1. Ver e testemunhar a beleza da família

Sempre que temos de dizer algo acerca da Família enfrentamo-nos com uma difícil tarefa. Afinal o que dizer quando tudo o que a ela diz respeito parece ter a ver com problemas, dificuldades, dúvidas, incertezas e um sem mais de coisas quase sempre carregadas de tons cinzentos.

 

Mas se esta dúvida nos assalta, juntamente a ela vem uma certeza. Não podemos calar o que vivemos e sentimos na vida familiar, porque é nessa experiência que se joga uma parte muito significativa do sentido e da beleza do nosso viver.

Desta situação paradoxal quero destacar duas ideias que me parecem importantes. A primeira, apontando para uma atitude de humildade, como convite a um falar que, apesar de ser convicto porque acreditamos no que dizemos e vivemos, sabe que a família é uma realidade que não se esgota apenas no que sabemos dizer acerca dela. A segunda para incentivar a uma ousadia que procure elaborar o discurso a fazer, partindo das categorias da beleza e da bondade, e isso porque estou sinceramente convencido de que a melhor maneira de dizer o que é belo e bom é mesmo através da beleza e da bondade.

Ao falar na catequese, o papa Francisco refere-se explicitamente à via da beleza com palavras que me parecem poder ser plenamente aplicadas ao que aqui pretendo partilhar.

“É bom que toda a catequese preste uma especial atenção à «via da beleza (via pulchritudinis). Anunciar Cristo significa mostrar que crer n’Ele e segui-Lo não é algo apenas verdadeiro e justo, mas também belo, capaz de cumular a vida dum novo esplendor e duma alegria profunda, mesmo no meio das provações. Nesta perspectiva, todas as expressões de verdadeira beleza podem ser reconhecidas como uma senda que ajuda a encontrar-se com o Senhor Jesus”. (EG 167)

Ousemos pois fazer isso, mesmo quando a esmagadora maioria das notícias que ouvimos, lemos e vemos acerca da família parecem teimar em só mostrar o negativo, o que está mal. O que é feio. Sem negar esses traços, pois isso seria não só insensato como perigoso, uma vez que poderia dar a ideia errada de que tudo está bem ou pelo menos é tolerável, recuso-me a aceitar que a realidade familiar seja maioritariamente isso. Não, pelo contrário, acredito que o bem, a beleza e a bondade são maioritários. De outro modo a vida e a sociedade tornar-se-iam insustentáveis e insuportáveis.

Não tenho dúvidas, a família é um desses ‘lugares’ ‘tempos’ e ‘experiências’ onde maioritariamente se sente e vive a beleza e a bondade. A família é também um dos dons belos e bons com que Deus se quer dizer a si mesmo.

Como dizia o Pe. Brás “a grandeza ou a decadência da família acompanham sempre a grandeza ou a decadência dos povos”. Procuremos pois neste ano, que para nós é duplamente jubilar (ano da Misericórdia e celebração cinquentenário da morte do Pe. Brás), anunciar essa bondade e beleza. Daí poderá resultar um mais justo e certeiro dizer à família, o que é tão importante para a consequente edificação de uma sociedade humana melhor e mais bela. Não tenhamos medo de predispor o nosso olhar, para procurar ver essa beleza e a nossa acção, para a viver e testemunhar.

 

Escrito por Juan Ambrósio e publicado em Jornal da Família, fevereiro de 2016