Publicamos quase na íntegra a intervenção que o bispo de Gozo e presidente da Conferência episcopal maltesa apresentou por ocasião de um recente congresso dedicado – em vista do Sínodo dos bispos que terá lugar no próximo mês de Outubro – às perspectivas culturais e aos desafios pastorais relativos ao matrimónio e à família no continente europeu.

 

A vocação dos teólogos, em comunhão com o magistério, consiste em adquirir «uma compreensão sempre mais profunda da Palavra de Deus contida na Escritura inspirada e transmitida pela Tradição viva da Igreja» (Congregação para a Doutrina da Fé, Donum veritatis, 6). Esta conferência constitui um passo no rumo justo para oferecer aos nossos irmãos a luz daquela verdade que nos torna livres e que ilumina a Igreja, a fim de anunciar o Evangelho da alegria e da compaixão. As vossas investigações teológicas são fundamentais para enfrentar os desafios que se apresentam à vida matrimonial e à família, pois no próximo Sínodo a Igreja deverá oferecer respostas novas, alicerçadas na Palavra de Deus, fiéis à tradição da Igreja e «criativas». É de pouca utilidade reunir-se para repetirmos aquilo que já sabemos. É necessária uma reflexão teológica profunda na Igreja porque, como afirma o Concílio Vaticano II, ela favorece o aumento da «compreensão tanto das realidades como das palavras transmitidas» (Dei Verbum, 8).

No entanto, com a finalidade de poder dar «respostas concretas», devemos permanecer em sintonia com a experiência real das nossas famílias. Por conseguinte, considero louvável o ponto de partida da conferência: a «experiência concreta» dos desafios que se apresentam ao matrimónio e à família no continente europeu. Temos o dever de analisar com atenção e compaixão as situações em que, hoje em dia, as famílias se encontram a viver. Permiti que eu cite aquilo que já afirmei durante o Sínodo passado: «A “criatividade”, tanto na linguagem como na atitude pastoral em relação às pessoas que se encontram em situações pastorais difíceis, exige mais do que uma mera modificação exterior. Aliás, requer a busca constante de respostas novas, juntamente com renovadas abordagens pastorais que se podem inspirar nos ensinamentos dos Padres da Igreja. Seria de bom auspício que tais situações fossem averiguadas atentamente, com “erudição teológica” e “mentalidade pastoral”, para alcançar soluções pastorais adequadas, edificadas a partir de reflexões doutrinais mais aprofundadas».

Alguns têm receio de que esta experiência sinodal possa abalar os sólidos fundamentos do ensinamento da Igreja sobre o matrimónio e a família. Quanto a mim, considero que deveríamos temer sobretudo a nossa resistência ao Espírito Santo, que orienta a Igreja: um receio que deveria ser sentido por todos aqueles que amam Cristo e a sua Igreja, aquele timor Domini que constitui o initium sapientiae. Diante de Deus, todos nós deveríamos proceder a um exame de consciência, para permanecer sempre ancorados no Senhor e fazer com que as nossas reflexões e propostas sejam guiadas por um amor sincero e autêntico a Ele e à sua Igreja.

Ponderando sobre o momento contemporâneo da história da Igreja, tenho a impressão de que esta experiência sinodal não diga respeito unicamente ao matrimónio e à família, mas também à própria Igreja e ao nosso modo de viver a vocação de sermos irmãos e irmãs em Jesus Cristo. Esta caridade fraternal ajudar-nos-á a viver em conformidade com o axioma paulino maior est charitas: que o amor prevaleça sobre tudo (cf. I Cor 13, 13). Não tenho medo de uma Igreja que, como família, se interroga sobre o modo de anunciar o Evangelho no mundo contemporâneo. Ao contrário, temo uma Igreja que não consegue prosseguir o seu caminho sob a guia do Espírito Santo, para alcançar uma compreensão da verdade cada vez mais completa. Temos o dever de ir em frente com ânimo e criatividade.

Por isso, todos nós deveríamos invocar sobre a nossa Igreja o Espírito de verdade, que é também o Espírito de amor e de comunhão. Sinto-me triste quando encontro sacerdotes e leigos, com um profundo amor e dedicação ao Senhor e à sua Igreja e que, contudo, se sentem confusos e desnorteados pela reflexão e pelo debate teológico que se promovem sobre os desafios pastorais relativos à família. Admito que, por vezes, esta desorientação é devida à visão de uma Igreja dividida em dois pólos opostos entre si: os conservadores e os progressistas, que se acusam de erros recíprocos e de ser ardilosos nas suas asserções. Recordando as tentações indicadas pelo Papa Francisco no seu discurso no encerramento do Sínodo do passado mês de Outubro, que preocupam tanto os chamados conservadores como os chamados progressistas, deveríamos evitar «qualificar-nos» uns aos outros com etiquetas que dividem. Ao contrário, todos nós deveríamos ser verdadeiramente fiéis a nosso Senhor Jesus Cristo e à sua Igreja, enquanto progredimos pelo nosso caminho no mundo. Em síntese, aquilo que eu gostaria de sublinhar é que uma é ceder a compromissos com as tendências contemporâneas e populistas, e isto deveria ser evitado; e outra coisa, totalmente diferente, é ser fiel ao Espírito Santo, que representa algo não apenas louvável, mas também necessária para cumprirmos a nossa missão de proclamar o Evangelho à humanidade inteira.

Como afirma o Papa: «A Igreja deve ser o lugar da misericórdia gratuita, onde todos possam sentir-se acolhidos, amados, perdoados e animados a viver segundo a vida boa do Evangelho» (Evangelii gaudium, n. 114). É uma Igreja misericordiosa aquela que leva todos a fazer a experiência da caridade redentora de nosso Senhor Jesus Cristo! Alguns poderiam considerar esta ênfase sobre a misericórdia como um sinal de que a Igreja começa a tornar-se «sentimental», perde a clareza da visão daquilo que é verdadeiro e bom. No entanto, uma Igreja misericordiosa é aquela que transmite a verdade, cujo coração está ferido pelo amor aos homens. A misericórdia não torna a Igreja vulnerável, mas credível, porque é esta Igreja «ferida por amor» que consegue oferecer um testemunho autêntico do «Coração ferido do seu Mestre Jesus Cristo». Mais uma vez, o Papa Francisco afirma claramente: «Prefiro uma Igreja acidentada, ferida e enlameada por ter saído pelas estradas, a uma Igreja enferma pelo fechamento e a comodidade de se agarrar às próprias seguranças» (Evangelii gaudium, n. 49). Muito longe de ser «laxista», a verdadeira misericórdia é aquilo de que a humanidade e em particular as nossas famílias têm sede, para encontrar o seu único Senhor e Salvador.

L’Osservatore Romano, 23 de abril de 2015