Entrevista de FAMÍLIA CRISTÃ a Mons. Vincenzo Paglia, presidente do Conselho Pontifício para a Família

A sua cara de avô revela o pensamento de um profundo conhecedor da realidade da família. Mons. Vincenzo Paglia, presidente do Conselho Pontifício para a Família, entra na sala para a entrevista apressado e sai quase a correr, mas enquanto esteve com a FAMÍLIA CRISTÃ as suas respostas não demonstraram pressa ou urgência. Antes, havia um grande conhecimento da realidade da família hoje em dia, e um desejo de que as famílias se entendam e se apoiem nos momentos mais difíceis, como o desta crise que se vive nos nossos tempos. Reconhece que a Igreja precisa de fazer mais em relação à catequese familiar e pergunta porque é que não há quem dê catequese aos pais e aos seus filhos com menos de seis anos.

 

Pensa que o conceito de família que a Igreja defende pode estar a mudar?

Não há dúvida que o conceito de família está a mudar. A questão é saber se está a mudar na substância ou nas formas. Na substância, creio que é indispensável que a família continue a ser aquilo que sempre foi: pai, mãe e filhos. Se depois existem outras formas de convivência, não são certamente uma família, porque a família exige, pela sua natureza própria, a continuidade das gerações. Dou um exemplo: não acredito que em Lisboa, há dois mil anos, existissem as mesmas casas de hoje. Atualmente, penso que em Lisboa tem lindos palácios, extraordinários, mas sempre quatro paredes e um teto. Era assim há dois mil anos, e hoje também. Isto é de tal maneira evidente que significa que, por comparação, não se poderia dizer que duas colunas sejam um palácio… Parece-me um pouco um problema. Toda a tradição jurídica dos nossos antepassados – a grande tradição do Império Romano e depois até a grande a tradição laica, que deu origem aos direitos humanos, aos direitos das crianças – diz que a família é realmente pai, mãe, filhos, sobrinhos, primos, que continuam o curso dos séculos.

Apesar dos níveis demográficos baixos, não se fala da necessidade de ter filhos. Porquê?

Este é um problema que existe por defeito de cultura. É o medo do futuro. Estamos de tal forma concentrados sobre o presente e sobre a nossa “pequena” felicidade que esquecemos a felicidade da sociedade e também a dos nossos filhos. Até a da própria Europa. Um antigo provérbio árabe dizia: Um agricultor, quando deita à terra a semente de uma palmeira para que cresça, sabe que os frutos, não será ele a comê-los, mas sim o filho ou até o filho do filho. E isto é como se dissesse que a falta de filhos acompanha a falta de esperança e de futuro. Muitas vezes a política não ajuda, porque se vier um filho, logo se começa a temer o problema económico. Se vem um segundo, com a crise, chega a pobreza. Então é difícil que os jovens sejam levados a casar-se. Em breve não se casarão também porque não há trabalho. Mas isto é culpa da família ou da falta de trabalho? Muitos não se casam porque não têm casa. E quantos não se casam porque não têm um salário suficiente? Neste sentido, a baixa da natalidade é um problema enorme. Quando formos anciãos e não houver jovens, o que é que nos acontecerá?

Muita gente pensa que a falta de crianças é uma das causas do problema económico, porque não há crianças que cresçam para ser adultos e suportar a vida na sociedade…

