Chegam com problemas conjugais: histórias de violência doméstica, alcoolismo, infidelidade ou problemas financeiros. Chegam com histórias de filhos dependentes das drogas, de jogos ou dos novos vícios da internet. Há quem procure ajuda porque os filhos começaram a “mandar” nos pais. Há pais que chegam aqui porque não aceitam a homossexualidade dos filhos. Há divórcios, há “desuniões de facto”, há violências físicas e psicológicas, há violações no seio da própria família, há tristezas, há depressões, há perdas por superar, há gente que quer desistir de viver. Emília Cardoso conhece um sem número destas histórias. Foi-as gravando na memória e no coração ao longo de 17 anos de dedicação ao CAF – Centro de Aconselhamento Familiar, em Coimbra.

 

Emília Cardoso pertence ao Instituto Secular das Cooperadoras da Família e está à frente deste serviço gratuito de atendimento realizado em parceria com o SDPF – Secretariado Diocesano da Pastoral Familiar. Além da Emília, uma vasta equipa de voluntários está sempre pronta para ajudar quem bate à porta do CAF.

Filomena Gaspar, professora da Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação da Universidade de Coimbra, é uma das voluntárias. Ao Jornal da Família explicou o tipo de casos que lhe chegam às mãos. São pedidos de suporte à conjugalidade, em que o trabalho é feito com o casal, são preocupações com os filhos, onde o trabalho é feito, muitas vezes, com toda a família, ou há ainda quem precise de apoio individual que ajude “a restruturar, reorganizar o caminho”, conta esta psicóloga.

Terapeuta Familiar e Educadora Parental, Filomena Gaspar, defende que houve uma mudança nas expectativas em relação à vida. “Nós saímos de um paradigma em que os seres humanos aceitavam o destino para um paradigma em que o ser humano quer ser autor da sua história”. Neste paradigma não é fácil aceitar os fracassos quando o “modelo” vendido pelos media é de sucessos e felicidade. “Muito do caminho que as pessoas fazem aqui comigo é um caminho de aceitação. As pessoas aceitarem, começarem a valorizar aquilo que até àquele momento nem sequer tinham percebido que tinham na vida delas”, afirma Filomena Gaspar. Quanto às pessoas que têm histórias mais doridas “têm de aprender a perdoar porque senão perdoarem nunca vão conseguir estar bem”. Face ao sucesso deste projecto, Filomena Gaspar gostava que outras regiões do país seguissem o exemplo e mais profissionais se voluntariassem para darem esperança à vida de muitas mais pessoas.

A história

No final da década de 90, o SDPF da Diocese de Coimbra sentiu a necessidade de fazer um pouco mais do que estava a ser feito para apoiar famílias com dificuldades conjugais. “Sentimos, na altura, que havia muitas situações de conflito entre casais que conduziam, normalmente, ao divórcio, ou situações em que já estava consumado e as pessoas precisavam de ser acompanhadas”, conta Jorge Cotovio que ao longo destes anos tem estado à frente deste Secretariado. A prioridade do SDPF foi entregar este serviço a uma instituição vocacionada para a família e que pudesse fazer o atendimento 24 h por dia. O desafio foi feito ao ISCF – Instituto Secular das Cooperadoras da Família que prontamente o aceitou. Desde então o CAF instalou-se na Obra de Santa Zita de Coimbra, a cargo das Cooperadoras da Família, e Emília Cardoso é desde então a diretora. É por ela que passam todos os pedidos de ajuda. “50% das situações são resolvidas pela Emília” afirma Jorge Cotovio que várias vezes elogia o trabalho e dedicação desta Cooperadora. “O grande sucesso que o CAF tem tido a nível diocesano e nacional deve-se, em muito, ao facto de estar entregue a uma entidade vocacionada para a família, como é o caso do ISCF, e em ter uma pessoa com disponibilidade 24h por dia”, afirma o presidente do SDPF.

Quando os casos exigem acompanhamento mais especializado são encaminhados para uma equipa de voluntários com competências diversificadas (assistente social, juristas, psicólogo, médicos, gestor financeiro, sacerdote, …) que está disponível para acolher, escutar e esclarecer quem procura ajuda.

Os números

Os números não são o mais importante mas ajudam a compreender o trabalho que tem vindo a ser feito. Passados 17 anos sobre a sua constituição o CAF fez 5.546 atendimentos que resultaram em 3.449 casos: 2.366 mulheres e 1.083 homens. Chegam da zona de Coimbra mas também de outras regiões do país. “Muitos dizem fui lá fora, paguei, fui medicada mas não fui olhada. Aqui, não paguei, fui escutada, fui olhada e vou bem”, conta Emília Cardoso.

