Uma pastoral que sirva melhor o Evangelho

D. Antonino Dias, presidente da Comissão Episcopal do Laicado e Família, explica na primeira pessoa o que está na génese do próximo sínodo, como foi a sua preparação e o porquê do interesse da sociedade sobre o que dele advirá.

A próxima Assembleia Extraordinária do Sínodo dos Bispos destina-se “a especificar o status quaestionis e a recolher testemunhos e propostas dos bispos para anunciar e viver de maneira fidedigna o Evangelho para a família”.

O documento que nos foi enviado enuncia muitas das situações problemáticas que afetam a família e reclamam a solicitude pastoral da Igreja.

Ao longo dos tempos, quando era preciso aprofundar para melhor saber agir sobre matérias relacionadas com a fé, a moral, a disciplina e a própria administração, sempre a Igreja sentiu a necessidade de reunir e auscultar para melhor decidir e orientar, sem nivelar por baixo, mas acolhendo as pessoas e procurando caminhar juntos, por aqui ou por ali, ao encontro de quem verdadeiramente interessa: Jesus Cristo.

Mesmo que não tenha competência para estabelecer normas nem emitir decretos, o sínodo dos bispos desempenha um importante papel consultivo, colaborando com o Sumo Pontífice nas decisões a tomar em relação à vida eclesial. E para que a assembleia sinodal cumpra verdadeiramente a sua tarefa, é sempre antecedida pela auscultação do Povo de Deus para que possa sentir e perceber melhor o que os fiéis pensam e dizem sobre a temática em causa. É o resultado deste trabalho que dá origem ao documento sobre o qual a assembleia sinodal se debruça. É um documento resultante do que pensa e sugere o corpo eclesial, embora toda a gente se possa pronunciar sobre a temática em questão e o seu contributo mereça também toda a atenção.

Foi o que esteve agora em causa como preparação da Assembleia Sinodal Extraordinária sobre a Família que o Papa Francisco convocou para de 5 a 19 de Outubro próximo.

Cada bispo diocesano ficou de, com os seus colaboradores, levar o questionário até às bases para serem ouvidas no que pensam e sugerem, com todo o realismo e frontalidade, enviando o resultado final para o secretariado da Conferência Episcopal. Como é fácil de prever, este trabalho é sempre dinamizado por agentes da pastoral mais atentos e despertos, por famílias, conselhos pastorais, movimentos, obras eclesiais, grupos informais nas comunidades cristãs e pessoas que individualmente sentem o gosto de participar. É o que sempre acontece, com mais ou menos empenho, com mais ou menos entusiasmo, sabendo que há sempre quem não consiga arrancar-se da sua rotina pastoral e prefira resistir a qualquer desafio de novidade ou mudança. No questionário que nos foi enviado, não está em causa a beleza da mensagem bíblica sobre a família, que tem a sua raiz na criação do homem e da mulher que, ligados por um vínculo sacramental indissolúvel, vivem o seu amor abertos ao dom dos filhos, tornando-se colaboradores de Deus na obra da criação. O que está em causa é a necessidade de saber como é que a Igreja, dentro do espírito da Nova Evangelização, há-de dar resposta aos novos desafios pastorais que lhe são colocados por tantas e novas problemáticas relacionadas com a Família. Como é que a doutrina da fé sobre o matrimónio pode e deve ser apresentada de modo comunicativo e eficaz. É isso, aliás, o que refere o documento enviado, onde se lê que “o compromisso a favor do próximo sínodo extraordinário é assumido e sustentado pelo desejo de comunicar esta mensagem a todos, com maior incisividade, esperando assim que o tesouro da revelação confiado à Igreja encha cada vez mais os corações dos homens”.

Convenhamos que não é tarefa fácil, mas é importante o esforço que se possa fazer para saber evangelizar no meio de todo este processo de secularização que, se tem aspectos negativos, não lhe faltam também valores positivos. Devido aos temas de fronteira que são abordados, este sínodo tem tido mais impacto do que outros na opinião pública, o que achamos melhor que óptimo.

O que a Igreja defende e propõe, mesmo que nem todos a sigam, tem interesse no seio da comunidade humana, porque o cristianismo é uma questão pública, é anunciado a todos sem se confinar a limites de qualquer espécie e sem andar ao som dos ventos e das modas, mesmo que incomode. Cristo foi incómodo, ninguém ficava indiferente perante o que Ele dizia e fazia, todos reagiam, negativa ou positivamente.

A evangelização é feita numa sociedade aberta, livre e pluralista e, por isso, está sujeita às reacções, positivas e negativas, bem como ao debate que as suas propostas provocam. Tudo faz parte da missão de evangelizar e de um processo de crescimento salutar que promove e liberta. E se esta tarefa deve ser assumida por todos os baptizados, que bom seria se houvesse uma consciência mais apurada e esclarecida desta missão e a manifestássemos, com coerência, sobretudo nos lugares de liderança decisiva na diversidade dos âmbitos de acção em prol do bem comum, particularmente quando é preciso dar a cara para que o sal não deixe de salgar e a luz continue a brilhar.

Porque temos dificuldade em fazer passar a mensagem e não há grande apetência para a procurar e conhecer, a maior constatação nas respostas a este inquérito estará, sem estranheza, na denúncia do défice de formação cristã, de pessoas, famílias e comunidades. Ora, a fé sem formação debilita-se. Por isso, muitas famílias demitem-se ou delegam esta tarefa, contribuindo assim para que muita gente viva à margem da comunidade e ao ritmo de si própria, com as antenas direccionadas para aquilo que o mundo oferece que se é mais agradável e fácil, nem sempre será o mais útil.

Apesar de tudo, predomina a confiança na família constituída por um homem e uma mulher, por aquilo que ela é, pela sua abertura à vida e pela sua altíssima missão de humanização da sociedade. Não há grande abertura às persistentes iniciativas de quem pretende inverter a ordem natural das coisas e impor normas e modelos à la carte para minimizar ou destruir a família, ferindo, assim, a verdade sobre o próprio Homem, na sua dualidade de masculino e feminino, e milénios de civilização. Não ignoramos, porém, que a causa do afastamento e de muitas situações pastoralmente difíceis está no distanciamento que existe entre a moral católica e o sentimento comum em temas de sexualidade e afectividade.  Para além dos seus valores positivos, a “revolução sexual” arrastou consigo muitos problemas e sofrimento nas famílias. Importa, por isso, incrementar uma pastoral que sirva melhor o Evangelho na cultura que nos envolve, com outra linguagem e outros métodos, uma pastoral que faça valer a mensagem que propomos e que está muito para além de proibições e regras.

(Artigo de D. Antonino Dias, bispo da diocese de Portalegre e Castelo Branco, publicado em Família Cristã, Março 2014)