No momento em que escrevo estas linhas tenho diante de mim o guião que foi utilizado na celebração do meu matrimónio com a Cristina. Já lá vão 25 anos, e, agora, para preparar a celebração das chamadas ‘bodas de prata’’, fui buscá-lo e folheei as suas páginas, revendo os textos que foram lidos, as orações que foram rezadas, os cânticos que foram cantados. O que senti, brotou-me das entranhas e não posso deixar de o partilhar à maneira de um gesto agradecido de acção de graças ao Deus da vida e do amor.

 

Vi o cântico inicial e imediatamente voltou a ressoar como naquele dia. No refrão cantávamos: Por tuas mãos foram criados / à tua Imagem / homem e mulher os criastes / Tu deste-lhes a vida. Sinceramente sinto a vida como um imenso dom de Deus. A minha, a da Cristina, a nossa. Um dom que Deus nos deu e um dom que nós aceitamos, que fizemos nosso, que com ele quisemos desenvolver.

Reli as leituras muito calmamente. Relembrei as palavras da homilia. Umas e outras ficaram tão bem guardadas no meu coração que nem precisava de abrir o guião para, de novo, as escutar.

Centrei toda a minha atenção naquele diálogo que o celebrante estabeleceu connosco. Esse momento, se bem que acontecido há 25 anos, não faz parte do passado. Pelo contrário, ele é bem presente, marcando todos os dias da nossa vida. As palavras que dissemos então, ao colocarmos as alianças, serão reforçadas quando entregarmos um ao outro as ‘novas’ alianças, novamente como sinal de amor e de fidelidade.

‘Escutei’, de novo o refrão que nessa altura se cantou: Só no teu amor / nós seremos um / vem Senhor Jesus abençoar / Guarda em alegria / ecos do teu dia / uma vida inteira para amar.

O guião que há muito pouco tempo reli e que agora tenho, de novo, aberto à minha frente, permitiu-me rever aquele dia e aquela celebração e um turbilhão de sentimentos se apoderou de mim, destacando-se a felicidade, o agradecimento e esta sensação profunda de ter sido abençoado, muito abençoado. Ao tentar perceber um pouco melhor todos os sentimentos proporcionados por esta experiência estranhei, num primeiro momento, a ausência da saudade. Na verdade, este exercício de releitura foi feito com muito carinho, mas não me fez descobrir a saudade desse dia. Confesso que isso me interpelou. Esse dia foi tão importante, continua a ser tão importante porque não ter saudades dele? Ao pensar nisto fez-se como que um ‘clik’. O que então dissemos e prometemos um ao outro, perante a comunidade que connosco celebrava, não ficou dito e prometido só nesse dia, mas tem sido reafirmado todos os dias. Não é passado, como já disse, e por isso não tenho saudades.

Mas há ainda um outro motivo para não ter saudades. O amor que prometemos um ao outro cresceu e desenvolveu-se. Sem deixar de ser o mesmo, a verdade é que já não é simplesmente o mesmo. Hoje amo mais intensamente e mais profundamente a Cristina e sei que o mesmo acontece com o amor dela por mim. Entretanto, esse amor foi enriquecido de uma maneira exponencial pelo André e pelo Filipe, que lhe vieram dar uma nova tonalidade e sentido. Ao longo destes 25 anos pude perceber que o amor que existe entre marido e mulher não tem que ser dividido pelos filhos, pelo contrário, eles fazem com que o amor se intensifique e se aprofunde e até seja capaz de se abrir a novas dimensões. Esse é um dos milagres da família. O amor que está na sua base não se divide, nem diminui ao abrir-se a outras pessoas, antes cresce e multiplica. Também por isto, ainda que tenha muito carinho e ternura por aquele dia há 25 anos atrás e jamais o queira apagar da minha memória, não tenho saudades dele.

O sim que, então, disse, digo-o de novo, ainda mais intensamente, ainda mais conscientemente. E volto a dizê-lo na presença da comunidade e dos amigos, mas digo-o também na presença dos meus filhos, e isso é motivo acrescido de uma imensa felicidade e realização.

Partilho tudo isto convosco, porque aquilo que vivi nestes anos também inclui as Cooperadoras, o nosso Jornal e o caminho que juntos temos vindo a percorrer já há algum tempo. Partilho-o, ousando pedir a vossa oração para dar graças, porque aquelas que dou jamais serão suficientes para agradecer tudo o que estes 25 anos têm sido e significado.

Escrito por Juan Ambrósio e publicado em Jornal da Família, maio de 2015