11. (Des)Centrar-me para transformar(-me)

Por Juan Ambrósio, publicado em Jornal da Família, Fevereiro de 2015

 

O título que escolho para estas linhas pode parecer estranho e não ser de fácil leitura à primeira vista. Apesar desse risco escolhi-o, porque me parece que traduz bem aquilo que convosco quero partilhar.

Recentemente tive a oportunidade de participar num encontro, onde um grupo de responsáveis de Colégios Católicos reflectia acerca de como encontrar a melhor maneira de ajudar os alunos a crescerem como pessoas e, simultaneamente, a comprometerem-se com o crescimento dos outros e com a transformação da realidade. Confesso-vos que para mim foi um momento muito enriquecedor, não só porque me permitiu voltar às fontes, uma vez que fui durante bastantes anos professor de Educação Moral e Religiosa Católicas num desses Colégios, tendo mesmo desempenhado outros cargos com responsabilidades pedagógicas a vários níveis, como também porque os meus dois filhos cresceram e estudaram nele. Guardo já desses tempos uma memória saudosa e grata, e digo já porque foi ainda em Setembro passado que celebramos a entrega do diploma de finalista ao meu filho mais novo. Nessa ocasião, tive a oportunidade de dizer, em nome dos pais, algumas palavras que aqui ouso repetir, em parte, porque reforçam e dão sentido ao título.

“Como pais, e é agora nessa condição que falo, já todos nos interrogamos sobre o futuro dos nossos filhos. Queremos para eles o melhor e, por isso, tudo fizemos e continuaremos a fazer para, daquilo que de nós depender, os podermos ajudar a concretizar esse futuro. Ajudá-los a crescer em todas as dimensões que constituem a condição humana foi o que pedimos ao Colégio. Temos consciência das enormes dificuldades e exigências que a resposta, a este pedido implicavam. Agora, ao olhar para o caminho percorrido somos capazes de reconhecer as derrotas e as vitórias, os fracassos e as conquistas que, afinal, estão presentes em todo o caminhar e dos quais, ainda que de maneiras diferentes, somos todos corresponsáveis. Desse olhar, brota uma sensação clara: esta etapa foi concluída e a avaliação é claramente positiva. E os nossos filhos aí estão para prová-lo. Por mim falo – e sei que todos os pais aqui presentes sentem o mesmo pelos seus filhos – ao olhar para o Filipe, sinto um imenso orgulho ao ver o rapaz em que se tornou. Por todos os nossos filhos aqui presentes ‘dou voz’ a este sentimento de agradecimento e de acção de graças.

Permitam-me ainda uma última nota, esta agora mais virada para o futuro. A preocupação pela educação e pelo futuro dos nossos filhos não pode ficar só reduzida a eles. De um modo ou de outro, já todos nos interrogamos também pelo futuro da sociedade que estamos a construir. Não há como esconder, alguns sinais são muito preocupantes.

Sinceramente, julgo muito certeiro o diagnóstico que o papa Francisco faz do momento em que vivemos. O grande risco do mundo actual, diz-nos ele no nº 2 da Exortação Apostólica Evangelli Gaudium, é uma tristeza individualista que brota do coração que se fechou sobre si mesmo. O individualismo, que tantas vezes se traduz no egoísmo, é certamente um dos perigos mais graves que temos de enfrentar e um dos desafios mais urgentes a que temos de responder.

Por isso não basta que os nossos filhos sejam felizes e se sintam realizados, é necessário que eles também se sintam corresponsáveis pela felicidade e pela realização dos outros. Nesse sentido, o compromisso com o bem comum e o cuidado dos outros, sobretudo daqueles que são os mais frágeis, revelam-se como verdadeiramente fundamentais. Acredito sinceramente que outro caminho não só é desejável, como também é possível. Para isso, e recorro de novo às palavras do papa, agora no nº 10 da Exortação, “a proposta é viver a um nível superior, mas não com menor intensidade: na doação, a vida se fortalece; e se enfraquece no comodismo e no isolamento. De facto, os que mais desfrutam da vida são os que deixam a segurança da margem e se apaixonam pela missão de comunicar vida aos demais. (…). A vida alcança-se e amadurece à medida que é entregue para dar vida aos outros”.

O texto continuava, mas não me parece necessário transcrevê-lo, pois julgo que a ideia que queria transmitir já ficou clara. Na verdade, o tempo que estamos a viver reveste-se de uma enorme e significativa importância porque nele estamos a forjar os paradigmas com que iremos construir o futuro. Sei que todos os tempos têm essa importância, mas há momentos que se revestem de uma maior densidade neste sentido, e acredito que aquele que estamos a viver é um desses. Também a educação, que tem sempre uma enorme importância para construção do futuro, se reveste, nestes tempos, de uma dimensão ainda mais capital. Ajudar os nossos filhos a centrarem-se na felicidade e no cuidado dos outros, descentrando-se de si mesmos, é uma das melhores maneiras de os ajudarmos a transformar o mundo nesse sentido novo que não podemos deixar de dar-lhe. Nesse compromisso certamente também eles se transformarão em pessoas mais felizes e realizadas. Não tenho dúvidas de que enquanto cada um estiver centrado em si mesmo todo o compromisso para com os outros só poderá surgir num momento segundo, e só depois de terem sido alcançadas as condições julgadas necessárias para a felicidade de cada um, o que, como facilmente todos conseguimos perceber, tornará muito mais difícil a atenção e a abertura aos outros.

Uma vez mais a família, bem como o diálogo e a cooperação que ela conseguir estabelecer com a escola, se revelam como realidades verdadeiramente fundamentais para a construção de um futuro onde todos se sintam comprometidos com a realização e a felicidade de todos. Não é essa, afinal, uma das experiências mais importantes e significativas do viver em família?