Neste sentido culpo uma falta de cultura solidária, porque hoje cada um pensa somente em si, na própria felicidade, no próprio interesse, no próprio lucro. Perdemos um certo pensar comum, perdemos a beleza do “nós”, que na família encontra o primeiro núcleo. É por isso que pôr a família em risco não é só colocar em crise apenas a família, mas também Lisboa, Portugal, a Europa, é pôr em causa a beleza da vida. Quando a Europa era forte, quando Portugal tinha uma força interior, conquistou o mundo. E agora o que é que conquistámos? Nem quase nós mesmos! Por isso, é indispensável encontrar uma força espiritual ou interior; e isto digo-o antes de mais a nós cristãos católicos. Temos de descobrir a beleza da força do matrimónio. E digo-o até aos leigos; até o digo a quem não crê. Onde vamos acabar, nós os anciãos? Quem nos ajudará? Porque haveremos de ver a velhice como um naufrágio e não como a conclusão de uma vida? Seremos fracos, mas se nos encontrarmos sozinhos, a fraqueza será pior do que a morte. E é por isso que esta terrível práxis hodierna se está a transformar na cultura da eutanásia. Chamam-na precisamente “eu…tanásia”, uma boa morte, a de cada um a provocar a si mesmo. Eu penso, caros amigos, que a família é a melhor pérola do mundo. Não a abandonemos!

Pensa que a sociedade corre o risco de desaparecer? Estamos a caminhar para o fim de uma era no mundo?

Eu creio que, por exemplo, não há dúvidas que em Itália, para fazer uma pequena comparação, a imigração de estrangeiros igualou a queda de natalidade, e assim há um pouco mais de esperança, por terem vindo estes estrangeiros que têm mais filhos do que os italianos. Mas efectivamente, se uma família não gera mais filhos – é claro que, não somente a família, mas a Nação -, destina-se aos poucos a desaparecer. Não é que este desaparecimento venha de repente. Começa com o desregramento e com a solidão que crescem, e com a procura do bem-estar individual desaparece aquela beleza e também a fadiga de construção do “nós”, de nos construirmos em conjunto. É claro que isto custa. Quando uma mãe jovem tem um primeiro filho, é claro que algo sucede de sacrifício. E quando chega o segundo, aparece outro problema que tem a ver com a relação entre os dois, com as invejas. Mas quando um fica doente, imediatamente cresce a sensibilidade de ajudar aquele que está no tapete. E é assim que se constrói a família e a sociedade.

Muitas crianças chegam à catequese sem bases teológicas que a família devia dar. É um problema também da paróquia?

Esse problema é um defeito pastoral. Na minha diocese, Termi, através de uma reorganização da Catequese da Iniciação Cristã, o baptismo não está desligado dos outros. Porque é que, por exemplo, temos tantos catequistas para a Primeira Comunhão, tantos catequistas para o Crisma, mas porque é que não criámos também catequistas para os pais e para as crianças até aos sete anos? É um problema.

Mas esse não deveria ser o papel da família?

Certamente. É o que estou a escrever e estou empenhado em apresentar no Manual de Preparação para Noivos. Aí vou dizer a estas pessoas que o nascimento de um filho deve implicar um acompanhamento durante todo o percurso da adolescência. Dou-lhe um exemplo: Não estou a ver que uma família só seja responsável pela educação até mais ou menos aos sete anos. Porque é que acontece isto na Igreja, que após o baptismo só levamos a criança à Igreja depois dos sete anos? Desde a maternidade, deve-se levar para casa para sempre o fazer crescer… até ao Crisma. Como uma criança, logo que nasce, tenta procurar a mãe e reconhecê-la, pelos gestos e pela voz (não porque a entende!), assim todos os nossos filhos devem crescer experimentando o cheiro das velas. Infelizmente, hoje nota-se que é cada vez mais difícil ter as crianças na Igreja, porque não estão habituadas.

Os projectos de catequese familiar que surgiram na América Latina e vieram para a Europa são experiências que lhe agradam?

Também nisto é importante que na Igreja haja uma troca de experiências. E não duvido, porque eu próprio estive no Rio, onde vi os programas do episcopado brasileiro, que são excelentes sob este ponto de vista. E creio que é até comum a atenção que em certas dioceses se dá neste acompanhamento desde o nascimento, em que temos criancinhas, adolescentes, jovens, todos juntos, a participarem. Diria que a educação é como o amor: não poderá terminar, porque é indispensável.

 (Artigo publicado em Família Cristã, Janeiro 2014)