Queridos leitores.

Depois de uma interrupção não prevista, mas necessária, devido a problemas de saúde entretanto já ultrapassados, volto à vossa presença, reforçado na convicção de que, como disse no último texto, é necessário continuar a percorrer o caminho a que somos convidados na Amoris Laetitia e que, como também disse, considero ser uma oportunidade que o Espírito nos está a ‘oferecer’ para aprofundar o Evangelho da Família, caminhando em ritmo de discernimento sinodal.

 

Certamente que todos nos lembramos como este texto era aguardado com muita expetativa. Foi um longo processo de reflexão iniciado pelo papa Francisco, que passou por dinâmicas de escuta do povo de Deus e dois momentos sinodais. Em todo esse processo fomos percebendo não só como a realidade familiar é hoje muito plural, mas também como a reflexão acerca dessa mesma realidade é diversa entre as comunidades eclesiais. Chegou-se mesmo a falar em duas tendências que acabaram por ser apelidadas, de uma maneira simplista, de conservadores e progressistas, numa postura que, logo à partida, indicia a dificuldade em lidar com a pluralidade, pelo que se tenta arrumar tudo em compartimentos bem definidos. O Papa não optou por essa postura, propondo antes um caminho de discernimento com o qual possamos ser capazes de, em conjunto e como comunidade, irmos encontrando as atitudes e os procedimentos mais justos para cada situação, sempre de acordo com a misericórdia, que é o coração pulsante do Evangelho. Como seria de esperar, uma vez que este não é o caminho mais fácil, rapidamente se fizeram sentir vozes de descontentamento, umas acusando o Papa de ter ido longe de mais, outras, no sentido inverso, acusando-o de não ter tido a ousadia de ir mais longe. Num e noutro caso desejava-se uma decisão última do Papa que fosse capaz de dirimir aquela divisão, mas como ela não apareceu de uma maneira clara e taxativa, o texto da Exortação começou a ser apelidado de ambíguo.

Confesso que a reação não me surpreende, ainda que considere que, nalguns casos, ela se tem manifestado publicamente de uma maneira com a qual não posso estar de acordo. Reconheço igualmente que o texto, em questões importantes, não é tão definitivo como muitos pretendiam, deixando espaço para várias interpretações e soluções possíveis. Não vejo nisto apenas uma dificuldade, que o pode ser, mas essencialmente uma oportunidade, que o deve ser, no sentido de procurar os melhores caminhos para anunciar e viver o Evangelho.

A ambiguidade de que muitos falam mais não é do que o espelho da realidade. O que o Papa fez foi recolher, no texto desta Exortação, o que foi a reflexão desenvolvida ao longo de todo este percurso, e essa reflexão, quer queiramos ou não, foi plural e, em muitos casos, ambígua. Mas isso não foi visto como uma catástrofe, pelo contrário, sobre essa realidade o Papa convida a ter um olhar positivo, não porque ignore, ou queira esconder as reais dificuldades, mas porque sabe que Deus nunca desiste e quer fazer caminho com cada um, em cada tempo e em cada lugar, partindo da situação concreta em que se encontra. Não ganhamos nada em mascarar a realidade, ela é o que é, e só aceitando-a como é poderemos agir no sentido da sua transformação.

Essa parece-me ser a atitude do Papa que, por isso, diz:

Em todo o caso, devo dizer que o caminho sinodal se revestiu duma grande beleza e proporcionou muita luz. Agradeço tantas contribuições que me ajudaram a considerar, em toda a sua amplitude, os problemas das famílias do mundo inteiro. O conjunto das intervenções dos Padres, que ouvi com atenção constante, pareceu-me um precioso poliedro, formado por muitas preocupações legítimas e questões honestas e sinceras. Por isso, considerei oportuno redigir uma Exortação Apostólica pós-sinodal que recolha contribuições dos dois Sínodos recentes sobre a família, acrescentando outras considerações que possam orientar a reflexão, o diálogo ou a práxis pastoral, e simultaneamente ofereçam coragem, estímulo e ajuda às famílias na sua doação e nas suas dificuldades. (nº 4)

Sinceramente parece-me mesmo oportuno e necessário olhar para o texto da Amoris Laetitia a partir desta perspetiva, cuidando, como também diz o Papa, com amor a vida das famílias “porque elas não são um problema, são sobretudo uma oportunidade” (nº 7).

A partir destas linhas tentarei fazer convosco essa leitura, recusando-me juntar às vozes do descontentamento.

Escrito por Juan Ambrósio e publicado em Jornal da Família, dezembro de 2016