Na primeira pregação do Advento, o pregador da Casa Pontifícia se inspira na Lumen Gentium e medita sobre   “Igreja corpo e esposa de Cristo”

 

Roma, 04 de Dezembro de 2015 (ZENIT.org) Luca Marcolivio – Por ocasião do “feliz acontecimento” da conclusão do Concílio Vaticano II, o pregador da Casa Pontifícia, padre Raniero Cantalamessa, decidiu dedicar seus três sermões do Advento à Lumen gentium, reservando-se o direito de dedicar as meditações da próxima Quaresma a outros importantes documentos conciliares.

Como apontado por Cantalamessa no primeiro sermão, proferido esta manhã, o Vaticano tem sido discutido quase sempre “por suas implicações doutrinais e pastorais”; muito raramente “por seu conteúdo estritamente espiritual”.

Especificamente, a LG tem três temas dignos de consideração, tais como “a Igreja corpo e esposa de Cristo, a chamada universal à santidade e a doutrina sobre a Virgem Santa.”

O primeiro aspecto implica uma aceitação da Igreja “por amor de Cristo” e não vice-versa. “Mesmo uma Igreja desfigurada pelo pecado de muitos de seus representantes”, observa o Pregador da Casa Pontifícia.

Foi o então cardeal Joseph Ratzinger que realçou “a relação intrínseca entre estas duas imagens da Igreja: a Igreja é o Corpo de Cristo, porque é esposa de Cristo”, referindo-se à  imagem paulina “da única carne que o homem e a mulher formam unindo-se em matrimônio (Ef 5, 29-32) e ainda mais a ideia da Eucaristia do único corpo que forma aqueles que comem o mesmo pão” (cfr 1 Cor 10,  17.). Esta visão é a que mais aproxima a Igreja Católica da Ortodoxa: “Sem a Igreja e sem a Eucaristia, Cristto não teria ‘corpo’ no mundo”.

A realização do homem no Corpo da  Igreja ocorre principalmente através dos sacramentos, do batismo e da Eucaristia. Henri de Lubac afirmou que a “Eucaristia faz a Igreja”, assumiu que a “a Eucaristia faz de cada um de nós o corpo de Cristo, que é a Igreja.”

Ratzinger novamente definiu a Eucaristia  uma “fusão das existências” (a do homem e a de Cristo), segundo um princípio análogo ao da assimilação alimentar. Esta “fusão” não acontece “hipostaticamente, como na encarnação, mas misticamente e realmente”.

Sempre na base da imagem da Igreja esposa de Cristo e da fusão dos órgãos dos corpos do esposo e da esposa, a Eucaristia permite que “a carne incorruptível e dadora de vida do Verbo Encarnado” se torne também a “carne do homem”. Da mesma forma, “também Cristo recebe “o nosso corpo e o nosso sangue”.

É graças à “comunhão esponsal da Missa”, que Cristo “ressuscitado” e “no Espírito”, vive todas essas experiências e condições que na sua existência terrena não experimentou:  “ser casado, ser mulher, ter perdido um filho, ser doente, ser ancião, ser negro”.

É como se Jesus dissesse: “Eu estou com fome de você. Por isso tenho que viver em cada um dos seus pensamentos, em cada um dos seus afetos, tenho que viver da sua carne, do seu sangue, do seu cansaço, devo  alimentar-me de você, assim como você se alimenta de mim!”

A “humanidade de Cristo” é motivo de “consolo e maravilha”, mas, ao mesmo tempo, fonte de grande “responsabilidade” para o homem: “Se os meus olhos se tornassem os olhos de Cristo, a minha boca a de Cristo, tenho motivos suficientes para não deixar o meu olhar se sujar com imagens indecentes, a minha língua não falar contra o irmão, o meu corpo não servir como instrumento de pecado”, explica Cantalamessa.

Além da dimensão “objetiva” e “sacramental” da nossa relação com Cristo e com a Igreja,  há também uma “subjetiva e existencial” se concretiza no “encontro pessoal” com o próprio Cristo. Tal conceito, recorda o Pregador , não era muito aceito no pré-Concílio, em quanto que muitos viam nisso “ressonâncias vagamente protestantes”; preferia-se, então, falar de “encontro eclesial”.

O “encontro com Cristo”, então, não está em contraposição com o encontro  “sacramental” com Ele, mas implica, isso sim, que se trate de um encontro “livremente decidido ou ratificado, não puramente nominal, jurídico ou habitual”.

Além disso, no alvorecer do cristianismo, alguém se tornava um membro da Igreja “depois de uma longa iniciação, o catecumenato” e isso era “o fruto de uma decisão pessoal e muito arriscada, por causa da possibilidade do martírio”.

Com o tempo, no entanto, o cristianismo se tornou religião “tolerada” e depois “favorita, e até imposta”.  Não se coloca mais o acento “sobre o modo com que se torna cristãos, ou seja, sobre a chegada  na fé,  s sobre a mudança de costumes; em outras palavras, sobre a moral”.

A situação era “menos grave” do que hoje, porque “com todas as inconsistências que sabemos, a família, a escola, a cultura e, gradualmente, também a sociedade ajudavam, quase que espontaneamente, a absorver a fé”. Além do mais, neste cenário, “tinham nascido formas de vida, como a vida monástica e, em seguida, as várias ordens religiosas, em que o batismo era vivido com toda a sua radicalidade e a vida cristã fruto de uma decisão pessoal, muitas vezes heroica”.

Hoje, a situação é inversa e precisamos de uma “nova evangelização” que determine “oportunidades” para que os nossos contemporâneos possam tomar  “aquela decisão livre e madura que os cristãos   tomavam no início, ao receber o batismo e que faziam deles cristãos reais e não só nominais”.

A este respeito Cantalamessa recorda que, em alguns países, “a religião mista”, mostrou-se “de grande eficácia”, a proposta de “uma espécie de caminho catecumenal para o batismo de adultos”. No entanto, continua a enfrentar a questão bem mais problemática da “massa dos cristãos já batizados que vivem como cristãos puramente de nome e não de fato, completamente estranhos à Igreja e à vida sacramental”.

Uma resposta para esse problema é representada por “numerosos movimentos eclesiais, grupos de leigos e comunidades paroquiais renovadas, que apareceram depois do concílio”: todos realidade que permitem “muitas pessoas adultas fazerem uma escolha pessoal por Cristo, de levar a sério o seu batismo, de tornar-se sujeitos ativos da Igreja”.

No final de sua meditação, o padre Cantalamessa retomou a questão inicial: “O que quer dizer encontrar e fazer-se encontrar pessoalmente por Cristo? Significa pronunciar a frase “Jesus é o Senhor!” como era pronunciada  por Paulo e os primeiros cristãos, decidindo, com essa, para sempre, toda a própria vida”.

Jesus, de fato, “não é mais um personagem, mas uma pessoa; não mais alguém de quem se fala, mas alguém com quem e a quem se pode falar, porque está ressuscitado e vivo”; Ele não é uma “memória”, mas uma “presença” e é impossível tomar alguma “decisão importante sem antes tê-la submetido à ele na oração”.

É só amando a Cristo, portanto, que “teremos realizado o melhor serviço à Igreja” e a teremos feito fecunda como Esposa que, em quanto tal, “gera novos filhos unindo-se por amor ao seu Esposo”. 

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