Há anos, ainda não havia “tabletes”, num Congresso de pediatras atentos à problemática dos adolescentes, um dos palestrantes evocou a imagem da refeição de família, com cada um, de tabuleiro sobre os joelhos, frente à televisão. Sentados lado a lado, a atenção centrada no écran, a comunicação reduzia-se a raras perguntas e comentários monossilábicos. As pessoas coexistiam, não interagiam, não comunicavam não se encontravam. O pediatra concluía: “Esta é a receita adequada para preparar estes jovens para a droga”.

 

Comparei com a minha experiência empírica. Muitos jovens e adultos com dificuldades de integração social e relacionamento pessoal têm deficiente experiência de comunicação interpessoal na família de origem. Recordo, em contrapartida, a experiência das refeições de família, geralmente ao fim do dia. Reunidos à volta da mesa, partilhavam-se experiências, comentavam-se os acontecimentos e trocavam-se informações com o interesse de todos.

Remonto ao tempo da candeia de azeite e da lareira na cozinha. Apesar de sair de casa aos onze anos – o estudo, no caso, o seminário, a isso o forçava -, recordo aquelas tardes de chuva ou longos serões, em que os mais velhos desfiavam recordações, aventuras reais de luta pela vida e sobrevivência, das migrações e rivalidades, dos rituais, das experiências e ensinamentos que nos situavam na história da família ou da comunidade. As histórias infantis que me faziam sonhar eram as tradicionais do lobo, da raposa, da cegonha, dos animais que conviviam connosco. Também aí entravam as histórias bíblicas de Adão e Eva, Noé e o dilúvio, de José do Egipto, do filho pródigo, as lendas, os relatos das romarias aos santuários próximos e dos rituais religiosos míticos e folclóricos que pontuavam o ano e as festas tradicionais.

Mais tarde, as conversas tornaram-se mais sérias e ligadas à realidade e às decisões com os pais, com os tios, com os irmãos. Trocava-se a experiência dos mais velhos com os conhecimentos e mobilidade dos mais novos na iniciação às responsabilidades da família e aos compromissos sociais da cidadania.

A comunicação familiar aproxima as pessoas, mobilizando todas as formas de expressão corporais, afectivas e simbólicas, cria laços, cimenta a coesão familiar e das instituições, cimenta a criação, renovação e transmissão da cultura. Compreende-se assim que as ideologias revolucionárias, que visam a mudança radical do mundo, da cultura e da sociedade não simpatizem com a família, tendam a enfraquecer a comunicação familiar, a subtrair à sua influência o processo educativo e transferi-la para outras instâncias anónimas, nomeadamente a escola estatal supostamente identificada com as novas “luzes”, o “progresso”, a “ciência”, a “liberdade”, as várias utopias do homem abstracto. O “Grande salto em frente” de Mao-tsé-tung substituiu as cozinhas familiares por cantinas enormes separadas para homens, mulheres e crianças. Dividiu as famílias e anulou as formas tradicionais de comunicação para transformar o estilo de vida da população rural da China.

Todas estas evocações “idílicas”, dirão os mais benevolentes, “antiquadas” e “reaccionárias”, considerarão os menos brandos, fazem parte do meu mundo e de muitas gerações. Esse mundo fez da família e das comunidades de proximidade o veículo da cultura, do equilíbrio relacional e afectivo, da transmissão dos conhecimentos empíricos, dos valores e da estruturação das sociedades. Estará definitivamente ultrapassado?

Na era de comunicação global, mediática e tecnológica, o Papa Francisco preocupado com o homem concreto e os seus valores, tomou a comunicação na família para tema da Mensagem do Dia Mundial das Comunicações Sociais comemorado a 17 de Maio: “Comunicar a família: ambiente privilegiado do encontro na gratuidade do amor”.

“A família é o primeiro lugar onde aprendemos a comunicar”. O Papa afirma empiricamente o que a psicologia do desenvolvimento confirma. O desenvolvimento da criança é um processo de interacções, de comunicação em que estão implicados o plano biológico, afectivo, psicológico e simbólico. A família é o espaço primário dessa interacção, “uma realidade concreta que se há-de viver”. Por família entendemos, estamos certos, o Papa entende, a família que envolve o pai, a mãe e os filhos numa estrutura afectiva duradoira que implica a sua coabitação. Sendo lugar de coexistência de indivíduos com papéis diferentes, “a família é «o espaço onde se aprende a conviver na diferença” e “se experimentam as limitações próprias e alheias”. O desenvolvimento da autonomia e liberdade de cada um exige uma dinâmica comunicativa de respeito mútuo que inclui o perdão e a procura do acordo através do diálogo. “Uma criança que aprende, em família, a ouvir os outros, a falar de modo respeitoso, expressando o seu ponto de vista sem negar o dos outros, será um construtor de diálogo e reconciliação na sociedade”.

Neste contexto, qual o contributo para a comunicação em família e entre famílias dos mais recentes meios tecnológicos de informação?

São meios e instrumentos e como tal são determinados pelos fins e circunstâncias do seu uso. Alguns tendem a isolar aqueles que os utilizam, desligando-os da relação com os próximos, da atenção ao outro, abstraindo do poder comunicativo do rosto, da elocução da palavra, do gesto, da dimensão afectiva da presença. Na fruição individual do espectáculo, do jogo, da informação no telemóvel, no “tablete”, na dita televisão interactiva, comunica-se virtualmente ou com quem está longe, mas está-se longe e desligado de quem está perto. Em contrapartida, os meios técnicos de comunicação podem contribuir para aproximar os que estão longe. Famílias separadas no espaço, pelas condições de vida ou exigência de trabalho podem hoje ter os seus momentos de convívio virtual com alguma intimidade e proximidade sensorial e afectiva da presença.

A dimensão individualista e consumista da informação pode ser ultrapassada, no diálogo, no debate crítico, na partilha das visões e abordagens, na aproximação da comunidade familiar. A família é “o lugar onde todos aprendemos o que significa comunicar no amor recebido e dado”.

Escrito por Octávio Morgadinho e publicado em Jornal da Família, maio de 2015