(Artigo de D. António Carrilho, bispo da diocese do Funchal, publicado em Família Cristã, Abril 2014)

 

A família sempre constituiu prioridade pastoral e âmbito catequético importante para a Igreja. Ela continua a ser a primeira e fundamental expressão da natureza social do homem, uma comunidade de pessoas para quem o modo próprio de existir e viver juntas é a comunhão no amor.

No contexto do magistério conciliar e pós-conciliar da Igreja, o princípio fundante da família cristã, como comunidade de vida e de amor, é constantemente reafirmado e proposto como projeto de vida conjugal e familiar, que se realiza, em plenitude, na graça sacramental e vivência do matrimónio cristão.

 

UM PROJETO DE COMUNHÃO

Ser família e cuidar dela revela-se um grande desafio na sociedade moderna, às vezes apelidada de “sociedade líquida”, onde tudo flui, tudo é instável, efémero ou passageiro. As decisões surgem, frequentemente, do imediato e não adquirem estabilidade, paz e experiência de plenitude, necessárias a um projecto de comunhão. As liberdades flutuam como medusas, seguindo as correntes de opinião e as modas.

Em tal contexto, os individualismos surgem e desenvolvem-se com nova pujança, gerando-se um mundo conforme os mais variados interesses. As próprias relações humanas estão inspiradas nas variáveis das necessidades de cada pessoa. De facto, em poucas dezenas de anos, alteraram-se em grande medida as relações intrínsecas na família, entre homem e mulher, entre pais e filhos. Mudou também a sua imagem social, deixando de ser paradigma e referência para os grandes momentos do viver humano.

No seio dos espaços variados e do ambiente multicultural em que se processa a vida actual, a família é a comunidade humana em que, de forma espontânea e gratuita, cada um logo ao nascer é reconhecido no seu carácter pessoal, irrepetível e insubstituível. É espaço privilegiado para a aquisição dos princípios básicos da vida humana e da família cristã como “Igreja doméstica”, onde se descobrem valores éticos e critérios morais, iniciando-se a educação religiosa e abrindo-se caminhos vocacionais e de opção evangelizadora.

Não se pode falar em família evangelizadora sem abordar a sua responsabilidade na transmissão da fé, e transmitir a fé pressupõe tê-la recebido de outros. Sabemos que só a pode transmitir aquele que acredita verdadeiramente e conserva uma fé viva, pois ninguém pode dar o que não tem. Transmitiremos a fé na medida em que acreditarmos em Cristo e conservarmos em nós esta convicção, esta chama do Seu amor.

 

VIVER NA COERÊNCIA DA FÉ

No seio das comunidades cristãs são os pais os primeiros responsáveis da transmissão da fé aos seus filhos, em especial com o testemunho da vida cristã. A educação dos filhos e do conjunto dos membros da família é, pois, inseparável da vivência cristã da vida familiar quotidiana, a partir dos compromissos assumidos pelos pais no seu matrimónio e no baptismo dos filhos.

Sendo a família a célula vital da sociedade, o amor conjugal vivido em comunhão familiar é o seu núcleo estruturante. Sem casais robustos não existem famílias sólidas. Este é um dos aspectos que se têm manifestado positivos na crise que vivemos: o testemunho de famílias consistentes, alegres e felizes é para muitos o grande suporte nas contrariedades, na doença, no desemprego, nos recursos escassos e em tantas outras dificuldades.

Neste ambiente de tão grande complexidade, torna-se imperativo reestruturar a família e, ao mesmo tempo, reafirmar os seus valores humanos e teológicos, para quantos desejam viver em família, segundo o projecto de Deus, ter nele a referência para a felicidade que na família todos procuram. A família cristã tem de ser testemunha da fé que professa e vive, testemunha do Amor de Deus nos pequenos e grandes acontecimentos da sua vida.

Ser testemunha é ser ponto de referência e estar pessoalmente comprometido com a verdade que é Cristo, sabendo comunicar as razões da fé e a coragem da esperança. E esta não é tarefa fácil! Porque vivendo no mundo, as famílias cristãs não se podem identificar com ele e são confrontadas diariamente com esta dicotomia, com a permanente necessidade de discernir o seu modo de viver na coerência da fé.