São inúmeras as histórias de vida que chegam ao CAF. Emília escuta muitas histórias de vida, mas diz “O que eu faço é uma gota de água, apenas tento escutar, acolher e é o essencial”, afirma Emília Cardoso. “Se conseguirmos salvar uma família por ano já ficamos satisfeitos, ao longo de 17 anos salvamos 17 famílias, mas salvámos muitas mais”, acrescenta Jorge Cotovio. Um trabalho que tem sido reconhecido dentro e fora da Igreja.

Cursos de formação familiar

Mas a Casa de Santa Zita de Coimbra acolhe ainda outras actividades promovidas pelas Cooperadoras da Família. A Olímpia Correia da Silva, já há 27 anos nesta casa, é a monitora. Dá formação dos Cursos de Corte e Confeção e também de Bordados. Desde sempre nesta casa como Cooperadora, faz deste trabalho um modo de viver o carisma e de contribuir para a formação da mulher. Neste ano lectivo tem 19 alunas no curso de Bordados e seis alunas no curso de Corte e Confeção. Três tardes por semana juntam-se para aprender com a Olímpia mas também para conviver e fazer amizades. “Para mim é uma terapia maravilhosa”, afirma a aluna Marilina Pinto, enquanto borda uma toalha para o baptizado de um sobrinho/afilhado.

Esta preocupação com a formação familiar e da mulher é uma herança do Fundador, Monsenhor Alves Brás. Um homem de horizontes amplos. Quis preparar as jovens do seu tempo, numa resposta a vários níveis, abrangendo as famílias que serviam e as que haviam de constituir. O próprio nome da Obra como de “Previdência e Formação já dizia da preocupação que ele tinha de uma formação integral da mulher”, conta Maria José Barreiros de Carvalho, Cooperadora da Família há 29 anos. Maria José recorda que “nas Casas de Santa Zita havia cursos de Culinária, Corte e Costura, Puericultura, Enfermagem e Cursos de Adultos”. Cursos que eram uma autêntica novidade no Portugal da década de 40 e 50.

Olímpia recorda-se que quando veio para esta casa ainda vinham algumas empregadas domésticas a frequentar os cursos mas hoje não participam. Vêm outras de diferentes classes sociais e de outras profissões.

As Cooperadoras continuam também a ter um pequeno serviço de apoio às empregadas domésticas. Há famílias que continuam a dirigir-se a esta casa na hora de contratar uma empregada doméstica, nem que seja para fazer apenas algumas horas diárias.

Uma casa que acolhe

É também neste espaço que o MLC (Movimento por um Lar Cristão) se reúne para os seus encontros. Vítor Jorge é o Casal Coordenador Diocesano e explica ao Jornal da Família a dinâmica deste grupo que envolve cerca de 15 casais. “Fazemos uma reunião mensal de reflexão, fazemos um retiro anual e somos solicitados para os trabalhos da pastoral familiar”. Quanto à angariação de novos membros, Vítor Jorge afirma que “não tem sido fácil” devido às muitas solicitações da sociedade que afastam os casais de uma vivência mais empenhada neste movimento.

Desde 2005 que esta casa possui um protocolo com o Centro Hospitalar e Universitário de Coimbra e recebe utentes (e acompanhantes) que se deslocam a esta cidade para fazer tratamentos, sobretudo oncológicos. Podem ficar uma ou duas semanas ou podem ficar alguns meses, consoante o tratamento. “Existem 15 camas disponíveis para o hospital” afirma Emília Cardoso que vê também este trabalho como uma ajuda à família “num momento frágil das suas vidas”. Mas os utentes podem também ficar nesta casa a título individual. Foi o caso de Ernesto Martins, um dos últimos utentes que aqui ficou cerca de dois meses. A fazer radioterapia, optou por aqui ficar alojado porque no hospital não podia estar com a esposa.

Desde sempre esta casa acolheu também universitários. Hoje são em menor número mas o trabalho das Cooperadoras da Família com os mais jovens continua. Existe um grupo de universitários e outro grupo mais jovem com quem as Cooperadoras dinamizam encontros, retiros e campos de férias.

São várias vertentes aqui dinamizadas mas com um objectivo comum: cuidar e apoiar a família.

 

 

 

 

Escrito por Imelda Monteiro e publicado em Jornal da Família, fevereiro de 2016