Assumir o protagonismo

Estar no centro das atenções não pode apenas querer significar ser alvo da atenção, da preocupação e da reflexão dos outros.

Claro que nos dias que correm isso é, por si só, importante, uma vez que a família, apesar de estar constantemente presente nos discurso de todas as forças políticas e sociais, acaba por não ter nem o lugar, nem os apoios que seriam normais, a serem realmente verdadeiros os tais discursos que a ela constantemente fazem menção.

A família – ou seja, cada um de nós enquanto membro de uma família – não se pode, pois, contentar com o estar desta maneira no centro das atenções. O que se exige é mais, é mesmo muito mais.

No fundo, trata-se de assumir um protagonismo que pouco a pouco leve as famílias a serem, elas próprias, construtoras da reflexão e da ação que é necessário, com urgência, desenvolver e implementar durante este período de tempo que, de uma maneira especial, lhe é dedicado.

Mas como fazer isto? Como assumir o protagonismo? E que tipo de protagonismo?

Na carta que o Papa Francisco escreveu recentemente às famílias (2 de fevereiro, na festa da Apresentação do Senhor) podemos encontrar algumas pistas de resposta às questões anteriormente enunciadas.

O motivo da carta é logo descrito no princípio, quando o Papa fala na convocatória da Assembleia Geral, Extraordinária do Sínodo dos Bispos para discutir o tema «Os desafios pastorais sobre a família no contexto da evangelização».

A importância que o Papa atribui a este acontecimento é facilmente percetível a partir de dois elementos. O primeiro reside no facto, inédito, do Sínodo ter duas etapas, sendo a primeira a Assembleia Geral Extraordinária, a que já fiz referência e que será dedicada a perceber o ‘estado da situação’; e a segunda, a Assembleia Geral Ordinária, a ter lugar em 2015, que se centrará mais em discernir linhas de ação pastoral.

O segundo elemento destaco-o das seguintes palavras: “Este importante encontro envolve todo o Povo de Deus: Bispos, sacerdotes, pessoas consagradas e fiéis leigos das Igrejas particulares do mundo inteiro, que participam ativamente, na sua preparação, com sugestões concretas e com a ajuda indispensável da oração.” Como vemos é todo o povo de Deus que é convidado a envolver-se e a comprometer-se neste acontecimento.

 E se ninguém se deve sentir dispensado deste compromisso, muito menos as famílias a quem o Papa expressamente dirige as palavras que a seguir transcrevo: “O apoio da oração é muito necessário e significativo, especialmente da vossa parte, queridas famílias; na verdade, esta Assembleia sinodal é dedicada de modo especial a vós, à vossa vocação e missão na Igreja e na sociedade, aos problemas do matrimónio, da vida familiar, da educação dos filhos, e ao papel das famílias na missão da Igreja. Por isso, peço-vos para invocardes intensamente o Espírito Santo, a fim de que ilumine os Padres sinodais e os guie na sua exigente tarefa.”

As famílias são, pois, convidadas a assumir um protagonismo muito especial através da oração. E desenganem-se aqueles que julguem que a oração termina na oração, ou seja, que no próprio ato de rezar a oração está concluída. Pelo contrário, da oração de Jesus, daquela que ele nos testemunhou e ensinou, facilmente podemos depreender que somos lançados a tudo fazer para concretizar o que na oração está a ser rezado e partilhado.

O protagonismo da oração que é pedido às famílias implica igualmente um protagonismo aos mais diversos níveis do viver e do agir, para que todos em conjunto, como povo de Deus, possamos percorrer um verdadeiro caminho de discernimento que ajude a encontrar as respostas adequadas, à luz do Evangelho, aos desafios com que hoje nos enfrentamos.

Ser o centro das atenções deve, então, ter como consequência assumir também uma centralidade no protagonismo da ação e não me refiro só ao que ao Sínodo diz respeito, mas a todos os outros âmbitos do viver humano, dos quais destaco a dimensão social e política.

O que está em jogo é, como sabemos, verdadeiramente fundamental, pelo que não podemos deixar esse protagonismo noutras mãos. E a este nível, a missão das famílias cristãs torna-se ainda mais evidente.

 (por Juan Ambrósio, em Jornal da Família, Março 2014)