A Família: Um olhar a partir da beleza e da bondade

Quando estas linhas chegarem às mãos dos nossos queridos leitores já todos, ou pelo menos a grande maioria, teremos voltado às nossas tarefas e aos nossos ritmos habituais de trabalho e de vida. Esta realidade não tem porque ser lida de uma maneira negativa, pelo contrário ela é indicativo de que a vida continua e isso é mesmo muito bom. Um dos objetivos das férias é aliás, como muitas vezes ouvimos dizer e nós mesmos dizemos, ajudar-nos a carregar as baterias para continuarmos a viver e a construir o futuro. A este nível é bom que tenhamos consciência de que as férias estão ao serviço da vida e não podem ser o centro da vida, ou se quisermos, para dizer de outra maneira, ainda que possa soar de um modo um pouco estranho, não vivemos para ter férias, temos férias para poder viver melhor e mais intensamente. E dito isto, é também bom cairmos na conta de que elas não podem ser pensadas e preparadas como um simples intervalo na vida. As experiências que nos proporcionam deveriam estar sempre bem integradas no todo da nossa existência.

Mas não foi para falar de férias que partilho esta reflexão. O objetivo é outro e tem mesmo a ver com o retomar das nossas atividades. É que pode acontecer que neste recomeço existam coisas importantes que corram o risco de ficar esquecidas. Se não vejamos: a celebração do ano jubilar está praticamente a encerrar, tal como a dinâmica de reflexão sinodal acerca da família parece ter acabado, uma vez que já temos o texto porque esperávamos (Exortação Apostólica Pós Sinodal Amoris Laetitia), agora é, pois, o tempo de esperarmos que nos digam qual o foco novo onde devemos prender a nossa atenção. Da minha parte já vou ‘sentindo no ar’ sinais desta expetativa, o que me levanta algumas interrogações. É que com a clausura da Porta Santa da Misericórdia não termina nenhum caminho, bem pelo contrário começa é uma nova etapa na vida da Igreja e dos cristãos, nova etapa que tem de ter a marca inequívoca da misericórdia. Se algo percebemos com toda a clareza neste jubileu extraordinário é que a misericórdia tem de ser o critério para aferirmos a qualidade e a fidelidade da nossa opção cristã. O fim da celebração do ano Jubilar é, afinal, um (re)começo, que não podemos deixar de fazer.

Também no âmbito da reflexão acerca da família e da ação pastoral que daí deve decorrer o caminho não está concluído. A Exortação é simultaneamente um ponto de chegada e um ponto de partida. Com ela p papa Francisco partilha uma reflexão de síntese sobre o caminho percorrido, mas igualmente aponta pistas para o caminho a percorrer. Também a este nível não chegámos já ao fim, uma vez que fomos desafiados a percorrer o caminho do discernimento, como já tive a oportunidade de partilhar convosco. Sinceramente, a este propósito, julgo que há ainda muito que fazer, não só na leitura, receção e compreensão do texto da Exortação, como na procura de caminhos para os desafios que foram claramente identificados. A este nível julgo mesmo qua ainda fizemos muito pouco, e confesso que isso me entristece um pouco. Não vejo que o texto esteja a ser o suficientemente refletido e assimilado. Falou-se tanto na família e, agora, podemos correr o risco de deixarmos escapar esta oportunidade que, a meu ver, o Espírito nos está a ‘oferecer’, de juntos, em ritmo de discernimento sinodal, continuarmos a aprofundar a beleza e a bondade da família.

Da minha parte, a partir deste espaço, e com a vossa ajuda, proponho-me continuar a percorrer o caminho a que somos convidados na Amoris Laetitia. Aliás é esse o convite que descubro nas últimas linhas do texto, quando o papa Francisco nos diz:

Com efeito, como recordamos várias vezes nesta Exortação, nenhuma família é uma realidade perfeita e confecionada duma vez para sempre, mas requer um progressivo amadurecimento da sua capacidade de amar. […]. Mas contemplar a plenitude que ainda não alcançámos permite-nos também relativizar o percurso histórico que estamos a fazer como família, para deixar de pretender das relações interpessoais uma perfeição, uma pureza de intenções e uma coerência que só poderemos encontrar no Reino definitivo. Além disso, impede-nos de julgar com dureza aqueles que vivem em condições de grande fragilidade. […]. Avancemos, famílias; continuemos a caminhar! Aquilo que se nos promete é sempre mais. Não percamos a esperança por causa dos nossos limites, mas também não renunciemos a procurar a plenitude de amor e comunhão que nos foi prometida. (nº 325)

É mesmo bom estarmos de volta. Os desafios que se nos levantam a este nível são certamente difíceis, mas não apaixonantes e da resposta que lhe dermos, não tenhamos dúvidas, depende muito o futuro que já estamos a construir.

 

Escrito por Juan Ambrósio e publicado em Jornal da Família, outubro de 2016