 

CAMINHO DE FELICIDADE E SANTIDADE

Diz o Papa Francisco que a fé não é refúgio para gente sem coragem; pelo contrário, procurar ser fermento na massa leva-nos a ler o mundo de forma diversa e por vezes a tomar posições dolorosas e incompreensíveis para muitos, mas que são sinais de fidelidade a Cristo, de coerência de vida e de esperança (cf. A Alegria do Evangelho, nº 66). Neste sentido, a família não se conforma com o mundo mas, vivendo plenamente, faz dele caminho de felicidade e de santidade.

Refere ainda o Papa: “A fé não é um facto privado, uma conceção individualista, uma opinião subjectiva, mas nasce de uma escuta e destina-se a ser pronunciada e a tornar-se anúncio.” (A luz da fé, nº 22) É a este anúncio que os cristãos são chamados, a maioria talvez mais pelo testemunho do que pela palavra, ou seja, pela sua coerência de vida.

A Igreja, discernindo os sinais dos tempos, vê com preocupação as estratégias postas em prática para eliminar da consciência da sociedade os valores cristãos da família e do matrimónio. As famílias cristãs são, por isso, desafiadas a encontrar novas formas de evangelização. Mobilizando-se para implementar um renovado dinamismo de anúncio da fé em Jesus Cristo.

 

DESAFIOS PASTORAIS DA FAMÍLIA

Neste sentido se podem interpretar as preocupações do Papa Francisco ao convocar uma Assembleia Extraordinária do Sínodo dos Bispos, para outubro deste ano, sobre o tema “Os desafios pastorais da família, no contexto da nova evangelização”. Este desafio do Papa inscreve novamente a família, como parte do povo de Deus, na missão evangelizadora e na construção do Reino (cf. LG, nº 34). Mas é igualmente reconhecida a importância da missão evangelizadora da Igreja relativamente às famílias: Que opções, que linhas pastorais, que boa notícia pode, hoje, a Igreja transmitir aos casais e às famílias?

Analisando os dados recolhidos das respostas ao questionário enviado à Igreja Universal, verifica-se que os documentos do Magistério da Igreja sobre a família são ainda desconhecidos pela maioria dos cristãos e que as famílias muitas vezes se demitem da sua missão de educar cristãmente os filhos. Constata-se assim que existe um longo e persistente trabalho a realizar na Igreja, nas áreas da pastoral familiar e da sua missão evangelizadora.

Quanto à catequese, o Papa Francisco, no Congresso Internacional da Catequese, realizado em Roma, em 26-30 de setembro de 2013, no âmbito das celebrações do Ano da Fé, dizia: “Educar na fé é maravilhoso! (…) Ajudar as crianças, os adolescentes, os jovens, os adultos a conhecerem e a amarem cada vez mais o Senhor é uma das mais belas aventuras educativas; está-se a construir a Igreja!”

 

CATEQUESE E NOVA EVANGELIZAÇÃO

Mais do que nos métodos e nas palavras, o Papa insiste no valor do testemunho de uma vida de fé coerente, de união e amor a Cristo, de abertura e generosidade para O levar aos outros. A começar, certamente, nas próprias famílias e saindo para as periferias, com criatividade, buscando novas formas e linguagem, por caminhos de nova evangelização.

Reconhecemos, sem dúvida, o empenho de renovação da catequese, por parte dos serviços nacionais e diocesanos e de muitas paróquias, e a preocupação insistente de associar e apoiar as famílias cristãs, para que assumam as suas responsabilidades educativas.

Sem menosprezar os esforços já feitos, não podemos, no entanto, deixar de atender ao que consta nas conclusões do Congresso de Roma: “Se a Igreja embarcou no caminho da Nova Evangelização, a catequese não pode permanecer com as mesmas características do passado, mas deve renovar a sua forma de transmitir a fé, com novas abordagens educativas.” (Nº 5) E “esta transmissão no seio da família é insubstituível” (nº 8).