a dia. É importante estudar sobre a ideologia de gênero para que se chegue a essa preocupação, esclarecendo a questão nos grupos, nas pastorais para que cada paroquia possa ver, do trabalho local para a consciência global, o perigo da ideologia do gênero.

ZENIT: Há muitas propostas e modelos novos de família hoje em dia. Porém, é possível dizer que também há um grande conhecimento do “evangelho da família”, expressão usada no documento preparatório para o sínodo? Nesse sentido, o documento preparatório também fala que os sacerdotes não estão preparados para transmitir esse evangelho hoje. Em que sentido, no Brasil, os sacerdotes deveriam ter mais preparação sobre a doutrina da família?

Card. Orani Tempesta: Os sacerdotes têm uma boa preparação nos estudos em filosofia, teologia e até especializando-se, mas é necessária sempre uma atualização, pois o mundo muda com rapidez, novas questões surgem com certa velocidade. O documento preparatório do sínodo lembra aos padres a necessidade dessa atualização e preparação para aprofundar a questão das famílias e do matrimonio, a fim de atendê-las e atuar nas homilias e palestras. Precisamos compreender como levar aquilo que sabemos como Igreja pela revelação e como expressar isso no mundo em mudança hoje. Nunca cessaremos de aprofundar e atualizar os temas relacionados ao mundo e ao homem.

ZENIT: A grande maioria dos católicos, em geral, não participam de movimentos eclesiais, onde, em princípio, os membros recebem uma melhor formação doutrinal, espiritual… O documento preparatório do sínodo frisa a importância de uma “formação mais constante e minuciosa: bíblica, teológica, espiritual, mas também humana e existencial”. O que o Brasil poderia oferecer nesse sentido à Igreja Universal?

Card. Orani Tempesta: A formação constante e minuciosa, seja bíblica, teológica, espiritual, humana existencial, para os católicos é fundamental. Sabemos que a maioria no máximo vai a missa. Poucos participam de grupos de reflexão. E muito poucos ainda vão a conferências ou cursos de teologia. Mas temos várias experiências de formação. Aqui no Rio, temos o Mater Ecclesiae, um curso por correspondência e presencial, antiquíssimo, da Arquidiocese, que tem o compromisso de difundir o conhecimento teológico. Temos aqui também um centro de ensino superior de estudos religiosos para aprofundar os conhecimentos sobre a fé. E há também em outras cidades e dioceses, cursos e escolas que podem ajudar os católicos. Temos que descobrir outras maneiras para disseminar o conhecimento. Além do conhecimento, sabemos também que é preciso testemunhar com a própria vida.

ZENIT: E sobre os cursos de noivos? O documento preparatório do sínodo destaca que estão deficientes; Fala-se de transformar os “cursos” em “percursos”. O senhor tem conhecimento de algum curso que realmente seja satisfatório no Brasil? Poderia comentar-nos algo sobre esse ponto?

Card. Orani Tempesta: O curso de noivos presta um grande serviço a Igreja por ser uma formação próxima à celebração do casamento. Mas com o tempo, sentimos outra necessidade. O curso de noivos surgiu numa época que as pessoas tinham um clima familiar diferente, mas com as mudanças não pode se fazer somente um curso de alguns dias em preparação para o casamento. Agora se pressupõe um itinerário, um percurso cristão. Isso já acontece com a preparação para a primeira eucaristia e crisma. Isso também deve acontecer com o casamento. Um itinerário para compreender a fé em sua vida conjugal. O curso de noivos deve ser uma preparação próxima à celebração, mas um itinerário deve conduzir à vida matrimonial.

ZENIT: Quais as linhas pastorais que o Brasil vai propor no sínodo, com relação aos problemas do matrimônio hoje: uniões de fato, divorciados recasados, a situação dos filhos, das mães solteiras, o acesso aos sacramentos, etc? A Igreja deveria ter uma mudança radical na sua pastoral?

Card. Orani Tempesta: O Brasil no sínodo será representado por Dom Raymundo, Dom Odilo, eu e um casal. Os problemas como união de fato, recasados, filhos das mães solteiras, todos esses assuntos estarão presentes no sínodo. O Brasil levará suas preocupações e, ao mesmo tempo por meio da escuta, vai refletir sobre as questões da família para adaptar ao seu trabalho pastoral. Ao ver as mudanças de épocas, de ideias, cabe ver como pastoralmente responder aos novos desafios, às novas necessidades. Devemos sempre nos atualizar pastoralmente.