Nasce-se  homem ou mulher, ou o sexo é resultado de educação e cultura? Ser homossexual é igual a ser heterossexual? A ideologia de género defende que é preciso abolir o que propõe um sexo ou orientação às crianças. Em Espanha, vai ser ensinada nas escolas de Madrid. A FAMÍLIA CRISTÃ foi à procura do que se passa em Portugal.

 

«Já sabem se é menino ou menina?», é a pergunta mais ouvida por casais à espera de bebé. O enxoval, o nome e o quarto do bebé são preparados a partir daí. Mais tarde, começarão as perguntas sobre as diferenças entre meninas e meninos. Agora imagine que não respondia ou que dizia: «Teres pipi não significa que sejas menina. Podes decidir mais tarde».

Diogo Costa Gonçalves é professor auxiliar da Faculdade de Direito de Lisboa. Em 2003, foi consultor da Conferência Episcopal para uma carta pastoral sobre a ideologia de género. À FAMÍLIA CRISTÃ faz questão de dizer que o termo não significa igualdade de direitos entre homens e mulheres. Então o que é? Diogo Costa Gonçalves explica tratar-se de uma estrutura de pensamento antropológica cuja característica fundamental é «entender a masculinidade e a feminilidade como produtos puramente culturais, sendo absolutamente indiferente a realidade genital ou cromossomática com que as pessoas nascem; defende que a identidade sexual é produzida por um contexto cultural patriarcal e machista que visa subjugar a mulher». Ou seja, ninguém nasce homem ou mulher, torna-se homem ou mulher pela educação e pela cultura. Assim, o objectivo da ideologia de género é ter uma sociedade sem sexos.

Para isso, desde os primeiros anos é preciso promover a troca de papéis e eliminar as diferenças de comportamento entre meninas e meninos.

Maria José Vilaça é psicóloga e afirma que nesta ideologia «tudo aquilo que eu sou passa a ser determinado pela minha preferência sexual e não pelo meu corpo. Há uma espécie de divisão entre aquilo que eu sou e aquilo que o meu corpo é».

Em Portugal, Diogo Costa Gonçalves explica que o primeiro passo da ideologia de género foi dado na lei do divórcio sem culpa. Ou melhor, numa das epígrafes do registo civil. «O que era “poder paternal” passou a chamar-se “poder parental”. Foi uma manipulação de linguagem importante porque o termo “paternidade” está muito relacionado com a geração biológica. Era preciso desconstruir socialmente a figura do pai e da mãe».

Na legislação, o professor de Direito aponta outras marcas: o casamento entre pessoas do mesmo sexo e a adoção por homossexuais. Mas também as alterações à procriação medicamente assistida.

A Comunidade de Madrid aprovou a Lei contra a LGBT fobia que obriga a integrar a realidade homossexual, bissexual,transexual, transgénero e intersexual nos conteúdos escolares transversais de todas as escolas madrilenas, públicas e privadas.

Diogo Costa Gonçalves tem sete filhos e diz que isso já está a acontecer em Portugal. «A ideologia de género está cá. Os programas de educação sexual são em bom rigor de ideologia de género em todos os graus de ensino. Promove-se a confusão da identidade sexual. Isto é, tenho de descobrir se sou mesmo heterossexual ou não e diz-se que a família é uma construção cultural tão válida como qualquer outra relação».

Maria José Vilaça concorda e fala da sua experiência: «Hoje, nas escolas, falo com miúdos de 16 ou 17 anos que não tiveram uma namorada e a primeira ideia que têm é: “Será que eu sou homossexual ou bissexual?” Já não lhes passa pela cabeça serem heterossexuais».

Manuel Martínez-Sellés é médico cardiologista em Madrid. Vê a aprovação da lei LGBT «com enorme preocupação». Como investigador, afirma que «a ideologia de género está em total contradição com o conhecimento da ciência sobre a biologia e a realidade física. Infelizmente, esta ideologia já está a transformar escolas em fábricas de crianças sem sexo».

Também Maria José Vilaça sublinha que «não há qualquer base científica para provar que o sexo é cultural. Biologicamente e psicologicamente, um rapaz e uma rapariga são diferentes e a educação por estereótipos também não é determinante para a orientação sexual». Pelo contrário, a psicóloga diz ser «perturbador» abolir as referências ao sexo. «”Não és igual ao pai ou igual à mãe. És igual a ti próprio». É dar-lhes um vazio muito grande». Manuel Martinez-Sellés acrescenta que nos Estados Unidos da América o Colégio de Pediatria publicou um documento intitulado A ideologia de género prejudica as crianças. Nesse documento, os pediatras norte-americanos defendem que «a sexualidade humana é uma característica biológica binária objectiva” e que “ninguém nasce com um género, todos nascemos com um sexo”.

Há investigações que comprovam isto mesmo. Independentemente das diferenças culturais, sociais e económicas, homens e mulheres são diferentes. Richard A. Lippa, da Universidade da Califórnia, fez um estudo sobre preferências profissionais, com 200 mil entrevistas a pessoas de 53 países da Europa, América, África e Ásia. O investigador concluiu que os homens tendem para trabalhos mais técnicos, enquanto as mulheres preferem as ocupações sociais. Acontece em todos os países e continentes. Também o professor Simon Baron-Cohen, do Trinity College da Universidade de Cambridge, autor de Sex diferences in human neonatal social perception, constatou que os bebés meninos, com apenas horas de vida, se fixam mais em objectos mecânicos e as bebés meninas dão mais atenção a rostos humanos.

Arantzazu Perez Grande é professora primária: ensina língua e matemática a crianças de seis anos em Madrid. Católica, Arantzazu não se pode recusar a aplicar a lei, porque «podemos ser vítimas de sanções económicas ou até, no meu caso, perder o emprego, porque sou funcionária pública». Esta professora é mãe de três crianças. «Claro que me preocupa, porque quero poder dar aos meus filhos a educação e as crenças que eu tenho. Não quero que o Estado lhes diga o que têm de pensar ou no que têm de acreditar».

A Igreja Católica tem-se batido contra a ideologia do género e o Papa Francisco chegou mesmo a dizer que se trata de uma «colonização ideológica».

Em Portugal, a Conferência Episcopal emitiu, em 2003, a Carta Pastoral A propósito de Ideologia de Género. No documento, os bispos portugueses avisaram: «Se viermos a assistir à utilização do sistema de ensino para a afirmação e difusão dessa ideologia, é bom ter presente o primado dos direitos dos pais e mães quanto à orientação da educação dos seus filhos», citando a Declaração dos Direitos do Homem e a Constituição da República Portuguesa,

Que podem os pais fazer? Diogo Costa Gonçalves diz que «é preciso criar espírito crítico nos educadores. Nenhum dos nossos pais se sentou connosco a explicar porque é que o casamento é entre um homem e uma mulher. Era dado mais do que adquirido. Neste momento, vou ter de fazer isso com os meus filhos».

Além disso, socialmente, Maria José Vilaça defende que «não podemos deixar que estraguem a família» e depois é preciso «tentar não ser influenciado do ponto de vista sentimental, moral e ideológico». Mas, ao mesmo tempo, como acolher os homossexuais? A psicóloga acompanha famílias e pais e salienta que para aceitar o filho não é preciso aceitar a homossexualidade. «”Eu aceito o meu filho, amo-o se calhar até mais, porque sei que ele vive de uma forma que eu sei que não é natural e que o faz sofrer”. É como ter um filho toxicodependente, não vou dizer que é bom».

 

 

Escrito por Cláudia Sebastião e publicado em Família Cristã, novembro de 2016