O grupo Exército de Libertação Nacional pede a devolução do corpo do guerrilheiro e sua reincorporação simbólica ao estado sacerdotal

 

Alvear Metalli | 06 de Janeiro | ZENIT.org | Mundo | Roma

Uma surpresa nas negociações entre o governo colombiano de Manuel Santos e o grupo Exército de Libertação Nacional (ELN), a segunda guerrilha do país depois das FARC: voltou agora à berlinda um personagem que pertence aos livros de história e cujo nome é praticamente desconhecido para as gerações posteriores à década de 1990: Camilo Torres Restrepo.

Passados 50 anos da sua morte, ocorrida durante o seu primeiro combate, o padre guerrilheiro é reivindicado pela agrupação à qual pertenceu, o ELN, e para cuja fundação contribuiu pessoalmente. Dois pedidos foram apresentados pelo ELN: o primeiro é dirigido à Igreja, que, obviamente, não aprovou nem aprova a opção pelas armas que levou Camilo a entrar para a guerrilha: o ELN quer que, ao menos simbolicamente, seja restituído a Camilo o estado sacerdotal; o segundo pedido é voltado ao governo da Colômbia: que os restos mortais do guerrilheiro “sejam entregues para receberem a devida sepultura”.

Com dois tuítes na conta @eln_ranpal, a organização reclamou do governo “o gesto de paz de entregar os restos físicos de Camilo Torres, mantidos ocultos há 50 anos”, e, da Igreja, “o gesto de paz claro e demonstrativo de outorgar novamente a Camilo Torres o seu lugar como sacerdote”.

A decisão de abandonar o sacerdócio, no entanto, foi do próprio Camilo Torres, que a tomou em junho de 1965, onze anos depois de receber a ordenação. Ele resolveu entrar clandestinamente nas filas do novo movimento guerrilheiro, nascido em 1964 com claro caráter marxista. A militância durou pouco, já que Camilo Torres morreu na primeira experiência de combate, durante uma emboscada que o próprio ELN preparou contra uma patrulha militar colombiana.

Já em 1955, no documento conclusivo da primeira Conferência Geral do Episcopado Latino-Americano, realizada no Rio de Janeiro, a opção guerrilheira pela libertação foi desaprovada pela Igreja. A condenação se repetiria na Conferência Geral de Medellín, em 1968, menos de dois anos depois da morte de Camilo Torres, e nas sucessivas conferências em Puebla (1978), Santo Domingo (1992) e Aparecida (2007).

O coronel da Quinta Brigada de Bucaramanga, Álvaro Valencia Tovar, então no comando da patrulha, declarou anos mais tarde que o exército havia ocultado o corpo do guerrilheiro separando-o de outras fossas comuns. O local não foi comunicado ao público. Valencia Tovar, já como general na reserva, escreveu o livro “O final de Camilo”, no qual revelou os detalhes da polêmica morte. Segundo Valencia Tovar, Camilo Torres foi sepultado separadamente para que os seus restos fossem entregues à família em um segundo momento. Depois, em entrevista à revista Semana, declarou que o corpo de Camilo Torres foi exumado três anos após a morte e seus restos foram colocados em uma urna funerária e levados a um cemitério da cidade de Bucaramanga, onde a Quinta Brigada tinha construído um mausoléu para enterrar soldados. Novamente, a posição exata da sepultura não foi revelada.